Carlão é o nome maior do Return Leiria Fest, evento que acontece este sábado, dia 19, em Leiria. Falámos com ele a propósito do concerto no Mercado de Santana, com a idade no centro da conversa. O novo disco chama-se Quarenta e o antigo homem dos Da Weasel não foge à metamorfose provocada pelo tempo, antes pelo contrário, assume que esta é uma outra etapa, diferente das anteriores.

Depois dos Dias de Raiva passados no universo do punk-hardcore e do trash metal, das palavras embaladas no projecto Algodão e do retorno às rimas com o colectivo 5-30, o artista anteriormente conhecido como Pacman volta a partir do hip-hop para falar do que lhe vai na alma, agora que é pai de família, mas viajando, ao mesmo tempo, por diversos territórios musicais.

O álbum Quarenta serve de guião ao espectáculo a apresentar em Leiria, num palco que abre às 22 horas e que Carlão vai partilhar com Diogo Piçarra e os Afroflavours. Os concertos só acabam lá para as 4 da manhã.

Numa entrevista recente, sobre a estreia a solo, o Branko (Buraka Som Sistema) dizia que já não lhe apetece abordar a pista de dança com o mesmo tipo de composição. Este efeito da idade sobre o trabalho dos músicos é inevitável?
Acho que não tem a ver unicamente com a idade, terá mais a ver com a vontade de experimentar coisas novas e sair de rotinas.

No teu caso, depois dos Da Weasel, andaste por terrenos bastante diferentes, agora, com “Quarenta”, parece que voltas às rimas, ao hip-hop; contas feitas, em que fase estás?
Essa é uma boa pergunta, mas a verdade é que nem penso muito nas coisas em termos de “fases”, pelo menos no momento em que as atravesso não dá para avaliar muito bem. Estou numa fase em que trabalho a um bom ritmo, isso seguramente. Musicalmente estou mais próximo daquilo que fiz com os Da Weasel, mas nada é premeditado, corro sempre atrás daquilo que para mim faz sentido fazer no momento.

Este é um disco em teu nome, mas com muitos convidados. O que procuras quando escolhes os teus parceiros para criar? E, em particular, o que procuraste nesta edição?
Procuro pessoas que respeito enquanto músicos e que possam acrescentar qualidade ao meu trabalho, mas que também me “puxem” para caminhos que habitualmente não percorro sozinho.

A idade pesa nas tuas reflexões? Diz-se que os 40 são os novos 30. Afinal nem por isso?
Claro que pesa. De uma boa maneira – pelo menos acredito nisso. Não sei se são os novos 30, mas tenho a certeza de que hoje uma pessoa de quarenta anos vive a vida de uma forma muito mais “jovem” do que aquilo que acontecia há vinte anos.

Ainda gostas de andar na estrada?
Neste momento sim. Aqui há uns anos cansei-me um pouco e não me surpreendia se daqui a uns tempos isso voltasse a acontecer… Mas de uma maneira geral gosto de tocar ao vivo: há ali uma energia e realização que para mim são impossíveis de encontrar noutro lugar.

Para alguém que vem da cena hip-hop, poder fazer uma edição de autor sem com isso perder visibilidade tem um gostinho especial?
Acho que isso terá sempre um gostinho especial, ligado ao hip-hop ou não.

Face aos meios que hoje existem na casa de qualquer adolescente, desde os softwares de composição e gravação dos temas até às redes sociais para espalhar a mensagem, qual é o papel da indústria discográfica, das editoras tradicionais?
Essa é a pergunta que elas estarão a colocar a si próprias.

És a favor de coisas como o Spotify? Parece-te um modelo de distribuição justo para os músicos e autores?
Sou. Tenho conta Premium, mas na verdade não estou a par do modelo de distribuição. Tenho de me informar.

Se fosse hoje, neste mundo cada vez mais pequeno, aberto e globalizado, os Da Weasel poderiam ter tido uma carreira internacional? 
Acho que não. A nossa música (como, de resto, toda aquela que faço) passa sempre pela língua portuguesa, o que dificulta bastante as coisas. Se não fosse tão palavrosa…  E também acho que música cantada em português só poderá passar pelo mercado internacional se tiver uma qualidade “exótica”, como o fado.

Há uma entrevista tua em que dizes algo muito interessante, julgo que muitos pais se revêem nesta frase: “Combater a ideia de que os filhos são um problema quando, na verdade, te revitalizam”. Queres explicar?
Há um bocado a ideia de que, quando te tornas pai, a tua vida (social, principalmente) fica hipotecada. Se é verdade que ficamos limitados numa série de situações, ao mesmo tempo que ganhamos a responsabilidade mais importante de todas, para mim a paternidade foi, muito mais do que isso, um refrescar de ideias e sentimentos, abriu-me também horizontes e deu-me vontade de trabalhar mais e melhor.

Return Leiria Fest
19 de Setembro
Mercado de Santana
22h00-4h00
Bilhetes: 9 euros
Informações e reservas:
Teatro José Lúcio da Silva (diariamente das 18h00 às 22h00)
Teatro Miguel Franco (nos dias dos espetáculos. Abertura de bilheteira às 18h00)
Centro Cultural Mercado de Sant’Ana (diariamente das 09h00-13h00/14h00-18h00)
Compra online: www.teatrojlsilva.pt

Entrevista de Cláudio Garcia
17 Setembro 2015