selfieEm criança pediu uma máquina fotográfica à mãe. Porém, só muitos anos depois é que viria a interessar-se realmente pela fotografia. Começou por utilizar o digital, mas como não ficou satisfeito, mudou e trabalha agora com película. A sua relação com a fotografia é muito pessoal: envolve-se na criação de algo que trabalha fisicamente e, durante esse processo, tende a projectar o seu mundo. A fotografia documental é actualmente a área com que mais se identifica, embora também goste de a cruzar com a conceptual. Falamos de Tiago Bartolomeu, o convidado desta semana do Olho de Lince.

 

“Mesmo nas minhas fotos de paisagem está lá a minha história”

Descreve-nos o teu trabalho: o que gostas mais de fotografar, o que desejas ou gostas mais de transmitir, em que área da fotografia te sentes mais à vontade.
Acima de tudo, fotografo por prazer. Neste âmbito, considero-me um privilegiado pois, sendo amador, posso dar-me a esse luxo, de fotografar apenas por prazer. Os temas que gosto de fotografar foram evoluindo ao mesmo tempo que a minha paixão pela fotografia. Hoje aquilo que mais gosto de fotografar são conceitos. Tenho um “caderninho” que é o meu espaço de criatividade acumulada e em maturação. Lá escrevo as ideias que me parecem ter potencial para um projecto e deixo-as a macerar durante algum tempo até encontrar a situação ideal para as colocar em prática ou, acontece também, abandoná-las por mais tempo. O que me faz sentido hoje pode deixar de fazer na semana que vem e, quem sabe, passado um ano voltar a ter validade. Para mim, a fotografia é um processo. Normalmente sem tempos definidos. Fotografar em película, revelar, ampliar e manipular são outros elementos que fui acrescentando ao meu processo e, através dos quais, retiro ainda mais prazer e que me ajudam a valorizar as minhas imagens. Olhando para trás e para as tendências que fui manifestando, diria que o documental se tornou um pouco o domínio maior da minha fotografia. Ainda assim, não sou capaz de olhar para essas fotos sem colocar lá a minha história. Tento sempre acrescentar mais algumas dimensões, tal como noutras mais conceptuais. Mesmo nas minhas fotos de paisagem está lá a minha história.

No início, o que te atraiu mais na fotografia?
Desde miúdo lembro-me de gostar de fotografia. Já não me recordo da idade que tinha quando, a meu pedido, a minha mãe me ofereceu a minha primeira câmara. Mudei de prioridades e só bem mais tarde voltei. Comprei a primeira câmara quando fui trabalhar para um mundo novo e procurava um escape para os tempos livres, o caminho estava traçado. Ao regressar a Portugal acabei por me relacionar com um grupo de pessoas que tinham como interesse comum a fotografia e isso tem uma influência muito grande, tanto no meu desenvolvimento artístico como pessoal.

Escolhe até três fotografias da tua autoria e conta-nos a história de cada uma delas.

1. freiras manipuladas

Esta foto conta uma história de quebra de fronteiras. Olho e vejo: igreja, capitalismo e preconceito, mas também liberdade, aventura, descoberta e promiscuidade. O enredo a depender do dia e do estado de espírito.

2. Mértola_preguiça

Nesta imagem encontro vários planos possiveis. Posso ver ali um vulcão em erupção. Mas agrada-me muito mais ver a quebra de dimensões criada pelas linhas. A condução do olhar pelas linhas ilude-me quanto ao plano onde me situo. De alguma forma a imagem deixa-me desconfortável e gosto disso.

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Fins de tarde, frio na rua… Regressar já a casa não se coloca. A sobriedade não se encaixa em mais uma noite repetitiva de 16 longas horas escuras. A voz da Heikki soa melhor daqui a três horas…

Se tivesses de escolher um fotógrafo de referência, qual escolhias e porquê?
Podiam ser tantos e de tantos estilos. Escolho o Benjamin Goss pois faz um trabalho que combina uma série de vertentes da fotografia que aprecio imenso e .. vão ver as suas imagens para perceber melhor.

Já tiveste algum momento ou situação que tivesses gostado de fotografar mas, por alguma razão, não conseguiste?
Digo várias vezes que fotografo com os olhos. Se não tenho uma câmara, construo a imagem na minha cabeça e guardo-a para mim. Acho que é sempre possível.

Qual a situação mais embaraçosa ou inusitada em que estiveste para conseguires tirar uma fotografia?
Lembro-me de decidir parar o carro e fazer umas boas centenas de metros para trás porque o texugo morto à beira da estrada não me deixou seguir viagem.

Com a chegada dos telemóveis com câmara e com as redes sociais começou-se a verificar uma “overdose” de fotografias. Na tua opinião, esta situação prejudica ou beneficia a fotografia?
A fotografia enquanto forma de expressão sairá sempre beneficiada quando o acesso às ferramentas se torna banal, pois dá oportunidade a qualquer pessoa de se exprimir dessa forma. Isto resulta no ponto de vista de uma primeira abordagem à fotografia. Daí para a frente tudo se altera pois essa “overdose” de imagens acaba por lhes retirar valor. Deixámos de olhar para as fotografias como algo precioso, tal como fazíamos nos tempos das fotografias impressas. Deixámos de olhar para os fotógrafos como técnicos ou artistas competentes pois qualquer um com uma câmara na mão se pode julgar fotógrafo. No final, acredito que os erros e a competência acabarão por separar o trigo do joio.

O que é preciso para ser um bom fotógrafo: é só ter olho de lince?
Muita paixão e dedicação. Ser fotógrafo tem tanto de prazer como de suor. Só o treino e domínio das técnicas, a autocrítica e a exposição à opinião dos outros nos ajuda a evoluir. Ensina-nos a saber o que gostamos e não gostamos, a saber o que os outros apreciam ou não, e isso treina o nosso olho de lince! A fotografia é muito mais do que apenas a representação do real; ela é principalmente o meio para representar as imagens que a nossa mente idealizou, da forma que idealizou e com as sensações que queremos transmitir.

Que local, pessoa e objecto gostarias ainda de fotografar?
Local: Um cenário que ainda vou imaginar. Pessoa: O retrato atrai-me muito e gostava de desenvolver essa vertente da fotografia. Como tal, e neste momento, diria que todas as pessoas. Objecto: Não me ocorre nenhum em particular.

Para conhecer melhor o trabalho de Tiago Bartolomeu:
http://cargocollective.com/tiagobartolomeu
https://www.facebook.com/tbartolomeu

Entrevista de Catarina Pedro
(Publicada a 18 Junho 2015)