João Ramos (5)

João Ramos palmilha a Europa no encalço do metal, mas não só; ainda na semana passada foi à Bélgica a um festival de pós-rock. Ontem a Preguiça falou com ele, mas hoje já está em Santiago de Compostela a exercer o seu direito cívico de festivaleiro profissional.

Começa por contar um segredo que os pais não sabem, e diz-se tranquilo com isso pois, em princípio. “Eles não vão ler isto”, diz. A sério, João? Parece que ainda há malta que não conhece o longo braço da Preguiça. Mas ele arriscou, jogou tudo no vermelho, e há que lhe gabar a ousadia… desde que depois não se queixe.

O segredo tem a ver com o seu primeiro festival: em Julho de 1999, estava ele a passar férias com os pais no Algarve, disse que ia a casa de um amigo ali na zona, e rumou sozinho, com apenas 15 anos, para o estádio Nacional do Jamor, em Lisboa, com o intuito de ver Metallica, no festival T 99. Voltou no dia seguinte, e, aparentemente os pais nunca souberam. A Preguiça não é de intrigas, mas se calhar isso vai mudar. Façam apostas.

À esquerda, João Ramos com Jens Kidman dos suecos Meshuggah e à direita com Chuck Billy, dos norte-americanos Testament.

À esquerda, João Ramos com Jens Kidman dos suecos Meshuggah e à direita com Chuck Billy, dos norte-americanos Testament.

Tem tido um percurso ligado à música também como técnico de som, onde esteve, por exemplo, no bar Alfa, em A-do-Barbas, Maceira, numa altura em que havia uma programação regular de concertos com bandas nacionais. Militou também na banda Assacínicos, de António Cova, onde respondia com teclados e samplers pelo alter ego de Cyborg.

A paixão é sobretudo metaleira. Andou pela Polónia como técnico dos leirienses Spiteful, mas também gosta de jazz, e é um frequentador, sempre que pode, das noites jazzísticas no recreio dos Artistas, o espaço do Nariz – Teatro de Grupo.

A sua banda de eleição são os norte-americanos Ministry, um colectivo de rock/metal industrial, que conta com o seu clássico disco de 1992, Psalm 69: The Way to Succeed and the Way to Suck Eggs, e já os viu algumas vezes, umas por prazer, uma outra quase por obrigação “porque havia rumores de que eles iam acabar”, esclarece.

Faça chuva ou faça sol, já lhe aconteceu, na Suíça, ficar com lama até aos joelhos, o que foi um desatino para entrar no avião na viagem de regresso. Faz quase sempre campismo, pois fica mais barato, e como é vegetariano, as escolhas diz serem limitadas pois não conhece muito as iguarias estrangeiras, e então fica habitualmente pela cerveja, com piza para empurrar… ou ao contrário.

Os melhores conselhos que este festivaleiro pode dar são os habituais. Planear tudo com antecedência – só assim é que se conseguem bilhetes de avião a 30 euros para Barcelona, por exemplo; levar calçado confortável, pois são muitas horas em pé; arranhar o inglês e ter espírito aventureiro.

João não está sozinho nisto, e ao longo dos anos foi conhecendo pessoas de outros países que também fazem o circuito europeu de concertos. “O metal tem seguidores muito fiéis, por isso vejo muitas caras conhecidas em diversos sítios”, confirma.

Um dia destes, a Preguiça larga esta crise de meia-idade e vai com ele para contar como foi. Não sendo a praia deste escriba, há que confessar que este texto foi escrito ao som dos Meshuggah, e soube muito bem. Querem ver que já converteram mais um?

Texto de Pedro Miguel
Fotografias de Ricardo Graça e João Ramos
(Publicado a 21 Maio 2015)