Selfie

O Olho de Lince deparou-se casualmente com uma exposição do João Ferreira e ficou impressionado com as suas fotografias a preto e branco. Sobretudo por captar tão bem a expressividade do rosto humano, o quotidiano e as especificidades culturais. Viemos depois a descobrir que a fotografia de rua e documental costuma ser o seu forte. Isso e que já publicou em várias revistas, participou em exposições colectivas e individuais e ganhou alguns prémios.
Se o encontrarem na rua com a máquina fotográfica em posições estranhas, não se admirem: é ele à procura do ângulo certo para tirar uma boa fotografia! Querem saber mais o que nos disse? Então, vejam.

“Ter olho de lince é fundamental para se ser um bom fotógrafo”

Descreve-nos o teu trabalho: o que gostas mais de fotografar, o que desejas ou gostas mais de transmitir, em que área da fotografia te sentes mais à vontade,…
O meu trabalho teve uma evolução natural ao nível do tema abordado e no “à vontade”, dividindo-se basicamente em três estágios.
O relacionamento que mantenho com a fotografia desde que a adoptei como um hobby, no início da década de 90, é de certo modo descomprometido e por vezes intermitente, mas permitindo abordar somente os temas que realmente me interessam.
Numa primeira fase, fotografava tudo o que me rodeava, com especial gosto pelos retratos, paisagens e património histórico edificado. Na etapa seguinte fotografei principalmente eventos de carros clássicos, publicando em revistas nacionais e estrangeiras da especialidade. Recentemente, desde finais da primeira década deste milénio, tenho abordado mais a fotografia de rua, mas numa vertente quase documental. Gosto de captar o quotidiano de comunidades e a sua essência, mostrando o seu habitat e tentando transmitir realidades por vezes bastante diferentes da nossa.

No início, o que te atraiu mais na fotografia?
A magia de poder registar um curto intervalo de tempo que idealizei ou percepcionei, numa imagem fixa e partilhá-la com outras pessoas. A fotografia educa-te a ter um olhar mais crítico em relação a tudo o que te rodeia.

Escolhe até três fotografias da tua autoria e conta-nos a história de cada uma delas.

20150414_Olho de Lince Preguiça_João Ferreira-Foto1
Deambulando pelas ruas do centro de Hong Kong, encontramos inúmeros estabelecimentos de comércio. Tudo se vende. Numa porta pode existir uma oficina de automóveis, na seguinte já pode existir uma mercearia. Uma panóplia de bons pretextos para fazer uma foto. Nesta fotografia, a disposição dos vegetais meticulosamente colocados, contrastavam com o caótico dos restantes elementos. No meio desta amálgama de ambientes, estava uma bela freguesa de olhar exótico, que me captou a atenção. Foi uma das primeiras fotografias que fiz no Oriente. Foto finalista do Plus Grand Concours da revista francesa Photo e integrante do meu projecto 1.3 Billion.

20150414_Olho de Lince Preguiça_João Ferreira-Foto2
Esta foto também faz parte do 1.3 Billion. Duas irmãs residentes na cidade de Shenzhen, no Sul da China, passeiam numa tarde de domingo. Numa metrópole de aproximadamente 18 milhões de habitantes, é comum ver-se crianças a passear sem a companhia de qualquer adulto.
O meu dia já ia longo e regressava ao final da tarde para o hotel. Vi estas irmãs a aproximarem-se da passadeira e tirei da mochila a minha câmara, para lhes fazer uma foto, despertando-lhes muita curiosidade, começaram a olhar fixamente para a objectiva, mas foram seguindo o seu caminho, destemidas e serenas. Foto publicada na revista Sábado.

20150414_Olho de Lince Preguiça_João Ferreira-Foto3
Baía de Havana. Duas jovens amigas contemplam a capital de Cuba, vista do lado da igreja de N. Sra. de Regla.
Foi preciso esperar algum tempo, para ter a luz que pretendia reflectida na baía e que aparecesse alguém para dar algum contexto na grandiosidade da paisagem.
Esta foto faz parte do projecto do escritor Paulo Kellerman, um conto, 25 fotógrafos.

Se tivesses de escolher um fotógrafo de referência, qual escolhias e porquê?
Escolho, sem margem de dúvidas, o melhor fotógrafo da actualidade, não só pela sua qualidade técnica, mas por toda a sua mestria na abordagem aos temas, sendo também um enorme defensor do nosso planeta: Sebastião Salgado.

Já tiveste algum momento ou situação que tivesses gostado de fotografar mas, por alguma razão, não conseguiste?
Vários, mas destaco uma visita a um templo budista, onde havia imensos monges em meditação e estava uma luz formidável. Teria sido um bom local para desenvolver um trabalho documental.

Qual a situação mais embaraçosa ou inusitada em que tiveste para conseguires tirar uma fotografia?
Por vezes pareço um malabarista, colocando-me em posições pouco ortodoxas para fazer determinadas fotografias naquele ângulo que idealizei. É frequente colocar-me de cócoras para conseguir um plano mais rasteiro do ambiente a fotografar e já aconteceu uma pessoa ir distraída a passar por mim, tropeçar e deitar-me ao chão!!!

Com a chegada dos telemóveis com câmara e com as redes sociais começou-se a verificar uma ‘overdose’ de fotografias. Na tua opinião, esta situação prejudica ou beneficia a fotografia?
Vivemos na era da massificação da imagem, obviamente que a fotografia sai beneficiada com esta democratização e partilha de milhares de milhões de fotos diariamente nas redes sociais. Temos assistido à revelação de excelentes trabalhos fotográficos que de outra forma dificilmente teríamos acesso. Hoje temos meios, embora com algumas limitações, que nos permitem fazer uma foto a qualquer momento e isso é benéfico para a fotografia. Nunca assistimos a uma era tão bem documentada ao nível da imagem, como a que atravessamos actualmente. O crítico será sempre separar o trigo do joio e saber distinguir para que fins é pretendida essa fotografia.

O que é preciso para ser um bom fotógrafo: é só ter olho de lince?
Ter olho de lince é fundamental para se ser um bom fotógrafo, mas é como se soubesses só as vogais para começares a escrever. Paralelamente, tens que desenvolver todas as outras ferramentas técnicas e sensoriais. Acima de tudo é ter a capacidade de dedicar todo o conhecimento que tens na área e o tempo necessário, a cada projecto em que te envolves.

Que local, pessoa e objecto gostarias ainda de fotografar?
Local: A Agência Espacial Europeia.
Pessoa: O primeiro astronauta português a pisar a Lua… se isso acontecer.
Objecto: O Space Shuttle

Entrevista de Catarina Pedro
(Publicada a 23 Abril 2015)