Última oportunidade para ver no Teatro Miguel Franco, em Leiria, o terceiro documentário longo do realizador Jorge Pelicano: hoje, quinta-feira, dia 25, depois das 21h30. Várias vezes premiado em festivais nacionais, ‘Pára-me de Repente o Pensamento’ mergulha no quotidiano do Hospital Psiquiátrico Conde Ferreira (no Porto) e faz ascender a personagens principais diversos utentes diagnosticados com esquizofrenia. Para auxiliar a narrativa, o actor Miguel Borges trabalhou durante várias semanas na instituição, inserido no grupo de teatro interno que junta funcionários e doentes mentais. Um processo de construção do actor e da pessoa, entre cigarrinhos, cafezinhos, corredores vazios e rotinas que materializam a realidade, uma abordagem inédita comentada nesta entrevista pelo realizador natural da Figueira da Foz.

Preguiça Magazine  Antes deste trabalho, qual tinha sido o teu contacto mais próximo com a doença mental?
Jorge Pelicano – Nenhum. Apenas, desde pequeno, ouvir os meus pais dizerem que, se não me portasse bem, ia para o hospital dos malucos. No meu caso, como sou natural da Figueira da Foz, era o hospital Sobral Cid. E o mesmo foi acontecendo com as pessoas do Porto e o Conde Ferreira e em Lisboa com o Júlio de Matos. É um estigma que é aprendido. E é através desse lado negativo que acabamos por ter noção do que é a vida num hospital psiquiátrico.

PM – Por que motivo decides agarrar este tema?
JP – O que me move para os temas é o desconhecido, é aquilo a que a maior parte das pessoas não tem acesso. E utilizo o cinema documental como um veículo para dar a conhecer esse desconhecido às pessoas. Este é um filme que não representa a realidade da saúde mental e da psiquiatria, nem representa a vida dentro daquele hospital [Conde Ferreira], mas é uma espécie de update daquela realidade, porque ao longo dos últimos anos estes hospitais sempre estiveram muito fechados à sociedade.

PM – Depois de fazeres este trabalho ficas com a ideia de que a fronteira entre a doença e aquilo a que se convenciona chamar normalidade é mais ténue do que supunhas?
JP – Qualquer pessoa pode ir parar a um hospital psiquiátrico. O que sai daquele filme é que existem pessoas especiais, que requerem atenção e que conseguem conviver com alguém que chega – neste caso, eu e a minha equipa. Tive oportunidade de selecionar alguns utentes com quem achei que conseguia comunicar e aprender, e mostrar que não são pessoas más que estão sempre a cometer loucuras. As pessoas têm medo do desconhecido e eu quando entrei também tive algum receio, mas, a partir do momento em que comecei a ver para lá da imagem física deles, percebi que é possível conversar com este tipo de utentes. E é isso também que as pessoas vão ver no filme.

PM – O que mais te impressionou na esquizofrenia, naquilo que a doença faz?
JP – O facto de a vida daquelas pessoas ser muito rotineira. Todos os dias fazem coisas diferentes, porque o hospital tem uma série de actividades terapêuticas para os ocupar, mas depois, entretanto, acaba por ser muito igual de semana para semana. De certa maneira, o hospital dá-lhes conforto e esse conforto, de uma maneira indirecta, faz com que eles prefiram estar lá dentro, porque lá têm tudo. Ou seja, ao dar bem-estar e segurança, o hospital está, ao mesmo tempo, a prendê-los lá dentro. Surpreendeu-me também a lucidez que encontrei nos utentes que nós seleccionámos e ascenderam a personagens deste filme, a maneira lúcida como olham para aquela realidade. E, por último, a noção da doença, a consciência da situação.

PM – Houve também alguns momentos de partilha e boa disposição entre a vossa equipa e os utentes?
JP – Sim, rir é importante para todos nós e para eles também será. Este é um filme em que a palavra equilíbrio é bastante importante porque não queríamos fazer um filme muito pesado. E esses momentos de algum riso e alegria vão equilibrando o filme e a narrativa para que as pessoas a consigam seguir até ao fim.

PM – Encontraste traços de genialidade nalgumas dessas pessoas?
JP – Sim, a lucidez de muitos, a inteligência. Dentro do hospital há todo o tipo de pessoas, desde engenheiros, bancários, construtores civis, pessoas que já leram centenas de livros e têm uma cultura geral extremamente elevada, e foi isso que nós tentámos retratar. O cinema de ficção, ao longo dos últimos anos, acabou por acentuar o estigma para com estas pessoas, que são muitas vezes o mau da fita. E aqui o cinema documental tentou mostrar o outro lado, os momentos mais calmos, de lucidez e inteligência, não escondendo que a base é uma base difícil.

PM – Que tipo de desafios aparecem quando se está no terreno a filmar um tema destes?
JP – Nós não tínhamos autorização para exibir o filme sem a administração do hospital o ver. Corremos esse risco, mas sabíamos que não estávamos ali para desrespeitar os utentes nem para descredibilizar a própria instituição. E conseguimos, ao fim de algumas tentativas, equilibrar o filme de maneira a que servisse o meu propósito e a minha perspectiva cinematográfica. Estivemos a trabalhar dentro do hospital durante oito semanas. É importante explicar que o actor Miguel Borges entrou comigo porque eu queria introduzir um elemento que viesse da sociedade dita normal na narrativa porque dentro do hospital existe uma actividade terapêutica que é o teatro, constituída por utentes e funcionários, e nós quisemos que ele integrasse essa peça de teatro porque ele vai fazer cá fora uma peça sobre a loucura. No fundo, foi uma espécie de estágio, de pesquisa, para a sua personagem, convivendo directamente com os esquizofrénicos, e eu simplesmente documentei e retratei. É um dispositivo para contar a história, uma outra maneira de contar a história.

PM – Ele dormiu sempre no hospital?
JP – Sim, durante quatro semanas. Nós também tivemos cerca de quatro semanas prévias para perceber quem eram as pessoas que podiam servir a narrativa do filme e ganhar a confiança deles.

PM – Houve algum momento mais insólito que queiras partilhar?
JP – Houve vários, de alegria, obstáculos que foram aparecendo, coisas que nos foram acontecendo. Foi um filme muito difícil de fazer. Os próprios enquadramentos eram sempre muito rigorosos para que não mostrassem outros utentes que não podiam aparecer. Mas, essencialmente, aquilo que mais me impressionou foram os momentos de muito carinho e de muito amor que senti entre os funcionários do hospital e os próprios utentes. E também a amizade que ficou com as personagens do filme.

PM – Imagino que já lá voltaste?
JP – Sim, várias vezes: uma delas para entregar um dos prémios que ganhámos. Eles foram as primeiras pessoas a ver o filme, foi um momento diferente da vida deles e sentiram-se acarinhados.

PM – Nos teus documentários, há sempre uma perspectiva pessoal e social. É propositado?
JP – Interessa-me muito o lado humano das histórias, para que a sociedade as possa conhecer melhor. As notícias da televisão são um pouco desumanizadas e o documentário, como tem mais tempo para conhecer as pessoas e reflectir com elas, pode dar outras perspectivas e enquadramento às histórias e ao seu lado humano. É isso que me interessa. O cinema documental permite ter tempo para analisar a realidade e é esse lado humano das histórias que acho bastante interessante e que me cativa. E também, de certa maneira, temas que nunca foram retratados daquela maneira. A inovação na abordagem.

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Entrevista de Cláudio Garcia
Fotografia e trailer cedidos pela produtora Até ao Fim do Mundo
(Publicado a 25 Junho 2015)