Lisa Teles 1

Se há coisa que levanta o queixo à Preguiça é divulgar talentos que podiam publicar noutras chafaricas – e chafaricas com muito mais nível. Coça-nos o ego e preenche a missão que propusemos no quase longínquo ano de 2013. Da escrita on the road à fotografia com telemóvel, já não é a primeira vez que se vê por aqui algo com jeito. E quem tiver dúvidas pode vasculhar os arquivos do site, que não paga mais por isso.

Agora, esta é a parte do discurso em que não dizemos nomes, para evitar esquecer alguém. Com uma excepção: Lisa Teles, a mão atrás do arbusto, ou, numa versão menos conspirativa, a autora do blog Bicho Quer Ser Gente. Personagem meio homem meio animal, a quem aparentemente não ensinaram maneiras: já o vimos a espancar mulheres, a matar formigas com um martelo e a roubar a esmola de um sem-abrigo. Para chegar aonde? Adivinharam: ao poder. E sem querer revelar já o último episódio da série, acaba bem para ele. Não há contos de fadas, ganha o vilão.

Se procurarem no histórico da Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha (ESAD.CR), vão encontrar a Lisa Teles a licenciar-se em Design Gráfico. Já o traço que é a impressão digital do Bicho, começou a nascer no recato do lar, em experiências de gravura, com alguns pedaços de madeira ‘roubados’ a um tio, goivas compradas no chinês e tintas que andavam por ali, sem especial utilidade.

A ideia do Bicho que Quer Ser Gente também estava assim, à espera de quem a apanhasse. O convite da Preguiça a Lisa Teles devolveu-lhe a vida e abriu caminho ao blog que se vai publicar até Agosto. “Decidi fazer um statement, apontar o dedo ao que não acho correcto”, explica a antiga aluna do Politécnico de Leiria.

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Já perceberam: o Bicho simboliza a hipocrisia, a ganância, o culto das aparências. Como não podia deixar de ser, prima por vestir bem, sempre impecável no seu fato escuro e gravata vermelha, assim à moda dos burlões bem falantes que enganam velhinhas nas aldeias. Mas debaixo dos tecidos de marca, ele é capaz de tudo, desde ir a Fátima pagar promessas às cavalitas de um peregrino até esconder cravos de Abril na despensa, junto com os enfeites de Natal e as máscaras do Entrudo.

“O Bicho não distingue o que é certo do que é errado”, diz-nos a Lisa, claramente afeiçoada ao animal, não obstante ele ser um pulha da pior espécie. “Os bichos por tendência repugnam e as pessoas têm medo deles”. Mas “as pessoas também erram”. Ora, em que ficamos? Neste trajecto do Bicho que Quer Ser Gente, uma tentativa de humano, as pessoas toleram-lhe as maldades porque se trata de um bicho ou, pelo contrário, são elas próprias que se vão tornando menos pessoas, à medida que os dias passam e a vida mais parece um jardim zoológico?

As respostas ficam para a edição em livro, provavelmente com textos inéditos a acompanhar, provavelmente através da editora Escaravelho, que Lisa Teles, 26 anos, criou no final de 2014 com Cátia Marcelino. E, quem sabe, com exposição no Covil da Preguiça. Mas isso só lá para o Verão, depois do Bicho se tornar Gente.

Texto de Cláudio Garcia
Fotografia de Ricardo Graça
Ilustração de Lisa Teles
(Publicado a 14 Maio 2015)