Conto13_Ilustracao_intPedimos voluntários para a nova série de contos. Paulo Kellerman elaborou o questionário e eles responderam. Agora são personagens dos textos de duas dezenas de autores aqui na Preguiça, com ilustrações de João Pedro Coutinho. De 15 em 15 dias, a ficção imita a realidade.

A SAÍDA É A DA PORTA DA CASA

Fernando José Rodrigues

A saída é a da porta da casa.
Mais ninguém saberá por que razão ela partiu, naquela noite, assim tão de repente, leve como o vento.

Foi e levou consigo uma história por contar, pedaços de asas, a voar, a subir, a querer ir mais alto.

Idade parecia já não ter ou se ela parecia existir, corria devagar por entre os caminhos do tempo, devagar, muito devagar.

Se lhe perguntassem porque tinha soltado amarras daquele jeito tão inesperado, é provável que não soubesse o que dizer. Mas ela sabia, as decisões de uma vida, por muito imprevistas que se revelem, têm respostas, sempre respostas. Muitas respostas.

Gostava dela, da sua vida, de a viver uma e outra vez, como se o gosto fosse isso mesmo, a repetição do que já foi, refeito até à exaustão. Mas chegara um tempo que precisava de um novo espaço, sem o qual viver se transformaria num desfazer, num esboroar de memórias.

A saída foi a da porta da casa.

Num momento decidido, com uma pequena mala que pouco poderia levar e com sonhos num bolso desfeito, rasgou a madrugada porque queria ser livre e encontrar uma voz que se assemelhasse ao amor. Era assim, suspirou, só isto, sem nada demais, ser livre e não ter medo de ser feliz.

Não tenhas medo do amor, algo lhe sussurrara: uma janela antiga, um pátio por acabar, um desejo por cumprir, uma gota de água de chuva oblíqua, uma viagem por fazer, uma árvore que cresce nas extremidades do jardim.

Quero ser feliz!, repetiu-se e soltou-se na madrugada, respirando o ar fresco que pousava delicadamente nas sombras cada vez mais dispersas, atravessando o caminho em direcção à distância.

A saída será a da porta da casa.

O reflexo do que fui, não será aquilo que um dia voltarei a ser. A face que se revelar no espelho será diferente, alegre, outra, de um entusiasmo que me faz chorar todos os dias e me pede que não perca a ambição de conseguir a fantasia.

Quero ser eu. Quero ser alguém. Quero mudar o mundo, a começar por mim.

Definitivamente?

Texto de Fernando José Rodrigues (a partir de questionário respondido por pessoa que pretende permanecer anónima)
Ilustração de João Pedro Coutinho
(Publicado a 14 Maio 2015)