conto15

Pedimos voluntários para a nova série de contos. Paulo Kellerman elaborou o questionário e eles responderam. Agora são personagens dos textos de duas dezenas de autores aqui na Preguiça, com ilustrações de João Pedro Coutinho. De 15 em 15 dias, a ficção imita a realidade.

ELA DETESTAVA POESIA

Joana Oliveira

Ela detestava poesia.

A ambiguidade das palavras. Os duplos sentidos. A falta de objectividade. As metáforas. A emoção exponencial. O raciocínio extinto.

A vida é o que é. A beleza está onde está. Não a encarcerem em palavras. Não lhe atribuam sentidos ocultos e desdobráveis. Códigos ininteligíveis, pretensiosos. Que nem quem os escreve parece entender.

A vida não rima. Nem é para se espartilhar com monósticos, dísticos, tercetos, quartetos, quintilhas…

A vida é o que é. Deixem-na ser. Isso já é poesia suficiente.

“Deixa o blá, blá, blá. Sabes bem o que quero de ti. Qual o uso que prefiro que dês à língua.” Dizia ela, sorriso lascivo, ao homem que viveu a vida como se fosse uma ode à liberdade, enquanto ele lhe afagava os seios redondos, de auréolas pequenas rosadas, que lhe encaixavam nas mãos como se essa fosse a única razão da sua existência: encaixar nas mãos daquele homem que lhe sussurrava ambiguidades, códigos inteligíveis, com sentidos ocultos, aos mamilos que se erguiam, entendendo. Ao ventre liso, arfante do lirismo. Às coxas suaves, também redondas, tensas, com o respirar das palavras. Ela detestava poesia. Mas o corpo dela não. Perdia-se, desdobrava-se e ensandecia na sonoridade dos versos dissipados pela voz rouca do seu amante.

Depois da guerra. A grande e segunda do mundo, embora o mundo sejam guerras e todas as guerras, pequenas ou grandes, sejam guerras mundiais. Quando Salazar apertava o país num colete, cerceado e asfixiante, com as cordas do fascismo, da ditadura, do autoritarismo, da censura. Ela decidiu fazer uma pausa na sua licenciatura de matemáticas aplicadas. Um mar académico navegado por homens, preconceito, chauvinismo e valores bacocos que apenas uma mulher pouco a dada a convenções e de pés bem assentes nas suas vontades, tinha força para marear. Isso e a sua beleza que distraía os seus oponentes das suas oposições, que ao vê-la, a adicionavam às equações dos seus desejos e fantasias. Distraídos do facto de que naquele corpo a inteligência era tão abundante como a perfeição nas suas formas.

Foi com o pretexto de ver o mundo e entendê-lo com os seus olhos que agarrou nas poupanças feitas a dar explicações a meninos e meninas de famílias ricas, cujo dinheiro não lhes abonava a inteligência, e seguiu pela Europa em guerra ou, em rescaldo.

Não foi preciso ir muito longe para se apaixonar.

Nunca soube muito bem o que é que ele era, porque os seres livres não são nada e são tudo.

Ali, ao lado do grande portal barroco e escuro da catedral de Santiago de Compostela, com o santo peregrino de soslaio, foi dar com ele a trinchar um naco de pão de côdea e um chouriço cuja carne e gordura se despregavam já ao corte do fio da sua afiada navalha com cabo de madeira, que tantas vezes repetiria aquele gesto na breve eternidade que passariam juntos. Olharam-se e não foi preciso dizer mais nada, embora tivessem trocado as palavras que os seres trocam, imprescindíveis à verbalização de introduções. Ele andava de bicicleta sem saber muito bem por onde, e ela decidiu segui-lo na bicicleta ferrugenta e descompassada à qual atou a mochila de sarja com que viajava, comprada a um padeiro desgraçado que a vendeu no desespero de arranjar dinheiro para ver se tirava o filho da cadeia e o salvava da execução certa por um pelotão de fuzilamento franquista.

Desde esse encontro/união na catedral espanhola de todas as convergências da fé católica que os seus corpos sucumbiam no avistar de protuberâncias arquitectónicas. As imposições fálicas da humanidade, dissimuladas na devoção do divino. Meras vaidades humanas, braço de ferro Homem/Natureza. Fosse qual fosse o sentido daquelas construções. Fosse qual fosse o estilo da torre. Românico, gótico, renascentista, rococó, ou neo-qualquer-coisa. O desejo que ambos sentiam era ingovernável e com ele agarrado ao corpo, puxado pela força das suas pernas nas quatro rodas das suas bicicletas em equilíbrio sobre a roda maior, a roda Terra, percorreram a Europa. Nela foram ensaiando o seu amor e o seu encaixe físico nas noites onde se deitavam debaixo das torres sineiras, dos torreões das catedrais, dos faróis à beira-mar, e se metiam corpo adentro, perdendo a noção de que eram dois corpos. França, Bélgica, Holanda no rescaldo da guerra, das gentes de olhar atordoado mas a acreditar no futuro. A Polónia e a Alemanha ainda em desalento. Na Áustria-Hungria, no país onde o monstro de bigode e olhos pesados tinha nascido. Em Viena foram até uma galeria onde ela viu o quadro mais bonito e mais inquietante. Era o quadro de um beijo. Aquilo eram eles os dois. Embrulhados nos seus cobertores, no dourado cósmico da sua paixão. No seu encaixe. Mas ela viu outra coisa. Viu um homem que a devorava com amor e lhe tirava a magia dos números, que os tornava obsoletos e inúteis. Um homem prestes a engoli-la. E teve medo.

E depois veio o frio, as chuvas. As flores que já não assomavam na beira do caminho. E ela, na opressão de uma Europa ainda cheia de costumes e previsibilidades, começou a sentir a falta dos números, da certeza, do chão certo. Em todo o caso, aquilo era só uma pausa, um só ver o mundo e ela já tinha visto o mundo dos outros que chegasse. Queria um mundo dela. Na sua matemática, um mais um eram dois, três, até quatro filhos. Era uma casa. Era um marido. Não era aquilo, aquela poesia, aquela ambiguidade, aquela incerteza, aquela aventura sem destino. Aquele amor que ela acreditava então ser só paixão (e só mais tarde soube que não, que era muito mais do que isso). Aquele mero encaixar dos corpos.

Ele queria continuar perdido, “só assim” dizia ele – “se encontraria alguma vez “, embora isso nem fosse o mais importante para ele porque o que ele queria era apenas ir. Queria ir até outras espiritualidades, outras verdades, outras gentes, outras montanhas. Ia em direcção à Índia, disse ele.

“Vem comigo. Prometo que te amarei até te amar. Que me farás feliz nesse tempo. Que nunca te deixarei faltar a poesia.”

Mas ela detestava poesia.

Na última noite que passaram juntos deitaram-se debaixo da torre Eiffel e entrelaçaram-se de forma obtusa e metálica como se forçassem os corpos a desencaixar. Mas os corpos fundiram-se como sempre se fundiam. O único desencaixe ali eram as suas vontades e os seus medos.

Na manhã seguinte, de corpos frios, antecipando a sentença anunciada daquele amor paixão, ele foi levá-la à estação de comboios da gare de Lyon, à porta da qual ela abandonou a sua bicicleta salva-vidas e o amor da sua vida (embora então não o soubesse). Ele só lhe pediu mais uma vez na sua voz rouca que os olhos claros acentuavam:

“Vem comigo.”

Ela não respondeu e não trocaram mais palavras. Não havia mais nada para dizer. Um aceno sem lágrimas e uma viagem de regresso onde ela não fez outra coisa senão chorar, como se com aquela água toda conseguisse erguer uma ilha à sua solidão e ao seu erro.

Chegou a Lisboa de olhos vermelhos. Regressou à faculdade. Terminou o curso de matemáticas aplicadas com distinção. Casou-se com um colega. Nunca lhes faltaram números, nem desafios matemáticos, nem filhos – três. Eram muito amigos. E faziam tudo o que dois seres fazem por amor, ou por respeito, ou talvez até que existam vários tipos de amor e seja tudo o mesmo. Mas os seus corpos nunca encaixaram. As mãos dele eram demasiado pequenas e os seios dela, que foram ficando mais fartos e carnudos com a maternidade e o tempo, sobejavam. Os seus pés demasiado achatados e curtos, nos quais tropeçava quando dançavam e com os quais era difícil acertar o passo quando caminhavam lado a lado. E o sexo silencioso, audível apenas nos fragores viscerais. Vá-se lá entender a matemática da vida. Tinham tudo para serem felizes (e foram), mas ficou sempre algo por preencher. Como se existisse um criador, que não existe, que dividisse um ser em dois. Como se o verdadeiro desafio da vida fosse encontrar a metade que encaixa. A metade que nos preenche nas nossas incompletudes.

O tempo deu-lhe a vantagem de passar depressa e de não lhe sobrar, entre as tarefas de mãe, mulher e matemática. Por isso tão pouco cedeu a grandes devaneios existencialistas, que não eram, em todo caso, coisa à qual cedesse.

E o Portugal, do qual saia apenas em férias e conferências, mudou também. Veio mais uma guerra numa parte do mundo que foi nossa, sem que nunca lhe tivéssemos tido direito. A ditadura que caiu da cadeira. Os cravos. Os capitães. As liberdades. O país encheu-se de possibilidade, e esperança, e Europa que prometeu nunca mais cometer o erro da guerra. Que abriu fronteiras e uniformizou os destinos económicos. Mas vão sendo metades que tão-pouco parecem encaixar. Ou por serem muito grandes, ou muito pequenas… ou vá-se lá entender a matemática da vida.

E o tempo passou. Até ela ser, o que se chama às pessoas da sua idade, velha. Até ter netos. Até ter bisnetos. E um dia o marido morreu. E uns dias mais tarde ela quase morria também, na dolência da sua ausência. Esteve um dia em coma. Lá e cá. E reencontrou-se com o homem livre que amou debaixo dos torreões e das torres fálicas da Europa e do homem que foi seu marido e com o qual resolveu os problemas matemáticos da vida, sem, no entanto, os conseguir encaixar na sua soma. E soube então que tinha amado e tinha sido amada. Podia morrer em paz.

Mas não morreu.

Quando despertou do coma e se viu restituída de forças, vendeu o apartamento de Lisboa. Comprou uma bicicleta e uma pequena casa à beira-mar lá para os lados da Arrábida. Aos fins-de-semana os bisnetos iam de visita e juntos seguiam pelas montanhas nas suas bicicletas, olhando o céu, o mar. Fazendo descobertas e vivendo naquele mundo de fim-de-semana.

Num desses dias, ela levou um bloco e uma caneta, decidida a trocar as equações complexas de álgebra por um poema que escreveria quando chegassem ao promontório de olhos no mar, onde sempre iam para piquenicar, dormir a sesta e estar assim naquela paz, naquele todo.

Um pássaro levantou voo e sobrevoou. E se o pássaro escrevesse, que não escrevia porque era pássaro, escreveria:

Está ali no cimo daquele monte uma mulher velha, bela ainda, de seios fartos, deitada no chão. Os seus cabelos prateados longos, abertos num delta, cobrindo as ervas e as flores. O seu vestido de flores. Na mão direita, um bloco com páginas vazias e uma caneta. No seu rosto um sorriso, como se um raio de sol o tivesse desenhado. Uns metros abaixo, três crianças descobrindo o mundo, colhendo pedras e flores e adivinhando que pássaro sou na linguagem dos homens.

“Olha aquele pássaro a voar por cima da avó com o peito vermelho – é um pisco”.

E se o pássaro falasse, que não falava, porque era pássaro, diria então à mulher de bloco na mão e que queria escrever um poema pela primeira vez:

“A vida é o que é. Deixa-a ser. Isso já é poesia suficiente.”

Texto de Joana Oliveira (a partir de questionário respondido por pessoa que pretende permanecer anónima)
Ilustração de João Pedro Coutinho
(Publicado a 25 Junho 2015)