Ricardo Graça

Eia!! Apercebi-me agora que sou um pouco zarolho!

Ao final de algumas semanas com óptimos convidados, esta rubrica dedicada à fotografia está de partida. Podíamos despedir-nos do Olho de Lince sem entrevistar o Ricardo Graça? Podíamos, mas não era a mesma coisa. E engane-se quem pensa que é só por ser fotógrafo da Preguiça Magazine. O rapaz já dava cartas antes de lançar esta revista e o seu trabalho vai para além dela. Nesta entrevista, ele fala, fala, fala, mas não é como os outros que não os vemos a fazer nada. Tem vindo a dedicar-se a vários projectos e ainda sonha com outros.

Descreve-nos o teu trabalho: o que gostas mais de fotografar, o que desejas ou gostas mais de transmitir, em que área da fotografia te sentes mais à vontade…
Sou fotógrafo freelancer, faço fotografias a tudo e mais alguma coisa. Coisa má para ser bom a coisa alguma. É como aqueles jogadores que fazem diversas posições, nunca são mais do que razoáveis em nenhuma. Pensa numa coisa qualquer… eu já fotografei. Mas, essencialmente, faço fotos sem grande interesse fotográfico. E promovo-me muito bem. De quando em vez, quando os astros se alinham com os búzios, faço fotografias das quais realmente me orgulho, mas é coisa muito, muito rara. Uma meretriz sem ponta de glamour, portanto. Neste momento gosto de fotografar o que não tenho de fotografar. Se forem fotos de trabalho, tento transmitir o que o cliente quer transmitir, se forem fotos para mim, tento que digam alguma coisa às pessoas que as vêem. O objectivo é embrulhar a minha personalidade dentro da personalidade do que vejo. Estou à vontade em todas as áreas da fotografia, porque sei que há sempre alguém a fazer pior. E não estou à vontade em nenhuma, porque sei que há sempre alguém a fazer muito melhor.

No início, o que te atraiu mais na fotografia?
No início dos inícios era a magia de poder guardar uma qualquer visão em papel e voltar a ela sempre que quisesse. O aprender a olhar, as técnicas, o mistério que o filme revelava, como captar mais do que o que vejo e como fotografar exactamente o que vejo, toda a aventura da descoberta. Houve tempos em que o meu olhar não parou de enquadrar, “olha, isto dava uma foto”. De vez em quando ainda o digo. Como emprego foi o facto de poder usar alguma criatividade, eu achava que tinha muita na altura. Uma certa ilusão de liberdade, fora de paredes. Conhecer pessoas, lugares e realidades diferentes. Comecei pelo fotojornalismo e a resposta romântica era poder estar sentado na primeira fila dos acontecimentos e ainda ser pago por isso. Mas, no fundo, percebi que era uma profissão que mandava alto cenário e como não tinha mais nada de jeito para fazer…

Escolhe até três fotografias da tua autoria e conta-nos a história de cada uma delas.
Epah, não consigo, o meu arquivo é um universo obscuro. Vou antes escolher três espécies de projectos em que estou metido neste momento.

OLHO DE LINCE_leiria e leirienses

Tenho muito melhores…não tenho nada. Esta foi feita hoje, feita de dentro do carro, a conduzir, com o meu filho atrás. A não ser que sejas da PSP, se assim for é tudo mentira.

Primeiro, “Leiria e Leirienses”, (que raio, ainda não arranjei um nome melhor para isto), consiste num álbum no meu Facebook onde todos os dias coloco uma fotografia feita cá na zona e de preferência recentemente, que tem como objectivo final acabar num livro. Já plantei a árvore, já tenho quase dois filhos, portanto… É um exercício ao qual me obrigo, para tentar conhecer e dar a conhecer a cidade, para fomentar a exigência de todos os dias ter uma foto digna para aparecer num livro. E, como sei que não há um livro de fotografia actual sobre Leiria, é uma oportunidade de aparecer referenciado pelo professor Marcelo na missa de domingo à noite e enriquecer.

Nídia do Carmo, fotografada em modo retrato à la minute.

Nídia do Carmo, fotografada em modo retrato à la minute.

Projecto número dois: os retratos a preto e branco à frente de uma cortina preta (este nem nome tem), que também podem acompanhar no meu Facebook. Para além de ter como objectivo vender cartões Preguiça, é também uma oportunidade para limpar os meus pecados, fazendo com que as pessoas tenham fotos de perfil mais fixes quase de borla. Ou, numa perspectiva mais a gozar, é o desafio de em pouco tempo estabeleceres uma ligação com o fotografado, que, sem adereços nem artifícios, numa situação não natural (ter uma máquina apontada ainda é uma situação não natural, não é?) te permita captar o que ele é, ou como ele gosta de se ver, ou como tu o vês, ou isto tudo numa só foto.

OLHO DE LINCE_3

Às vezes os clichês são o melhor da vida. O que por si só, já é um grande clichê.

Projecto número três e o mais importante: tirar mais fotos à minha família, estar mais presente, não trazer tanto trabalho para casa, não responder a entrevistas às quatro da manhã na cama, desligar o computador. Basicamente ter uma vida mais saudável e não pensar tanto numa carreira, porque, em abono da verdade e, infelizmente, duvido que passe daqui.

Se tivesses de escolher um fotógrafo de referência, qual escolhias e porquê?
Aquela altura clássica em que pedem um e nós dizemos: “Ahh!!! Um só é muito difícil, vou escolher uns 17, está bem??!!!”. Assim, do mundo, de sempre, num plano meio esotérico, são os clássicos, não sei porquê, vou lá dar sempre. Gosto do escrutínio do tempo. Cartier Bresson, William Klein, Elliot Ewitt, Helmut Newton, Steve Mccurry, Vivian Maier, o Jeff Wall de outra onda e que conheci há pouco tempo e o pessoal dessa estirpe. No plano real, os que me ajudaram a chegar aqui, seja lá isso onde for, são sempre as melhores referências porque lhes posso ligar a pedir para serem referências novamente. Ora então aqui vai o momento Óscares da noite: António Palmeira, pelos princípios da coisa; Sérgio Claro, o que vem a seguir aos princípios da coisa e os primeiros trabalhos; Paulo Cunha, pelo traquejo, pelo exemplo, pela qualidade e porque de vez em quando me empresta material; Nuno André Ferreira, pela entrega, dedicação e amor à causa e porque, tirando isso e o talento dele, é muito parecido comigo. Que lamechas.

Já houve algum momento ou situação que tivesses gostado de fotografar mas, por alguma razão, não conseguiste?
Quase todos os dias tenho um inconseguimento. De vez em quando é porque me acanho, ou porque não tenho máquina, porque estou com pressa, porque não vejo onde está a foto, porque por algum tipo de aselhice não consigo mesmo ou só porque a melhor foto é a que fica por tirar. Também há aquela vez em que nevou em todo o distrito e eu estava na única terra onde essa raridade não sucedeu: Peniche.

Qual a situação mais embaraçosa ou inusitada em que estiveste para conseguires tirar uma fotografia?
Quase todos os dias mostro o cu, por me baixar, isso conta? Não há situações embaraçosas, só há uma realidade pouco preparada para te receber. Já parti jarrões, já quase que destruí uma miniárvore que representava Timor, já discuti com muita gente, normalmente autoridades, já saltei telhados… por falar em telhados, ando montes de vezes em sítios muito altos e tenho vertigens, já tive umas cem pessoas a gritar em coro para eu tirar a foto e eu estar tão embriagado que nem a máquina conseguia ligar (era um casamento de uns amigos, não sou assim tão pouco profissional). Se me lembrar de mais eu digo depois.

Com a chegada dos telemóveis com câmara e com as redes sociais começou-se a verificar uma “overdose” de fotografias. Na tua opinião, esta situação prejudica ou beneficia a fotografia?
Complexo. Vamos lá ver o que eu penso sobre isto. Em relação à fotografia, forma de expressão, acho que afectou pouco. Sempre houve e sempre haverá pessoal com um talento excepcional a fazer coisas extraordinárias e o mesmo acontece no sentido oposto, gente sem talento nenhum, que nunca lá chegará. Há boa fotografia e má fotografia, será sempre assim. Uma coisa que tenho a certeza que prejudica a fotografia, e o mundo em geral, é a tolice das pessoas. Vais a um restaurante, trazem-te um arroz de salsichas, pumba, fotos, redes sociais, pumba, likes, é estúpido, as pessoas não “deslargam”, não vivem em tempo real, não desfrutam e parece-me que vamos a descer a pique rumo à imbecilização total da humanidade, mas está tudo reportado numa rede social perto de si. O pessoal que faz uma foto aos pés, tem 10 amigos que fazem like e logo de seguida abre uma página intitulada Zé Manel Photography também não me parece bom para nada. Eu, exemplo que vale o que vale, até há bem pouco tempo tinha vergonha de dizer que era fotógrafo, soava-me a fraude. Como forma de divulgação e observação de trabalhos, acho que as redes sociais são muito fixes. Há malta brutal a fazer coisas do caraças e nem profissionais são. Eu acredito que os bons se hão-se safar sempre, mas agora há mais ruído para que eles possam ser vistos no meio da multidão.

O que é preciso para ser um bom fotógrafo: é só ter olho de lince?
Precisas de uma máquina, olhos, coração, cabeça, disparar, disparar, disparar, ver fotos, ver as tuas fotos, disparar, disparar, disparar, ver fotos, ver as tuas fotos, ser exigente, saber esperar, ser desenrascado, saber estar em diferentes situações, alguma intuição, muita dedicação, experimentar, saber comunicar, saber ouvir, seres um gajo porreiro, disparar, disparar, ver, ver, and so on, and so on… Espero que seja isso, porque é o que eu vou começar a fazer depois de responder a estas perguntas.

Que local, pessoa e objecto gostarias ainda de fotografar?
Local: A minha casa na praia. Pessoa: Um dos meus netos, de preferência no casamento deles. Objecto: Ou o meu arquivo organizado, ou dois ou três livros com o meu arquivo organizado, ou perceber que não tem assim tanto interesse e fotografar só a indumentária de grande parte dos meus dias, calções e chinelos.

Entrevista de Catarina Pedro
17 Setembro 2015