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Podíamos apresentar Luís Filipe Catarino como o fotógrafo oficial do actual Presidente da República e já não seria pouco. No entanto, o trabalho dele não fica por aqui. Nos tempos livres publica no seu blogue e contribui para a agência 4SEE, que ajudou a fundar há 10 anos, com o intuito de mostrar ao mundo o que alguns fotógrafos portugueses fazem. Passou a considerar-se fotógrafo profissional quando se juntou à equipa de fotojornalistas do semanário Expresso, onde registou vários acontecimentos políticos, desportivos e sociais. Mais tarde, para além de fotógrafo, foi também editor de fotografia da revista Volta ao Mundo. Porque é que gosta de trabalhar na área da fotografia? Isso e outras coisas é o que ele tem para nos contar. Oram vejam.

“Gosto de pensar que sou uma testemunha da História”

Descreve-nos o teu trabalho: o que gostas mais de fotografar, o que desejas ou gostas mais de transmitir, em que área da fotografia te sentes mais à vontade…
Gosto de pensar que sou uma testemunha da História. Tanto da História do nosso país como das pequenas histórias do quotidiano. Como fotógrafo oficial do Presidente da República tenho o privilégio de registar muitos acontecimentos que ficarão a fazer parte da nossa identidade como povo e que poderão influenciar o nosso futuro colectivo. Enquanto fotógrafo viajante tento relatar a vida das pessoas que vivem nos locais por onde passo e conhecer melhor os nossos semelhantes. No fundo, em ambas as facetas da minha actividade fotográfica, o que tento fazer é documentar as vivências.

No início, o que te atraiu mais na fotografia?
A capacidade de síntese das imagens. Podermos mostrar várias coisas que acontecem ao mesmo tempo à nossa frente e suspender tudo isso no tempo para as contemplarmos as vezes que quisermos, passarmos alguma mensagem sobre o ser humano.

Escolhe até três fotografias da tua autoria e conta-nos a história de cada uma delas.


Como no dia do 105.º aniversário de Manoel de Oliveira, o Presidente Cavaco Silva não pôde encontrar-se com o aniversariante (porque estava a voltar de Joanesburgo, regressando das exéquias oficiais em memória de Nelson Mandela), no dia seguinte deslocou-se a casa do cineasta para lhe dar os parabéns. Foi um encontro muito terno, em que Manoel de Oliveira partilhou vários momentos da sua longa vida enquanto pedia para lhe trazerem molduras de cima de uma mesa. A luz do candeeiro e a forma natural com que ele apontava para certos detalhes com a bengala fez-me dar por mim a pensar que era um privilegiado ao assistir a uma comum conversa de amigos, mesmo tratando-se do Presidente e do cineasta há mais tempo activo no mundo inteiro na altura.

Guide Foussani Guindo walks through the rocky formations in the Bandiagara Escarpment. The Dogon Country is the most visited part of Mali with tourists visiting its tipical  villages that can be located on the cliff, on the sandy plain or in the rocky plateau
Fousseni foi o nosso guia no País Dogon, uma região do Mali carregada de tradições, espiritualidade e beleza cénica. Os seus dois irmãos mais velhos angariam clientes na capital, Bamako, e na segunda cidade, Mopti. Ele é o terceiro irmão da família e ama a sua terra, daí ser o guia. Nos cinco dias de caminhada pela Falésia de Bandiangara fizemo-nos amigos e conversámos sobre muita coisa à luz de fogueiras e de estrelas. Fiquei a saber que já tinha um casamento arranjado, mas que não queria casar-se com uma mulher que não amasse. Demo-nos tão bem que seguiu connosco até Timbuktu, navegando pelo rio Níger, mesmo que nunca lá estivesse estado antes.

Four generations of turkish women waiting with different clothing in a street near New Mosque (Yeni Cami), in Istanbul.
Gosto desta imagem que fiz em Istambul, ao lado da Nova Mesquita, por haver uma espécie de gradação nas roupas destas quatro mulheres, que parece representar as diferenças entre quatro gerações de turcas. A Turquia foi um daqueles lugares onde andei fascinado a fotografar na rua.

Se tivesses de escolher um fotógrafo de referência, qual escolhias e porquê?
Eugene Richards. Porque fotografa realidades extremamente difíceis entrando na intimidade dos sujeitos que segue, ganhando a confiança daqueles que o deixam documentar as suas vidas e ao mesmo tempo tratando-os com respeito. A sua obra consiste em trabalhos profundíssimos sobre a condição humana, onde as imagens nos contam histórias complexas.

Já tiveste algum momento ou situação que tivesses gostado de fotografar mas, por alguma razão, não conseguiste?
Sim, algumas vezes. Teve sempre que ver com ter de pagar para fotografar. Por exemplo, na minha recente viagem à Índia visitei a cidade santa de Varanasi, que para a religião hindu tem um especial significado, já que quem ali morrer não será mais reencarnado e atingirá o nirvana. A maior parte dos corpos é cremada em pilhas de madeira junto ao rio Ganges, num ritual que gostaria de fotografar. Porém, não sendo permitido fazê-lo, foi-me sugerido oferecer uma doação à pessoa responsável, coisa que não quis fazer para não desrespeitar quem estava de luto e as suas tradições, além de não querer contribuir para um possível esquema.

Qual a situação mais embaraçosa ou inusitada em que estiveste para conseguires tirar uma fotografia?
Não sei se é a menos usual, mas uma vez, num velho hangar do aeroporto de Bissau, enquanto participava numa entrevista com Ansumane Mané – o líder de uma das facções da guerra civil que se travava entre as forças deste e as do Presidente Nino Vieira -, ele despiu a t-shirt com padrão de camuflado para mostrar as cicatrizes nas costas e gritou várias vezes “Nino bandido!”.

Com a chegada dos telemóveis com câmara e com as redes sociais começou-se a verificar uma “overdose” de fotografias. Na tua opinião, esta situação prejudica ou beneficia a fotografia?
É benéfica, é uma democratização da fotografia. Embora, como li outro dia, a boa fotografia só faz sentido quando encontra assuntos originais, quando mostra algo novo, pessoal e revelador. Dentro da “overdose”, a maior parte não será boa fotografia, mas quem olha consegue distinguir o que vale a pena do gratuito. As redes sociais e os telemóveis abriram também campos que podem ser explorados pelos profissionais para fazerem melhor marketing do seu trabalho, como por exemplo certos fotojornalistas que utilizam estes novos meios para mostrarem os trabalhos interessantes que andam a fazer e “atiçar” a curiosidade sobre a sua produção.

O que é preciso para ser um bom fotógrafo: é só ter olho de lince?
É um lugar-comum, mas é preciso ter paixão, em primeiro lugar. Como paixão, a fotografia compete com tudo o mais das nossas vidas, por isso tem de fazer parte do nosso dia-a-dia, das nossas preocupações, da nossa insatisfação constante. A paixão motiva-nos para aprendermos e sermos trabalhadores e fazermos com que o nosso possível talento escondido floresça.

Que local, pessoa e objecto gostarias ainda de fotografar?
Local: Gostava de voltar a muitos lugares e conhecer todos os países onde ainda não fui… Por isso, não sei por onde começar. Pessoa: Vou tomar o “ainda” da pergunta como se ainda o pudesse fazer amanhã: o meu Pai. Objecto: Não gosto de fotografar objectos materiais, não me desafiam, prefiro “ter como objecto” um tema.

Para conhecer melhor o trabalho de Luís Filipe Catarino:
luisfilipecatarino.com
blog.luisfilipecatarino.com

Entrevista de Catarina Pedro
(Publicada a 4 Junho 2015)