cafecristalNem só de estrelas Michelin vive o mundo. Com sal, um fio de azeite e massa de alho temos a cama pronta para o bife mais famoso da Marinha Grande – uma receita com 70 anos criada por José Ascenso Ferreira, que passou para Vítor Edra e que agora volta a mudar de mãos, no centro da cidade capital do vidro.

O mundo estava a sair da segunda grande guerra, Portugal ainda vivia sob ditadura, e a Marinha Grande já era um bastião de resistência, quando o Café Cristal tomou o lugar de uma antiga casa de ferragens, na Rua Machado Santos. Nesse tempo havia engraxador de sapatos, porta giratória, tabuleiros de damas e xadrez, máquinas de bilhar. E serviam-se torradas com cevada, além dos conhecidos queques.

Bifes à Ferreirinha, só para os clientes especiais, numa sala discreta com quatro mesas, localizada nas traseiras. Entre eles, as elites marinhenses que deram à casa o título de café dos industriais: Aníbal Abrantes, que chegava de Rolls Royce, Carlos Ceia Simões, que chegava de motorista, o Tovim das bombas de gasolina, Floriano Ferreira da Silva, Manuel Barosa, João Azambuja, Joaquim Cardeira, o Zé do Vale (fabricante dos primeiros olhos de vidro para humanos em Portugal), o António Barata da tipografia e também o advogado José Henriques Vareda e o Dr. Laborinho a despachar escrituras às três e quatro da manhã. Mais recentemente, Henrique Neto, Joaquim Menezes e Jorge Martins (falecido em 2014). Homens com ligação às maiores empresas, clubes desportivos e associações culturais, que ajudaram a definir o rumo do concelho.

Vítor Edra e Ana Paula Edra casaram-se a 14 de Março de 1981 e a 2 de Maio ficaram com o trespasse do Café Cristal. Ele na cozinha, segurando a tradição do bife à Cristal e juntando-lhe outros pratos populares como o arroz frito com gambas, a cataplana de robalo com marisco e o arroz de tamboril, ela no lugar de relações públicas, às vezes sentada à mesa com os clientes mais chegados, que eram também amigos.

No livro de honra constam os nomes de Mário Soares e da cantora Simone, mas foram as figuras da terra que fizeram do Café Cristal o centro dos acontecimentos, testemunha de uma parte importante da história da capital do vidro e dos moldes para plásticos, nos tempos em que o coração da Marinha Grande pulsava naquelas ruas em redor dos Paços do Concelho e tão perto da Fábrica Escola Irmãos Stephens. “Era aqui que as pessoas se encontravam, discutiam futebol e apostavam nos dias de jogos, resolviam negócios e faziam política”, recorda Ana Paula Edra.

Transformado em restaurante bar no ano de 1988, começou a receber famílias hospedadas em São Pedro de Moel durante o Verão, que rematavam o dia de praia com um jantar no Cristal. Na década de 1990, os leirienses tornaram-se a maioria dos clientes durante um certo período – e foi também na década de 1990 que se escreveu a página mais negra do Café Cristal: um duplo homicídio passional vitimou dois clientes na sala de refeições e fez parar a cidade.

Entretanto, nos últimos anos, além dos convívios de Dia dos Namorados, Dia da Mulher e Natal, instalou-se a tradição dos jantares de Carnaval no Cristal, com grupos de mascarados em aquecimento para a ronda das colectividades.

Ao fim de 34 anos, “a idade e a saturação” convencem Vítor Edra e Ana Paula Edra a despedirem-se do Café Cristal. No sábado, dia 30, serviram os últimos bifes. No próximo sábado, dia 6, a casa reabre com nova gerência. Eles garantem que dali só “levam tudo de bom”.

Texto de Cláudio Garcia
Fotografia de Bruno Carnide
(Publicado a 4 Junho 2015)