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Texto
Pedro Miguel

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Fotografia
Ricardo Graça

11 Outubro 2015

Ana Rita António queria design industrial em Aveiro, mas entrou em pintura nas Caldas da Rainha. Mais tarde, quis entrar no mestrado de design em Bergen, na Noruega, mas despacharam-lhe a candidatura para o departamento de artes plásticas, dada a natureza experimental da sua abordagem. Pedras no caminho? Guarda-as todas, e um dia fará uma instalação.

O trabalho de Ana Rita António, oriunda da zona de Leiria, tem duas ambiguidades que na cidade norueguesa de Bergen onde mora, ainda ninguém notou, e pelo menos uma delas provavelmente nunca irão perceber, pois é uma característica bem portuguesa: tem a ver com o espírito de desenrasque, uma condição bem tuga e sobejamente conhecida por terras lusas.

A outra é o oposto, e prende-se com o facto de lidar maravilhosamente, e por vezes com humor, com os seus próprios erros ou com as contrariedades da vida, ao passo que o português é muito envergonhado no que toca a reconhecer os seus dissabores.

O percurso académico da artista é disso resultado, com desfechos bastante originais que se reflectem no seu trabalho artístico. Esse mantra beckettiano do tentar outra vez, falhar outra vez, falhar melhor, é disso exemplo.

“O meu trabalho tornou-se uma mistura de um pensamento mais a nível de design, mas com uma estética mais ligada às artes plásticas. Realmente, eu já não conseguia pensar ao nível de forma e de função, estava mesmo habituada a trabalhar com conceitos (risos)”, reconhece.

Meia hora antes do encontro com a Preguiça, Ana foi comprar uns selos para meter nuns postais e enviar aos amigos. Tudo isto estaria certo, se este escriba não a tivesse encontrado na loja da Vodafone, que também é vermelha e a loja dos correios ser umas portas ao lado.

Este pequeno contratempo hilariante faz parte do seu ADN, e quase que faz sentido. Só assim é que os trabalhos resultam. Isso do pensar-fora-da-caixa está muito banalizado. Ana é única naquilo que faz e nem sequer é defeito, é mesmo feitio.

Um dos seus trabalhos que obteve mais reconhecimento foi o ‘The Poetics of Miss Understanding’, que, claro está, começou logo com um erro de inglês. O que deveria ser ‘misunderstanding‘, ‘mal-entendido’ em português, por lapso foi apresentado como ‘miss understanding‘, o que tem muito mais carisma, diga-se de passagem.

Esse trabalho, desenvolvido em Amesterdão em 2013, consistia em nada mais nada menos do que 14 variações de como substituir uma perna de uma mesa. As soluções apresentadas foram as mais variadas, desde botins, caixas de cartão, livros, vasos, a própria artista com a cabeça ‘no cepo’, etc…

The-Poetics-of-Miss-Understanding-by-Ana-Rita-Antonio_sq

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“É sempre uma descoberta ao nível da criatividade. Eu gosto mesmo de trabalhar com limitações, restrições, regras. Na altura, quem me disse foi o João Pombeiro, ele já não se lembra disto, mas foi nas Caldas, na ESAD, que ele me disse que dantes nos navios ingleses ia sempre um português para nos últimos cinco minutos ele desenrascar, caso fosse preciso”, lembra Ana Rita António.

“E eu desde aí fiquei com essa ideia de como seria fazer um design que se resolvesse nesses últimos cinco minutos, e foi aí que comecei a trabalhar com restrições, se tivesse de resolver um problema sem sair de casa, sem ir à loja – que seria a coisa mais automática – mas que no fundo toda a gente faz isto, não é só uma coisa portuguesa, como seria? E no final ter aquela satisfação de dizer: ‘Uau, consegui!’ (risos)”, refere a artista.

Agora anda a fazer coisas diferentes que ainda não quer desvendar por completo, mas lá vai revelando que tem mais a ver com formas e funções, tudo isto, Ana Rita António style, como se um martelo se batesse a ele próprio, uma faca se cortasse a ela própria, um sapato se calçasse a ele próprio… É de ficar à espera, alguma coisa se há-de arranjar.