Selfie.SofiaMota
A convidada desta semana, Sofia Mota, diz: “Não consigo viver sem esta coisa da imagem.” Ela explica que o primeiro contacto com a fotografia, na altura analógica, aconteceu há alguns anos, quando frequentava o curso de Psicologia. Mais tarde teve a oportunidade de aprofundar a técnica através de formações e de iniciar um projecto pessoal em torno da temática sobre a Fé. Hoje estuda chinês – in loco, já que é na China que vive, há um ano – que, curiosamente, e como ela própria evidencia, é uma linguagem muito gráfica. Entre caracteres chineses e histórias de nos deixar de olhos em bico, deixou-nos o seu testemunho.

“Fotografar é um exercício de liberdade de coração e olhar”

Descreve-nos o teu trabalho: o que gostas mais de fotografar, o que desejas ou gostas mais de transmitir, em que área da fotografia te sentes mais à vontade…
Acho que neste meu caminho pela fotografia cada vez aprecio mais fotografar mais coisas, mais gentes, mais lugares, sejam eles concretos ou subjectivos, mais fés e esperanças… mais surpresas e conceitos que se vão (re)criando… E agora, neste lado de cá do mundo, sinto que alguma coisa se está a passar neste caminho pela imagem… mas, francamente, ainda não sei o quê… como se diz por cá “慢慢走“ (“manmanzou”), ou seja, devagar, bem devagar, lá chegarei, ou não… e este percurso no lusco-fusco da descoberta também está a ser muito gratificante. Se, no início, tinha algum tipo de preferência quanto ao que ver ou fotografar, hoje isso não acontece. Gosto de ver, de experimentar e de tentar tirar partido disso mesmo e, se possível, conceber ou desenvolver qualquer coisa. Transmitir? Transmitir a quem vê a possibilidade de poder criar o que muito bem entender… Quanto ao “à-vontade”, fotografar é um exercício de liberdade de coração e olhar… e se por um lado estaria nesse à-vontade em todas as circunstâncias, por outro, e paradoxalmente, esta coisa de a “exercer” é uma aprendizagem constante… o que é muito bom.

No início, o que te atraiu mais na fotografia?
O poder da imagem de nos fazer contemplar, viajar, recordar, imaginar… Lembro-me de olhar para fotografias e ficar horas ali “colada” aos pormenores, cores ou não, a fazer estórias do que estava e não estava na imagem. Por outro lado, a fotografia tem esse imenso poder de parar… é uma feiticeira do tempo e do espaço; é a bengala da memória, e por vezes é a própria memória do que somos, do que vemos e do onde vivemos.

Escolhe até três fotografias da tua autoria e conta-nos a história de cada uma delas.

sofia mota (3)

Esta imagem faz parte do projecto Oníria. Escolhi esta fotografia porque marca um trabalho que muito prazer me deu fazer. Em conjunto com a Sílvia Patrício foi uma espécie de simbiose criativa, que, penso, representa uma mais-valia e crescimento, preciosos. Mais tarde contámos ainda com o João Nascimento na sonoplastia e grafismo e o Ricardo Portela na realização de uma curta. Todo o processo que integra esta imagem é-me inesquecível. A Oníria do sonho começou aqui a ser realidade! Foi feita ali perto da Nascente do Lis, com uma produção somente dependente da luz do sol e das respectivas sombras e debaixo de alguns olhares curiosos e muita diversão à mistura!

sofia mota (1)

Esta foto faz parte de um trabalho permanente que ando a desenvolver de há uns anos para cá em torno deste mistério que é a Fé. Foi tirada na Bênção das Traineiras, em Buarcos, e representa o que para mim é uma espécie de fé contemporânea. Por outro lado, minutos depois de ter feito este registo e, como na altura me encontrava adoentada, desmaiei ali em frente ao altar, tendo sido socorrida por estes bons cristãos… E tendo continuado a registar esta representação religiosa. É uma imagem que marca também o meu percurso na fotografia… e esta minha pequena “obsessão” pelo tema em causa.

sofia mota (2)

Bem, estamos com um retrato, área que também muito me atrai. Esta coisa das caras com alma. Este foi tirado na minha primeira semana em Pequim, no Palácio de Verão. Como em todo o lado por estes lados, a gente é sempre muita, os rostos, as expressões, os sorrisos e olhares… Tantos e todos tão tentadores do ponto de vista fotográfico. Este senhor encantou-me desde o primeiro olhar… Disse um 你好 (olá) sem tom certo, mas que foi acolhido desta forma ou, pelo menos, foi assim que foi sentido pelos meus olhos e foi uma boa sensação! Estava com a câmara e, com a maior naturalidade fotografei, sem qualquer constrangimento de ambas as partes! Não sei, vejo aqui muitas histórias, histórias antigas, contadas com doçura.

Se tivesses de escolher um fotógrafo de referência, qual escolhias e porquê?
Não consigo escolher só um… Martin Parr, neste absurdo da realidade; Sebastião Salgado, que dispensa qualquer justificação; Nan Goldin, no universo do que anda muitas vezes ao lado; Jeff Wall e as suas recriações de um imaginário incrível; Alfredo Cunha e os seus pretos e brancos que documentam o mundo; os irmãos Gao, no panorama das artes plásticas chinesas em que usam a fotografia de forma única; sei lá… são tantos e tão bons. E desculpem que nem vou referir-me aos “clássicos”!

Já tiveste algum momento ou situação que tivesses gostado de fotografar mas, por alguma razão, não conseguiste?
Isso acontece quase todos os dias… há sempre alguma imagem ou muitas que, por alguma razão, escapam… agora então, neste permanente admirável mundo novo em que vivo é caso para dizer “cada tiro, cada melro”.

Qual a situação mais embaraçosa ou inusitada em que estiveste para conseguires tirar uma fotografia?
Já aconteceram algumas… desde ter sido ameaçada com uma pistola (das verdadeiras), ao desmaiar numa missa de praia em frente ao altar enquanto fotografava esta coisa da Fé. Mas não posso deixar de referir que a única vez em que ouvi sirenes da polícia na China foi precisamente quando vinham à minha procura. Estava a trabalhar no projecto “O forte das duas fontes” que esteve em exposição no Estilhaços por essas terras do Lis, baseado na vida, para mim desconhecida, de um bairro de Pequim, em que de repente um senhor que não gostou de me ver ali a fotografar me impediu de ir embora sem antes ser devidamente identificada pela polícia. Se até este dia nunca tinha ouvido sirenes nesta imensa cidade, foi num misto de espanto e receio que vi aproximar-se a grande velocidade um carro da polícia que mais parecia estar a perseguir um criminoso… Saiu “o polícia bom” que felizmente falava inglês e o “mau” que me insultava em chinês… fui revistada, identificada e todas as imagens que tinha na câmara seguiram para “serviço superior” para serem revistas e penso que “aprovadas”. Depois de uma espera um tanto longa voltámos todos à nossa vida. Correu bem! No Cambodja apanhei uma cerimónia que pensava ser um casamento. Fui acolhida… deram-me de beber e comer, andava lá a fotografar e passadas umas horas quando quis dar os devidos parabéns aos noivos, informaram-me que estava numa cerimónia fúnebre!

Com a chegada dos telemóveis com câmara e com as redes sociais começou a verificar-se uma “overdose” de fotografias. Na tua opinião, esta situação prejudica ou beneficia a fotografia?
É uma espécie de pau de dois bicos: se por um lado pode “prostituir” a fotografia, nomeadamente para quem dela vive ao mesmo tempo que “nos” afoga em imagens, por outro também permite descobrir coisas muito boas que por aí se andam a fazer. Também acho que é um momento do qual sairá qualquer coisa… Quero acreditar que depois da tempestade venha a bonança, que depois desta espécie de overdose, a necessidade de abstracção da mesma traga muita coisa boa.

O que é preciso para ser um bom fotógrafo: é só ter olho de lince?
O olho de lince vê o que o coração deixa com ajuda da técnica.

Que local, pessoa e objecto gostarias ainda de fotografar?
Local: Todos por onde puder passar, quer fisicamente quer com o pensamento… mas assim uma coisa especial? A Terra, lá de cima… gostava muito de a fotografar. Pessoa: Cada pessoa tem a sua magia… Para além de todas?… Gostava de fotografar o Tom Waits! Objecto: Não sei…

Para conhecer melhor o trabalho da Sofia Mota:
facebook.com/Photo.Mira
facebook.com/sofiampmota

Entrevista de Catarina Pedro
(Publicado a 21 Maio 2015)