Rui-Guerra
Antes de irmos de férias, vamos mergulhar com Rui Guerra, fotógrafo subaquático. Pode dizer-se que se sente como peixe na água, pois é nela que passa imensas horas do dia, a tentar mostrar-nos o que a alguns passa despercebido. Ao longo do tempo tem vindo a conquistar títulos e actualmente também se dedica a transmitir o que foi aprendendo. Ao Olho de Lince contou como começou a trabalhar nesta área, o que mais gosta, algumas adversidades que enfrentou e os sonhos que persegue. 

Descreve-nos o teu trabalho: o que gostas mais de fotografar, o que desejas ou gostas mais de transmitir, em que área da fotografia te sentes mais à vontade.
Se tivesse de descrever o meu trabalho e as imagens que faço numa só palavra, ela seria “água”. É nesse meio que tenho evoluído, literalmente, há mais de 30 anos. Naturalmente que a minha grande paixão é o mar e a sua vida selvagem, mas é com igual paixão que crio imagens em rios, lagos, em grutas submersas ou numa simples piscina. Seja vida selvagem, paisagens, naufrágios ou modelos, aquilo que me define é realizar imagens subaquáticas em qualquer meio, em qualquer situação. Sem dúvida que a grande angular subaquática é a área em que mais me especializei e gosto particularmente de criar verdadeiros estúdios abaixo da superfície da água, com diversas iluminações, estudando a composição e a estética. É um processo demorado e bastante complexo, em especial em mergulhos dentro de grutas, em que a carga adicional de equipamento de segurança é somada a todo este equipamento de imagem. Mais do que a macrofotografia, são os grandes espaços, os grandes motivos, os grandes momentos, que mais me atraem. Nos últimos anos tenho feito bastante vídeo subaquático também e diversas sequências de timelapse, que é outra área que ganha uma complexidade acrescida quando feita debaixo de água.

No início, o que te atraiu mais na fotografia?
Curiosamente comecei a fotografar paisagens fora de água nos Açores, durante umas férias em família. Lembro-me perfeitamente que aquilo que mais me atraía nas imagens era a luz. Podia ser um vulcão, uma árvore ou qualquer outra coisa, mas sempre que conseguia uma luz especial, diferente, sentia-me particularmente realizado. Esta busca da “luz perfeita”, ou pelo menos especial (tanto natural como artificial) tem marcado o meu trabalho ao longo dos anos e quase que posso considerar-me um discípulo da luz. A vertente subaquática surgiu pouco tempo depois, ao oferecerem-me a minha primeira máquina anfíbia e, desde então, que a imagem subaquática e essa busca incessante da luz e do momento especial está no centro das minhas atenções, acabando por se tornar a pouco e pouco uma maneira de estar na fotografia.

Escolhe até três fotografias da tua autoria e conta-nos a história de cada uma delas.

Devil ray, Mobula tarapacana. Santa Maria island, Azores, Portugal. There is a very special seamount, a few miles off-shore Santa Maria island, Azores: his name is "Baixa do Ambrósio". Over the top (at 37 m depth) the water column is filled with dozens of Mobula tarapacana, although no one yet knows exactly why. The fact is that these animals spend the summer months in this place, every year. Its graceful "flight" under the rays of the sun, creates an atmosphere of absolute peace, where only light can combine so beautifully. The photographer used a rebreather, allowing to spend a few hours underwater in complete silence and without disturbing bubbles.

Esta foto é especial para mim por várias razões. Foi realizada na Baixa do Ambrósio, um monte submarino a cerca de 3 milhas da costa da ilha de Santa Maria (Açores). Neste local, durante os meses de Verão, é usual encontrarem-se grandes grupos de mantas, que nadam na coluna de água sobre o pico submarino. Dentro da grande angular, um efeito que gosto particularmente são os raios de sol através da água, pois dão sempre uma outra dimensão à imagem. Para esta imagem eu queria colocar o sol directamente atrás de uma manta, para a destacar e dar-lhe um ar mais sideral e angélico, em sintonia com o “bailado subaquático” que parece não ter fim. O problema é que, havendo uma área tão vasta para elas nadarem, não é directo que alguma vá passar mesmo entre o sol e nós mesmos. Por outro lado, neste local de mergulho há um cabo fixo ao fundo e que tem umas bóias perto de superfície para o manter esticado, o qual seria visível numa imagem deste tipo feita perto dele. Optei assim por me largar do cabo e nadar sob as mantas: sempre que se aproximava um grupo, tentava a todo o custo aproximar-me o mais possível delas e ao mesmo tempo manter o sol escondido atrás de uma. Tive de repetir estas incursões pelo azul diversas vezes até ter a imagem que pretendia, embora na altura não estivesse totalmente descansado ao fazê-lo, dado que as correntes facilmente me poderiam ter afastado demasiado do cabo, impedindo o meu regresso a ele, o que em termos de segurança não seria nada bom…
Outro aspecto que me ficou na memória relacionado com esta imagem é que neste mergulho estive quase 3 horas debaixo de água utilizando um rebreather, fazendo algumas incursões à zona mais funda, a cerca de 50 metros de profundidade. Num local cheio de vida como este, um mergulho tão longo permite ver as mudanças que vão acontecendo em termos de espécies, do seu comportamento e da sua abundância. É como estar a assistir a uma longa metragem, só que esta é real!

aviao
Esta foto foi feita durante um Campeonato de Mundo de Fotografia Subaquática, que se realizou em Bodrum, na Turquia. Trata-se de um avião que foi afundado propositadamente para os mergulhadores, como local de interesse subaquático (de notar que a Turquia, à semelhança de muitos outros locais no Mediterrâneo, não tem muita abundância de peixe e as rochas também não têm muita vida fixa). Cada mergulho de competição durava 90 minutos e o avião encontra-se a quase 30 metros de profundidade, pelo que respirando ar comprimido não é possível permanecer lá mais do que 15 minutos, aproximadamente. Apesar de eu já ter, na altura, alguma experiência com a utilização de flashes e células de disparo remoto, em condições de água limpa e muita luz ambiente como esta, as células deixam de funcionar convenientemente. Por outro lado, para fazer esta imagem, só podia aparecer a minha modelo/assistente e mais ninguém, pois quebraria completamente a estética e o impacto da imagem. Assim, quando foi dado o sinal de início de prova, optámos por ficar no barco mais algum tempo, enquanto todas as outras equipas nadavam freneticamente para o avião. Entrámos na água ao fim de 10 minutos, nadámos à superfície até à vertical do avião e simplesmente esperámos que todos terminassem as suas fotos no destroço, o que obviamente não podia demorar muito. Tivemos assim a última meia hora de prova para fazer esta imagem, sem mais nenhum mergulhador por perto, tal como precisávamos.

Monk seals are very rare and near extintion, but in Portugal, in MAdeira islands, we have a small population of a bit more then 20 individuals. Working with a special permit of the Natural Park Servces, I've stayed there several days, trying to make some images of this beautiful animals. In one ocasion, one of the females become very curious about my "big eye" dome port, probabbly because she saw her own reflection.

A Madeira, mais exactamente as ilhas Desertas, são um dos últimos refúgios para uma pequena colónia de focas-monges, aquela que é considerada a espécie de foca mais ameaçada de extinção no mundo inteiro. São inúmeras as pessoas que se deslocam até lá de barco para as tentar ver mas, na maioria das vezes, sem sucesso. São animais altamente inteligentes e dotados de um carácter único de indivíduo para indivíduo (tal como os seres humanos) e extremamente tímidos e discretos. Mesmo um grande macho, que pode pesar 200 quilos, a descansar à superfície fica praticamente todo dentro de água, pelo que é muito difícil de detectar. Através de uma autorização especial do Parque Natural da Madeira, fiquei duas semanas nas Desertas, acompanhado apenas pelos vigilantes do Parque. Foi uma Primavera particularmente rigorosa, com mar quase tempestuoso, muita chuva, vento e frio. Grande parte dos dias tivemos de permanecer em terra devido às más condições do mar e, naqueles em que conseguimos colocar o bote de borracha na água, raras vezes conseguíamos avistar qualquer lobo (como são conhecidas as focas nesta região), apesar de passarmos diversas horas seguidas no mar. De vez em quando lá conseguíamos avistar algum animal que, na maior parte das vezes, nem se deixava aproximar. No entanto, noutras situações e com o animal certo, acabei por ter alguns “encontros imediatos” a muito curta distância, em que a curiosidade da foca superou as minhas melhores expectativas.

Se tivesses de escolher um fotógrafo de referência, qual escolhias e porquê?
Tenho alguns fotógrafos subaquáticos de referência, mas se tiver de escolher só um, talvez o Howard Hall, pela sua mestria nos grandes espaços subaquáticos e com os grandes animais, e pela forma com tem desenvolvido a sua actividade, que começou na fotografia e hoje em dia é uma referência mundial em IMAX subaquático. Também tenho por ele uma certa simpatia pois também utiliza sistemas bastante complexos e volumosos e rebreathers para mergulhar (sistemas respiratórios em circuito fechado, que não libertam bolhas). Acabo por me identificar um pouco nesse seu percurso, apesar de ainda não estar ao nível do IMAX. Mas claro que tenho mais um “punhado” de grandes fotógrafos subaquáticos e sigo com interesse o seu trabalho.

Já houve algum momento ou situação que tivesses gostado de fotografar mas, por alguma razão, não conseguiste?
Muitos! Estar dentro de água com baleias, tubarões ou grandes cardumes é o passaporte garantido para se verem coisas que duram fracções de segundo e que não conseguimos captar. São momentos únicos, que vemos por um instante ou que simplesmente estão demasiado longe para se fazer uma imagem com um mínimo de qualidade. Debaixo de água temos de estar muito próximos do sujeito, na posição certa e com os ajustes certos na máquina e no flash, o que em situações muito dinâmicas em que há muita acção, mesmo recorrendo a algum automatismo do equipamento, há sempre muita coisa que fica por fotografar. Em especial quando estamos a mergulhar em apneia, com baleias, em que temos de tentar coordenar a nossa posição durante os escassos segundos de um mergulho com a velocidade e trajectória da baleia (que muda constantemente!). Uma das várias situações que me ficaram na memória foi quando estive na África do Sul a fotografar a grande migração das sardinhas (conhecida como “Corrida das Sardinhas”) em que num dia tínhamos baleias-de-bossas até onde a vista alcançava. Eram dezenas, algumas passavam em grupos cerrados muito perto do barco em que nos encontrávamos. Apesar das tentativas, não consegui captar nenhuma imagem subaquática desses momentos extraordinários. Lembro-me também de vários momentos no México, a fotografar os veleiros (peixes de grande porte parecidos com um espadarte) a caçarem sardinhas como se fossem uma alcateia de lobos. É extraordinário de assistir, mas muito difícil de conseguir uma imagem que mostre essa estratégia de caça.

Qual a situação mais embaraçosa ou inusitada em que estiveste para conseguires tirar uma fotografia?
Não me recordo de nenhuma especialmente embaraçosa, embora regularmente suscite a curiosidade dos turistas ou residentes em determinada região, quando me vêem com todo o equipamento às costas, por vezes para fotografar dentro de um riacho com meio metro de fundo. Outras vezes é o facto de estar só com a cabeça dentro de água entre as rochas numa poça da maré vazia que pode levar algumas pessoas a olhar demoradamente para mim com aquele ar de “aquele não regula bem…”.

Com a chegada dos telemóveis com câmara e com as redes sociais começou a verificar-se uma “overdose” de fotografias. Na tua opinião, esta situação prejudica ou beneficia a fotografia?
Acho que é inevitável a “democratização” da fotografia com os telemóveis acessíveis a todos, tal como os drones acabaram por “entrar no espaço aéreo” (literalmente) da fotografia aérea convencional (feita a partir de aviões e helicópteros). Julgo que a fotografia no seu todo não deve ser exclusiva dos profissionais ou dos mais abonados. A grande vantagem deste tipo de aparelhos é que leva a fotografia a todas as camadas da população e isso até pode ser uma vantagem ao criar-se mais massa crítica para dentro desta área. O problema que eu vejo aqui não está tanto no lado de quem utiliza esses modos de fotografar, mas mais no lado de quem necessita de imagens e que acaba por consegui-las a custos ridiculamente baixos ou mesmo sem qualquer custo. Hoje em dia, a maioria das pessoas acaba por achar que consegue fazer quase todo o tipo de fotografias e também quase toda a gente acredita que pode criar uma revista ou um site na internet. E com isso acaba por haver uma desvalorização do trabalho dos fotógrafos de carreira, que vêem o seu trabalho equiparado com o de uma qualquer pessoa que dá gratuitamente as fotos que tirou por acaso. E isso, sim, é prejudicial também para a qualidade fotográfica que se vê publicada por esse mundo fora nas inúmeras revistas online e em papel, criadas por empresas, clubes ou particulares, sem qualquer cultura de estética fotográfica ou jornalística e que parecem ter uma só regra: não pagar a quem lhes pode fornecer fotografias e artigos.

O que é preciso para ser um bom fotógrafo: é só ter olho de lince?
Ter visão e sentido estético, são coisas que sem dúvida podem fazer uma grande diferença. Mas ser um “bom fotógrafo” é um conceito demasiado abrangente e que pode ter vários sentidos. Se é de vida selvagem, tem de conhecer muito bem o meio onde vai fotografar, conhecer os animais e os seus hábitos, saber onde e quando os pode fotografar, por isso aqui a grande mais-valia será um certo sentido de ser também um naturalista. Mas, independentemente da área em que se especialize, tem de ter um conhecimento sólido do seu equipamento, das diversas técnicas e de como as utilizar em determinada situação. Precisa ainda de ter um bom sentido de autocrítica e perseverança, para conseguir ir evoluindo a passo certo e ter espírito de sacrifício, pois muitas vezes as condições de trabalho são bastante duras e prolongam-se por várias horas. Acho que um bom fotógrafo tem de reunir todas estas características para que, de forma regular, consiga imagens que mereçam a atenção dos outros.

Que local, pessoa e objecto gostarias ainda de fotografar?
Local: Antártida, sem dúvida! É um lugar mítico para mim, onde os grandes espaços, a vida selvagem e as condições extremas fazem mesmo o meu género de aspirações! Para além deste, muitos outros há, desde a Polinésia Francesa, as zonas mais remotas da Indonésia ou a Tasmânia, apenas para mencionar alguns. Garantidamente que não vou viver o suficiente para conseguir concretizar todos os meus destinos de sonho, até porque eles vão evoluindo, mudando e são sempre em maior número.

Para conhecer melhor o trabalho de Rui Guerra:
http://www.photoguerra.net/pt-fotografia.htm

Entrevista de Catarina Pedro
(Publicado a 30 Julho 2015)