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Nuno Gaivoto, artista plástico, numa entrevista que se impunha, lança um olhar atento e crítico sobre o mundo que o rodeia. A jogar em várias frentes, com muitos projectos em curso, comenta um dos temas mais quentes da actualidade leiriense, assim como de Ourém, onde reside.

Qual é a primeira memória que tens de um rabisco teu?
Pergunta difícil! Posso compará-la a uma outra pergunta: “qual é a primeira memória que tens de comer chocolate?” Gosto de chocolate, mas da primeira vez que o comi não me lembro.
A realidade é que sempre tive muitos lápis e canetas para desenhar e fazia-o muito naturalmente, desde muito cedo, mas ter memória de um primeiro rabisco não consigo. Tendo em conta que com 2 ou 3 anos, todas (ou quase todas) as crianças desenham e pintam porque são completamente livres e desapegadas de qualquer compromisso com o real ou de um gosto imposto. O desenho/rabisco não é mais do que uma interpretação da nossa “observação”do mundo que nos rodeia, pelo que no meu caso deve ter sido tão natural, que não ficou retiro na memória.

SOMEWHERE OUT THERE, 2015 acrilico tela, 160x180cm

E o momento em que decidiste em que talvez a pintura fosse uma hipótese de carreira? Houve algum momento preciso?
Na escola primária já sabia que queria estudar algo relacionado com pintura ou desenho, portanto terá começado aí. No liceu tive de sair da minha zona de conforto e ir estudar para Tomar do 10.º ao 12.º ano, por não haver a opção de Artes em Ourém. Posteriormente entrei na ESAD em Caldas da Rainha, e aí sim poderá ter começado a minha dita “carreira”, quando comecei por participar em exposições colectivas e também algumas individuais.

Mas acho a palavra “carreira” muito pesada e algo limitada; além do mais, lembra-me o nosso amigo “Tony”. Gosto mais da definição de “percurso” ou até mesmo de “projecto”.
Profissionalmente, não vivo somente da pintura, portanto encaro a “carreira” em si, não mais do que uma oportunidade de mostrar o meu trabalho sem estar constantemente fechado no atelier.

Consegues situar a tua obra em alguma corrente estética?
Seria curioso que essa pergunta fosse feita a quem observasse o meu trabalho de fora e que dedicasse o seu tempo a decifrar o que os artistas fazem. Considero que actualmente não faz sentido rotular o meu trabalho ou outro qualquer numa corrente artística ou estética.

Posso identificar-me com as cores da Pop Art, com paisagens do Romantismo, com a luz dos ambientes barrocos, com um registo um tanto ou quanto mais expressionista, com uma temática nonsense emoldurada em frames cinematográficos, com uma matéria escultórica resultante do simples contraste claro-escuro aliada a um humor mordaz e irónico com apontamentos kinky e pornográficos, mas até pertencer a uma outra corrente é difícil.

Em resumo, tem tudo e nada a ver umas coisas com as outras, nada mesmo. Mas para mim faz todo o sentido e resulta no MEU processo criativo e de desenvolvimento como artista. Vou colando as peças. Há quem goste do caos, e por vezes ele é belo, mas o difícil é fazer simples.

BUSH AND THE BANANA, 2008,120x100cm acril tela

Inevitavelmente temos de falar nas tuas referências: que nomes te saem logo à primeira quando te perguntam que autores é que admiras?
Admiro artistas completamente diferentes, tais como: Andy Warhol, Basquiat, David Hockney, Francis Bacon, Gerhard Richter, Velasquez, Turner, Goya, Courbet, Pedro Calapez, Rui Chaves, Jorge Queiroz, Gonçalo Pena, Tiago Baptista, João dos Santos, Leonardo Rito…
David Lynch, Stanley Kubrick, Wong Kar Way, Krzysztof Kieslowski…
David Bowie, Patti Smith, Cat Power, PJ Harvey, Lou Reed, Leonard Cohen, entre outros e outros…

Ao referir admiração, quero dizer que é possível que visite alguns dos trabalhos dos artistas mencionados, tal como visito recortes da internet, revistas ou de jornais. Ao visitar ou revisitar, tiro partido do que nelas mais me intriga, de detalhes, de composições, de iluminação, de enquadramentos e de temas. Depois misturo tudo, altero, agito, recorto e sobreponho usando uma técnica em muito semelhante à técnica dos cut-ups de William Burroughs (cortando e colando).

Desde já assumo que não tenho o objectivo de hipnotizar ou controlar o público, mas posso tentar alterar a maneira como vêem algumas imagens e suas associações. Segundo Burroughs, existia uma espécie de simbiose: o vírus sobrevive, o hóspede sobrevive, ninguém se aleija, saem ambos a ganhar.

Como te relacionas com a tela em branco?
Mal, muito mal! São bonitas, ali branquinhas à espera que as possuam. Talvez a minha relação não seja assim tão negativa, será uma relação de amor/ódio. Uma tela em branco potencia uma outra com cor, com matéria, com composição, com narrativa que pode potenciar outras interpretações; portanto, não se fecha em si.

Numa tela em branco é evidente e iminente a descoberta de alguma coisa, e é nessa descoberta que reside o trabalho do pintor, na procura da “última” imagem (só para tornar isto um pouco mais espiritual, aqui entram uns “pan pipes” para reforçar o ambiente).

A primeira coisa a fazer é a destruição total do branco, ainda que sem ideia do que fazer: é pintar, camadas e camadas de tinta para criar um fundo. Muitas vezes, esse mesmo fundo de tão livre que é pode influenciar a composição ou até mesmo direccionar toda uma série de pinturas. É muito comum acontecer algo inesperado num dito fundo e depois tirar partido dele. Faz parte do processo criativo e da constante procura de novas linguagens pictóricas.

AUSTRAUNAULT IN A GAUGUINS LANDSCAPE 2009 150X100

Sendo tu de Ourém, mas com ligações artísticas a Leiria, agora mais a frio e passado o factor surpresa inicial, como olhas para Leiria como Capital Europeia da Cultura em 2027?
O ano de 2027 está longe. Prognósticos só no final do jogo, mas a “cultura” está na moda, portanto fica bem e assenta que nem uma luva em qualquer cidade. E será que a luva cabe na mão? A resposta é que é mais complicada. É um projecto ambicioso, embora sinceramente tenha ficado com a sensação que foi apresentado de forma muito ligeira e quase como quem tem a ideia de fazer um churrasco lá em casa.

Há muito trabalho pela frente e algum já deveria ter sido feito. Terão de repensar Leiria como cidade, como espaço para acolher vários eventos culturais sem cair no simplismo que é (como tem vindo a ser hábito) tornar Leiria num palco de arraiais e festivais popularuchos.

Em ponto de alerta, não concordo com a construção de espaços unicamente destinados para receber uma “Capital Europeia da Cultura”; concordo, sim, com a revitalização dos espaços existentes (que são inúmeros), mas o mais importante é que sejam integrados com a dinâmica cultural da cidade e à escala da cidade e que posteriormente possam ser mantidos e não transformados em outros elefantes brancos.
Os elefantes brancos ficam bem rodeados por zonas verdes, portanto não se esqueçam de cortar mais algumas árvores, ok?!?

Quanto à candidatura, seria bom que a Câmara ponderasse e não ficasse orgulhosamente só, por sua vontade, mas que chamasse a participar no projecto artistas de várias áreas e as várias associações culturais existentes. E disse VÁRIAS, de modo a que não sirvam somente a interesses puramente amigo-políticos, públicos e (ou) a entidades privadas.

A frio, quase gelado, vejo um ponto positivo e talvez meio egoísta, mas olho-o a 25 km de distância, e a uns 30 a 40 minutos de carro. Portanto, sendo assim tão perto poderei tirar partido dessa Capital Europeia da Cultura mais facilmente e, quem sabe, contribuir para ela.
We never know!

LADIES BEHAVE, 2010, 100X100CM acrílico.

LADIES BEHAVE, 2010, 100X100CM acrílico.

E Ourém? O que contas aí da linha da frente? Que pulso cultural sentes?
Não há linha da frente! Há pessoas que se juntam para ver cinema de 15 em 15 dias porque partilham o gosto pela sétima arte com um objectivo de, quiçá, um dia formar um cineclube. Todas as sextas-feiras um grupo de amigos, Los Pastilhados, reúne-se para fazer uma “não-música” criando novas definições, tais como electro drone psy junk, todos sem qualquer formação musical (aqui também eu entro).

Há um programa de rádio semanal de música mais alternativa e estranha para muita gente. Existem grupos de teatro com trabalho constante e que, de alguma maneira, revitalizam as associações recreativas que representam. Ourém tem uma nova geração ligada às artes, música, vídeo, fotografia, literatura, mas que por razões profissionais estão fora da “pequena cidade” e que voltam apenas para visitar a famílias nas quadras festivas.

Existem escolas de música que têm vindo a educar os alunos e também a localidade com concertos regulares de boa qualidade. Em resumo, existe potencial mas a uma escala muito pequena e caseiríssima. Porém, como a “cultura” é vista como uma borla, as “entidades” servem-se da boa vontade daqueles que realmente gostam do que fazem para exibir um suposto trabalho reivindicando sua autoria sem haver qualquer tipo de investimento, quer em recursos humanos quer em disponibilização de espaços ou equipamentos.

Por outro lado, o pulso cultural dito oficial/institucional em Ourém é de um “morto vivo”, bate pouco, muito pouco. Um “walking dead” da cultura: ele mexe-se, mal e aos trambolhões, caminhando sem qualquer destino à vista; vagueia em busca de atenção.

É um “Ourém em festa” tal como alguém falou em “Leiria em festa”, mas com uma escala muito mais pequenita: com os seus mercados dos produtos da terra, festas e concertos no dia da cidade e pouco mais. Ainda assim, estamos melhores. No passado, nem sequer havia pulso; portanto, é o que temos.….
Sejamos francos: a adesão do público em geral é fraca, talvez porque a própria comunicação do que acontece não passa para a população da melhor maneira e se não houver uma boa sardinha assada e minis, ninguém aparece.

Alguns simples exemplos gritantes: Temos um cineteatro com 499 lugares, sem a projecção de um filme há uns anos e com pouca manutenção. Cinema acabou, mas ainda assim houve o anúncio de um festival de Cinema internacional na calha (vemos aqui algo de paralelo com Leiria, será!?)

O teatro tem o seu ponto alto uma vez por ano com a “Cena Ourém”, onde várias associações recreativas e grupos de teatro amador têm a oportunidade de apresentar as suas peças. No entanto, peças de teatro que venham de fora, na sua grande maioria são “revistas” em pacotes promocionais que dão a volta ao país e enchem as almas mais populares.

Existe uma Galeria Municipal e que é mais do que suficiente; contudo, não está preparada para receber exposições. Tem um pé direito baixo, não se pode pregar na parede, divide o espaço com o posto de turismo e todo o seu merchandising promocional exposto para venda. É um dois em um, que a meu ver limita muito o espaço (já pequeno) e revela um provincianismo atroz. Porquê complicar o que é simples, quatro paredes brancas minimais com iluminação e, muito importante, nada de berloques.

“Et voilà”, vamos atrás das modas, seguimos esta onda do espectáculo popular de domingo à tarde para agradar a malta com arraiais, festivais disto e daquilo que servem unicamente para encher a agenda cultural.
Não se leva a sério a cultura como sendo a história desta ou daquela sociedade, mas sim como algo para entreter as massas. No limite, lá vão caindo uns votos.

ÉDEN, 2013, 180X160cm, acrilico tela.

ÉDEN, 2013, 180X160cm, acrilico tela.

Júlio Pomar referiu numa entrevista que a haver uma “cor Pomar” seria um vermelho frutado, assim para o silvestre, com laivos de violeta. Há uma cor Gaivoto?
“Cor Gaivoto”… nunca tinha pensado nisso! Tenho muita dificuldade em resumir-me numa só “cor”, num só “filme” ou numa só “música”. O que é hoje pode não o ser amanhã, daí que eu não goste de resumir as minhas escolhas numa só.

Para mim a Cor é Luz, é o que realça todos os intervenientes numa composição e destaca o que é para ser realçado.
Não posso escolher uma cor, apenas e só uma cor. Tenho muito mau feitio: sou o resultado de muitas cores e em modo flash ou strobe. A cor branca ao pé de um amarelo fluorescente transforma-se em cinzento.

È obvio que a ostentação da cor actua e actuará (sempre) na minha pintura desmedidamente de uma forma lasciva e abundante, chegando mesmo a abalar a própria percepção de quem a observa. Sendo assim, não posso afirmar que existe uma “cor Gaivoto”: tanto uso cores fluorescentes como uso cores muito escuras em contraste com suaves. E é nesta manipulação de ingredientes que reside a magia da pintura e a sua contínua capacidade de nos surpreender.

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Quanto à tua obra, no que estás neste momento a trabalhar?
Estou a trabalhar em várias frentes. Pinturas rápidas em papel, onde exploro várias composições geométricas rompidas por paisagens de contrastes compostos por degradés e (ou) “pantones”.

Por outro lado, tenho mesmo de arrumar o atelier. O caos tem limites. Estou a iniciar uma série de pinturas para a minha próxima exposição, lá para o final do ano, na Galeria Quattro. Encontro-me ainda naquela fase do nó e dos fundos com a pintura ao ritmo da música que oiço no atelier.

Continuo na procura de cenários ensaiados que contemplam um imaginário romântico e luxuriante dividido entre a paisagem, geométrica ou não, e figurinos/acções retirados/as de um quotidiano próprio e quase cinematográfico.
Persigo uma difícil “leveza” em partilha com o “Belo” e o “Sublime”, quase em modo de sequela da minha última exposição “LUXUMÀTICA” no final de 2013.

Não se espere que eu tenha virado um clássico chato com retoques de vintage, mas nesta fase nem eu sei o que esperar e do que está por vir. Por vezes é difícil conciliar a minha actividade profissional com a pintura; logo, tenho a tendência de complicar o simples e o tempo teima em fugir-me a sete pés.

Qual foi o trabalho que mais gozo te deu fazer?
Talvez o projecto que participei com o João dos Santos (JP) na pintura das Urgências da Pediatria do Hospital de Santo André. Foi, sem dúvida, um dos projectos que mais prazer me deu. O desafio era totalmente diferente daquilo a que estou habituado.

Durante a sua execução, foi um trabalho de meses aos fins-de-semana, e a duas cabeças com uma única preocupação (não encarada como tal): fomentar a liberdade da criançada às inúmeras interpretações que poderiam resultar das nossas pinturas.

Onde podemos encontrar as tuas obras?
Ui, por todo o lado, da China ao Dubai, da praia de Vieira a Lagos. Tropeça-se numa pedra da calçada e salta uma pintura de Nuno Gaivoto. Podemos encontrar as minhas pinturas na Galeria Quattro, em colecções privadas nacionais e estrangeiras e, claro, no meu atelier, em Ourém.
Estou a iniciar uma série de pinturas para a minha próxima exposição, lá para o final do ano, na Galeria Quattro e tenho outros projectos que, lamentavelmente, ainda não os posso revelar. Vamos ver.
And the show must go on.

Entrevista de Pedro Miguel
Fotografias de Nuno Gaivoto
(Publicado a 11 Junho 2015)