Leiria para totós #3: Era uma vez na Pensão Beira Rio

Leiria para Totós é a informação que faltava, mas provavelmente nunca vais precisar. A cábula para quem julga que Rodrigues Lobo era o vilão da história dos Três Porquinhos. Aqui recorda-se o nome esquecido na placa, o edifício em ruínas, a estátua coberta com lingerie na semana académica. É possível que estes textos venham a ser úteis, se algum dia existir a edição Leiria do Trivial Pursuit. Fora isso, não estamos a ver.

Diz-se que os primeiros jantares de aniversário com direito a etilização jovem em grupo começaram na Rua de Tomar. Gerações e gerações de leirienses podem agradecer ao antigo dono da Pensão Beira Rio, o senhor Célio, por lhes guardar as carroças enquanto queimavam neurónios com os amigos. Outras festas famosas, muito antes de o imóvel surgir no Roteiro Korrodi, eram as de passagem-de-ano, frequentadas sobretudo pelos moradores do Bairro dos Anjos.

Ali comia-se bem, o que é sempre de louvar. Assados de caça, cozido à portuguesa, bife de lamber a frigideira e chorar por mais, frango no churrasco com tempero colonial – foi assim durante anos, com um português de Lamego, regressado de África, a comandar a casa de pasto por onde passaram médicos, empreiteiros, industriais, professores do liceu e empregados do comércio e da banca.

Para os mais novos, é só uma ruína fora da internet. Mas, ao longo de quase três décadas, o edifício amarelo vizinho da Junta de Freguesia de Leiria, encomendado ao arquitecto suíço que redesenhou o Castelo, albergou um dos restaurantes mais populares na cidade.

Nesses tempos, as pensões estavam cheias de retornados, a quem o Estado pagava o alojamento. Saíram e o estabelecimento começou a encher-se de médicos, que vinham aliviar almas no hospital logo em frente.

A família de Célio Almeida conta que ele pegou no negócio depois do 25 de Abril de 74, comprando o trespasse a um taxista de Leiria. Nesse tempo as pensões estavam cheias de retornados, a quem o Estado pagava o alojamento. Uma dezena de quartos e uma sala de refeições modesta chegaram-lhe para iniciar nova vida, com o apoio da mulher, Olga, e dois filhos, que viriam a tornar-se professores de matemática.

Saíram os retornados e o estabelecimento começou a encher-se de médicos, incluindo doutores de Coimbra, que vinham aliviar almas no hospital logo em frente, mais tarde conhecido como hospital velho. E também peregrinos de Fátima, no tempo em que a religião não viajava por auto-estrada e o IC2 ainda se chamava Nacional 1.

Depois a cidade começou a espernear e apareceram as dores de crescimento: os empreiteiros e alguns patos-bravos, à medida que mais prédios subiam na linha do horizonte. Já com nova sala de refeições a funcionar e capacidade para servir uma centena de pessoas. Havia uma esplanada com parreira onde se comia nos dias de primavera. Até que num 31 de dezembro, à porta do novo milénio, só ficaram as memórias. Um promotor imobiliário adquiriu o imóvel e indemnizou Célio Almeida pelo encerramento da casa de pasto.

O estaleiro já se vê na Rua de Tomar. O capítulo nono do Roteiro Korrodi (página 33) está prestes a ser restaurado. Um casal jovem comprou-o para o reabilitar e habitar.

Nos últimos 15 anos só há abandono e degradação, cada vez mais acentuada.

Segundo Genoveva Oliveira, autora do Roteiro Korrodi, o processo no arquivo histórico da Câmara Municipal de Leiria data de 1918, tem o número 22 e refere-se à recuperação de um prédio destruído por incêndio. Uma obra da responsabilidade da oficina de cantaria Ernesto Korrodi & Augusto Romão, numa fase em que eram sócios. Na composição das fachadas há nítida intenção de desenvolver as características da arquitectura regional do sec. XVIII, explica a investigadora. O dono da propriedade, uma quinta, era António da Costa Júnior.

E como tudo se transforma, agora o capítulo nono do Roteiro Korrodi (página 33) está prestes a ser restaurado. Um casal jovem comprou-o para o reabilitar e habitar. Adormecer todas as noites, e acordar todas as manhãs, a ouvir a respiração do rio. O estaleiro já se vê na Rua de Tomar. O edifício, reconstruído como habitação no início do século XX, que depois albergou serviços do Ministério da Agricultura, antes de receber hóspedes, volta assim à sua função original.

Texto de Cláudio Garcia
Fotografias de Ricardo Graça
Ilustração de João Pedro Coutinho
Vídeo de Bruno Carnide
(Publicado a 16 Abril 2015)