Se em Portugal há registo de 17 mil apicultores, então a Preguiça conhece um: Joaquim Cordeiro, Quim para os amigos, Quim para a Preguiça. Como o assunto não é novidade e já muito foi escrito sobre a importância das abelhas para a vida no planeta e do dia-a-dia destes insectos polinizadores, a Preguiça quis conhecer quem cuida delas e como é um dia na vida de um apicultor.

O processo acontece, normalmente, de quinze em quinze dias. Há que fazer uma visita às colmeias para ver se está tudo nos conformes, sob as ordens da rainha. Recuando cerca de 5 minutos no tempo, é preciso vestir o fato ventilado, com máscara, e as luvas. Agora sim! Avançando 5 minutos no tempo, já com o fumigador a trabalhar – uma espécie de cafeteira com um respirador e um fole embutido –, está na altura de mudar as abelhas – obreiras e rainha – de um cortiço para um núcleo – colmeia em ponto pequeno – e fazer a viagem até às colmeias mais próximas.

Seguem as instruções: colocar o fumigador junto do cortiço e dar toques no fole para que saia fumo (o fumo funciona como um sinal de perigo para as abelhas, que, com medo, se enchem de mel e ficam mais pesadas, sem oportunidade de dar uso ao ferrão, porque não conseguem dobrar o abdómen), abrir o cortiço, inclinar e dar pequenos toques no cortiço com um pau, para que as abelhas comecem a sair, em especial a rainha, que depois de entrar no núcleo – já coberto com alguns favos do cortiço – é seguida por todas as outras. Aos poucos, o bzzzzzarulho vai-se tornando mais intenso e de repente vemo-nos rodeados de centenas de insectos voadores, à procura daquele buraquinho na luva, daquele pedaço de tecido que ainda não levou um remendo ou de um apicultor que acha que vestir fato da cabeça aos pés é para meninos, para dar a verdadeira ferroada.

Engenheiro florestal, Quim dedica-se à apicultura há cerca de 8 anos, uma actividade que o encanta principalmente pelo facto de estar sempre em contacto com a Natureza, mas ainda se considera amador. Das cerca de 25 colmeias que possui, retira, em média, 50 quilos de mel, com tonalidades diferentes, dependendo da vegetação que se encontra junto às colmeias.

Depois de visitar as primeiras colmeias, Quim segue caminho para outro local, onde tem mais algumas. Dá-se uma vista de olhos, carregam-se os alimentadores, analisam-se os quadros, onde dezenas de abelhas caminham frenéticas com as patas amarelas, carregadas de pólen. A altura de fazer a recolha do mel já aconteceu. Agora faz-se apenas a manutenção.

Por entre caminhos de terra batida, com uma vista fantástica sobre as aldeias ao redor de Leiria, chegamos às últimas colmeias, onde se repete o procedimento. Daqui a 15 dias há mais.

Salvé Rainha!

Um ovo de uma obreira é igual ao ovo de uma rainha, mas a partir do terceiro dia, a classe trabalhadora é alimentada à base de pólen e mel e a princesa não come mais nada a não ser geleia real. Para o resto da vida! Sua gulosa.

Uma obreira demora cerca de 21 dias a nascer e tem um tempo de vida de cerca de dois meses. Já a rainha leva cerca de 16 a nascer e vive 5 a 6 anos.

Na altura da Primavera, a dona e senhora da colmeia produz cerca de 2000 ovos por dia e tem à sua disposição cerca de 20 mil obreiras e mil zangões. Quando as obreiras sentem necessidade de substituir a rainha, produzem um alvéolo ligeiramente maior do que todos os outros. “Se a rainha tem a infelicidade de ali colocar um ovo, está tramada”.

Só existe uma rainha por colmeia. Se ela enfraquecer, as obreiras começam a alimentar um ovo com geleia real, para dar continuidade à espécie. Depois, é morta pela que nasce ou é expulsa. No fundo, a realeza tem muito que se lhe diga: a rainha é a que permite a união do enxame, mas as obreiras é que mandam. Uma espécie de “o povo unido jamais será vencido”, em versão abelha.

Texto de Joana Areia
Fotografias de Bruno Carnide
(Publicado a 30 Julho 2015)