‘O Caldas Morreu, Viva o Caldas!’ É este o mote da edição 19 do Caldas Late Night, objecto estranho, por vezes também fálico na atitude, surgido na cidade das Caldas da Rainha no ano da graça de 1997 por estudantes e pessoas ligadas às artes.

Primeiro, o sermão pelo padre Manuel João Vieira:

Posto isto, convém dizer que neste fim-de-semana de 29 e 30 de Maio – mas que arranca já na noite de 28, com um cortejo a cargo da Banda de Comércio e Indústria das Caldas da Rainha e um concerto de Manuel João Vieira– a movida caldense vai estar forte.

Com mais de 110 artistas, e outros tantos que se queiram juntar à festa para exorcizar e abrir as suas veias artísticas, de preferência com muito sangue e quebras de tensão à mistura, é de lembrar que as entradas são inteiramente gratuitas.

O mote de que a festa está a morrer tem a função de provocação, algo que está no ADN do certame desde o início. O que parece não deixar de ter um certo papel denunciador de alguma apatia generalizada, sendo esta uma oportunidade para participar e agitar as águas daquela cidade do Oeste português.

A Preguiça foi às Caldas e falou com alguma da ‘velha guarda’ do evento: neste caso, os artistas João Pombeiro e Gonçalo Pena, que deram conta do ambiente que se vivia quando o ‘Caldas’ foi criado. “Era um ambiente único”, refere Gonçalo Pena.

Nesses primeiros anos em particular, o ambiente do ‘Late Night’ não era alheio ao facto de a escola ter sido fechada várias vezes a cadeado, devido a problemas entre a Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, e o Instituto a que pertence, o Politécnico de Leiria.

“Na altura, isto estava tudo um bocado a ferro e fogo, chegou a vir cá a televisão. Muitas das aulas eram no exterior, era um ambiente um pouco explosivo, um pouco abrilista e isso era muito importante porque criava uma espécie de entusiasmo para uma fuga da escola”, relembra Gonçalo Pena, artista plástico e ex-docente daquele estabelecimento de ensino.

Flyer da edição de 2001

Flyer da edição de 2001

À mesa, a puxar pela cabeça de como a coisa tinha acontecido, o exercício de memória faz-se e vão surgindo nomes e há um consensual: Daniel Lima. Nisto, aparece Filipe Feijão, um dos participantes da primeira edição que reforça a ideia e acrescenta outro nome. Eduardo Sousa, entretanto falecido.

Assim, e depois de um brainstorming colectivo, arrumam-se as ideias e a génese do ‘Caldas’ conta-se da seguinte maneira: Daniel Lima tinha participado num evento que tinha acontecido em Lisboa no início dos anos 90, chamado ‘Lisboa Fora D’Horas’, organizado por Francisco Vasco Fernandes.

Por sua vez, este happening baseava-se num evento que tinha acontecido em Bruxelas intitulado ‘Les chambres d’amis’, onde havia a noção de juntar artistas para intervir de alguma maneira. Assim, anos mais tarde, Daniel Lima e Eduardo Sousa criaram em 1997, em plena revolução em curso, o Caldas Late Night.

Este ano, o argumento centra-se na eventualidade de este evento acabar, se a actual geração de novos artistas que actualmente estuda naquela escola não se interessar pelo Caldas Late Night. É natural que com os tempos, as vontades mudem e as referências também.

Já se sabe que as opiniões são como as vaginas: cada uma tem a sua e quem quiser dá-la, dá-la. Ele é o vídeo deste ano que está fraquinho, ele é o cartaz que não foi a votação, etc… Diferenças de opinião sempre existiram, mas a apatia acaba com o resto.

Pelo sim pelo não, o melhor é celebrar este ‘Caldas’ como se fosse o último.

caldaslatenight.com/
facebook.com/clnight

Texto de Pedro Miguel
Flyer 2001 cedido por João Pombeiro
Artwork (capa) por Borboto
(Publicado a 28 Maio 2015)