antonio luis campos
Se António Luís Campos tivesse de construir um álbum de fotografias da sua vida, talvez incluísse nessas páginas: uma imagem de Coimbra, a sua cidade Natal; uma enquanto sócio e dirigente da Quercus, altura em que adquiriu o gosto pela fotografia de Natureza; uma foto do dia em que obteve o diploma de engenheiro electrotécnico; dos países onde viveu; as que foram capa da revista National Geographic; das inúmeras viagens e aventuras em que participou; e das suas exposições. E talvez arrumasse este álbum junto aos livros de fotografia de que é autor. Diz que gosta de contar histórias através da fotografia e texto. Ao Olho de Lince recordou algumas. Ora vejam:

Descreve-nos o teu trabalho: o que gostas mais de fotografar, o que desejas ou gostas mais de transmitir, em que área da fotografia te sentes mais à vontade…
A minha génese fotográfica foi com a fotografia de Natureza. Progressivamente fui alargando o espectro, e migrei para a reportagem documental, sobretudo desde que comecei a trabalhar com maior regularidade com a National Geographic, há 12 anos.

No início, o que te atraiu mais na fotografia?
A riqueza natural de Portugal, a fauna, a flora, as paisagens. Ainda hoje isso tem uma forte influência no meu trabalho: gosto de abordar temáticas em que o ambiente esteja presente, pela positiva ou pela negativa.

Escolhe até três fotografias da tua autoria e conta-nos a história de cada uma delas.

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Adoro fotografia aérea. Não é fácil, pela logística envolvida, mas dá uma nova perspectiva da realidade terrena em que vivemos. Esta imagem, tirada junto à ria de Aveiro, tem uma figura humana, embora seja quase imperceptível. Depois de a descobrirmos, descobrimos a escala e a solução para o padrão que nos surge.

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Fotografar borboletas foi um projecto de longo prazo que desenvolvi e que culminou na publicação de um livro sobre as borboletas do rio Mondego. Este detalhe, da asa de uma Charaxes jasius, mostra a sua beleza delicada de uma forma diferente.

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Uma foto de uma pequena guerreira, Letícia, nascida surda e que, muitos meses depois, graças a um implante coclear, ouviu pela primeira vez. Acompanhei todo este processo, desde os testes prévios, a operação, e a terapia da fala, tão ou mais importante, para o ensino da base de comunicação.

Se tivesses de escolher um fotógrafo de referência, qual escolhias e porquê?
Sebastião Salgado. Sobretudo com o último grande trabalho, “Génesis”, faz um círculo que o completa (ainda mais) como documentarista, da reportagem pura e dura à fotografia mais contemplativa.

Já houve algum momento ou situação que tivesses gostado de fotografar mas, por alguma razão, não conseguiste?
Muitos. Ou por motivos técnicos, ou porque as condições reais não mo permitiram, ou simplesmente porque não tinha uma máquina fotográfica comigo. Acontece. Ficam-me como inspiração para próximas vezes.

Qual a situação mais embaraçosa ou inusitada em que estiveste para conseguires tirar uma fotografia?
Na operação cirúrgica de uma criança, quando aguardava que esta acordasse no pós-operatório, com a mãe, ao lado da cama, numa sala enorme e só nós os três lá. Fiz apenas meia dúzia de fotos em três horas, tão pesado era o silêncio.

Com a chegada dos telemóveis com câmara e com as redes sociais começou-se a verificar uma “overdose” de fotografias. Na tua opinião, esta situação prejudica ou beneficia a fotografia?
Altera, mas não é significativamente melhor. Acho que a boa fotografia se destaca, ainda assim. A morte da fotografia já esteve anunciada várias vezes: quando veio a cor, quando chegou a televisão, quando se popularizou o vídeo, e mais recentemente com o advento da internet. Continua cá, e de boa saúde!

O que é preciso para ser um bom fotógrafo: é só ter olho de lince?
Persistência. Para evoluir tecnicamente, para maturar enquanto ser humano, para desenvolver as competências sociais que são indispensáveis a qualquer fotógrafo. Não é apenas o clicar do botão. É tudo o que está por detrás desse instante. E, claro, ter um certo dom.

Que local, pessoa e objecto gostarias ainda de fotografar?
Local: Himalaias. Pessoa: Barack Obama. Objecto: Acelerador de partículas do CERN.

Para conhecer melhor o trabalho de António Luís Campos:
antonioluiscampos.com
blog.antonioluiscampos.com

Entrevista de Catarina Pedro
(Publicado a 7 Maio 2015)