SelfieSal Nunkachov é o convidado que se segue do Olho de Lince. As suas fotografias pautam-se pela exploração do belo através da documentação do corpo. Por isso mesmo, o retrato, o nu e a fotografia de moda são as suas áreas predilectas. Ficamos com as palavras dele e algumas das suas imagens.

Descreve-nos o teu trabalho: o que gostas mais de fotografar, o que desejas ou gostas mais de transmitir, em que área da fotografia te sentes mais à vontade…
O que fotografo são pessoas e o género com que mais me identifico é a fotografia tipo passe.

No início, o que te atraiu mais na fotografia?
Penso que o facto de poder parar o tempo e olhar para trás.

Escolhe até três fotografias da tua autoria e conta-nos a história de cada uma delas.
Eu teria imensa dificuldade em escolher apenas três. De resto, cada uma tem uma história, mas é sempre preferível quem as vê retirar delas o que quiser, para ser mais aberto e livre. O que fiz foi seleccionar uma em cada género que tenho feito – moda, nu e retrato -, de forma a ilustrar uma pequena missiva sobre cada uma.

1a foto
Esta foi eventualmente a minha primeira foto de moda. Digo isto (embora seja altamente discutível o que é ou deixa de ser uma fotografia de moda) porque reuni na altura uma equipa para registar o trabalho de uma designer de moda, que é a Lara Torres, que me deu o privilégio de trabalhar com a modelo Ana Filipa. A maquilhadora foi a Lea Magui Louro, com quem tenho tido o prazer de fazer a maior parte dos trabalhos deste tipo. Estava bastante inseguro e nervoso, pois era a minha primeira incursão na zona e queria o melhor resultado possível. Felizmente, a equipa era de sonho e pude concretizar a minha visão. Esta sessão foi feita num edifício que ruiu há pouco tempo na Avenida da Liberdade e fez parte da minha investigação no mestrado de Teatro. Foi publicado no número zero da Paper View.

2a foto
Os nus é um campo que tenho explorado em pequenos livros/zines chamados newds. Vai agora no número 18, sem periodicidade fixa, e saiu recentemente uma caixa arquivadora para os mesmos na Paper View, que podem ver em paperviewbooks.tumblr.com.

3a foto
Em termos de retrato, que é capaz de ser o que mais me motiva, gosto essencialmente do desprendimento e do confronto. Gosto muito mais do fotografado em confronto do que plácido e eu voyeurista. O retrato aqui em cima foi realizado num intervalo de um desfile da moda Lisboa, no momento em que conheci a Catarina Santos, da L’Agence, que estava com a booker. Foram os primeiros desfiles dela e pouco tempo depois estava em Londres. Gosto imenso do acting da Catarina e da ambiguidade de emoções nesta fotografia em concreto.

Se tivesses de escolher um fotógrafo de referência, qual escolhias e porquê?
Talvez o Nadar, o Juergen Teller, o Guy Bourdin. Há muitos, não sei precisar. Creio que também fui “beber” muito ao cinema, com Bergman, Godard, Nick Pope (director de fotografia do realizador Mike Leigh), etc. Gosto essencialmente quando vejo a pessoa fotografada na foto, que haja uma assinatura forte, e não um cumprir de uma doutrina ou tendência.

Já houve algum momento ou situação que tivesses gostado de fotografar mas, por alguma razão, não conseguiste?
Sim, claro, por vários entraves não me é possível fotografar tudo o que quero.

Qual a situação mais embaraçosa ou inusitada em que estiveste para conseguires tirar uma fotografia?
Não me recordo de nenhuma.

Com a chegada dos telemóveis com câmara e com as redes sociais começou-se a verificar uma ‘overdose’ de fotografias. Na tua opinião, esta situação prejudica ou beneficia a fotografia?
Penso que essa conversa também havia antes, em que os jornais e revistas eram “culpados” de “banalizar” a fotografia. Tenho para mim que as fotografias boas resistem a essa “overdose” e também ao tempo.

O que é preciso para ser um bom fotógrafo: é só ter olho de lince?
Não faço a mínima ideia. Mas sem curiosidade, interesse e alguma dedicação não é possível. De resto, não sei bem o que é um bom fotógrafo, mas eventualmente deve ser aquele que tira boas fotografias. Daí que seja aquele que as procura.

Que local, pessoa e objecto gostarias ainda de fotografar?
A Kristina Vlasova a segurar uma cópia do Worstward Ho manuscrito em frente ao Kiasma (Helsínquia).

Para conhecer melhor o trabalho de Sal Nunkachov:
facebook.com/pprview
paperviewbooks.tumblr.com
facebook.com/salnunkachov
salnunkachov.tumblr.com
instagram.com/salnunkachov

Entrevista de Catarina Pedro
(Publicada a 2 Julho 2015)