Leiria Para Totós #4:
A casa das mamas

Texto de Paula Lagoa | Fotografias de Ricardo Graça

9 de Julho de 2015

Leiria para Totós é a informação que faltava, mas provavelmente nunca vais precisar. A cábula para quem julga que Rodrigues Lobo era o vilão da história dos Três Porquinhos. Aqui recorda-se o nome esquecido na placa, o edifício em ruínas, a estátua coberta com lingerie na semana académica. É possível que estes textos venham a ser úteis, se algum dia existir a edição Leiria do Trivial Pursuit. Fora isso, não estamos a ver.

Afinal são mamas ou não são mamas? Não sabemos qual foi a primeira personagem ébria que levantou a questão, mas sabemos que foi tão pertinente que a coisa assumiu o efeito eco e é hoje um tema fracturante para qualquer leiriense – pelo menos para os que beberam muitos copos no Terreiro.

Sobre o que representa a pintura na fachada do palacete em frente à Biblioteca Municipal, caros bebedolas, não conseguimos muita informação, apenas que data de meio do século passado e que, à partida, não serão mamas, ainda que a analogia seja francamente legítima.

Parecem mamas amontoadas umas nas outras, de facto, e não é preciso ter o álcool cheio de sangue para ver isso. Mas esta é uma questão que vai continuar no segredo dos deuses, porque a memória descritiva dos trabalhos gráficos não existia antigamente e deste em concreto nem sequer o nome do autor se conhece. Temos pena, mas apesar de nos termos fartado de escavar, petróleo que é bom, nada! Convenhamos que há incógnitas que perderiam todo o charme se deixassem de o ser e esta é, definitivamente, uma delas.

Mas não fiquem tristes, a equipa de reportage Preguiça conseguiu meter-se dentro do edifício e além de fotos bonitas sacou algumas informações que, decerto, interessarão a todos os que já pararam para contemplar o belo palacete.

Aquela a que se vulgarizou chamar Casa das Mamas é também conhecida por Palácio Barão do Salgueiro ou Casa do Terreiro. De acordo com alguns escritos de Jorge Estrela, o último Barão do Salgueiro, recentemente falecido e que nunca fez uso do título, a casa foi mandada construir pelo primeiro Barão do Salgueiro José Pinho Soares de Albergaria, que se instalou na cidade na sequência das guerras liberais, tendo-se casado com uma leiriense, Benedicta Faria, em 1836, pelo que a casa terá sido edificada pouco tempo depois.

No levantamento do historiador Estrela descreve-se a “opulência” da casa e refere-se ainda que esta terá sido mesmo o primeiro prédio a surgir na cidade com mais de um piso. “Não se encontram os registos do nome do arquitecto, mas é evidente que se trata de uma obra erudita, bem inserida no espírito romântico, com uma intenção clara de provocar um forte impacto visual”, lê-se no documento elaborado a propósito de uma primeira intenção de restauro do imóvel a que a Preguiça teve acesso.

Da Casa das Mamas sabe-se ainda que o salão de festas, hoje preso por sapatas gigantes (não sabemos o nome técnico, mas podem ver nas fotos) terá sido frequentado por Eça de Queirós, que o descreve em Os Maias e também pelo rei D. Luís, em 1854, que terá estado hospedado alguns dias no palacete.

Sem saber em qual dos quartos o rei D. Luís pernoitou podemos garantir que com a vista de qualquer uma daquelas janelas ninguém se atrevia a dar menos de 5 estrelas ao hotel no Tripadvisor, nem mesmo um rei.

E a boa notícia é que há um projecto de reabilitação para este edifício histórico há tantos anos ‘abandonado’ (imagens da maquete aqui e aqui). Foi adquirido em 2012 por duas empresas no sector imobiliário que pretendem “devolver a Leiria um dos edifícios mais bonitos que a cidade tem”, explicou-nos um dos investidores que nos fez uma visita guiada ao interior da casa.

Se excluirmos a parcela onde está a Albergaria do Terreiro, o que resta do quarteirão (4034 m2) faz parte da propriedade que num futuro próximo se prevê que venha a dar lugar a 18 apartamentos com 30 lugares de garagem, sendo que uma das habitações será premiada com o jardim interior que agora não é mais do que um grande matagal. Tudo isto ocupará o que agora se divide entre palacete, cavalariças, celeiro, jardim interior, pátio e habitações do pessoal de serviço, nas traseiras.

Portanto, as fotografias que vos deixamos serão, se não for lá ninguém a seguir, o último registo do miolo do imóvel com a configuração inicial. Dentro em breve bastantes alterações serão efectuadas, sendo que a manutenção da traça é uma premissa dos investidores que acreditam que “está a crescer nas pessoas a vontade de voltar a viver no centro da cidade”.

Sem compromisso de datas, até porque nestes assuntos há um factor muito determinante que se chama financiamento, a previsão para o quarto onde dormiu o rei D. Luís poder ser de um de nós é de 2017. Comecem a encher o porco de moedas!

Segue a Preguiça no Facebook e assina a nossa newsletter.