TEXTO
HUGO FERREIRA

1 OUTUBRO 2015

Algum dia tinha de acontecer. Na verdade, ouvimos durante anos e anos falar dos chamados festivais profissionais de música e, mesmo já tendo participado no modesto Monkey Week, tínhamos muita curiosidade em visitar um dos grandes. Daqueles quatro ou cinco que juntam a nata da indústria musical para o chamado networking, sempre com muitos concertos e showcases de novas bandas pelo meio.

Hamburgo, Reeperbahn, mais de vinte salas nas redondezas do estádio do St. Pauli, centenas de delegados do meio musical a lotar workshops e salas de reuniões e milhares de espectadores com curiosidade capaz de encher todas as salas que tinham concertos ininterruptos desde o meio da tarde até à madrugada.

Foi lá apresentado o novo dos New Order, passaram por lá estrelas de amanhã e dizem que havia olheiros por quase todo o lado. Nós achamos que não, mas vamos deixar o palavreado sobre o meio e dicas às bandas para o próximo ‘Escutismo’. Hoje fazemos nós um sumário do relatório das observações e passamos já a alguns dos nomes (dos muitos que picámos ao vivo) que, se este mundo fosse justo, teriam um lugar ao sol no meio musical.

Oscar (Reino Unido)
Chega de Londres um rapaz alto de voz grossa e ar meio desajeitado que estudava arte e compunha para todos os instrumentos no seu quarto. Arranjou três amigos para o acompanhar e montou uma das melhores (e mais modestas) máquinas de palco.

Imaginem uma aula de brit-pop em 45 minutos. Uma voz que não deve a um Morrissey, arranjos que tanto caminham para territórios de Smiths, Primal Scream ou Blur, como piscam um olho a Joy Division, Cure ou Divine Comedy. Parece confuso e dá a ideia que é um esquema de covers? Olhem que não. Foi arrebatador. Os temas em vídeo já parecem interessantes, mas ao vivo… é das melhores actuações que vimos nós últimos anos. Coloquem os rapazes em qualquer festival e vão ver. Nós apostamos tudo neles.


Noah Kin (Finlândia)
Assim de repente, o hip-hop não é a praia que mais frequentamos mas temos alguns nomes sagrados e inabaláveis no meio. Mas um miúdo de origens africanas, radicado em Helsínquia, chega assim de repente e parte a casa toda. Beats duros e com sensibilidade ora pop ora rock, letras com cabeça, tronco e membros, uma presença em palco incendiária. O Kayne e Kendrick que se cuidem, que o próximo K maiúsculo é de Kin.


My Baby (Holanda)
No início parece bizarro, um baterista com ar de freak, um guitarrista que parece ter formação jazzística e paixão pelo blues e uma elegante vocalista com ar angelical que gosta de ir pegando na guitarra para dar corpo à massa sonora. Quando abre a boca e puxa pela voz ficamos com aquela sensação de poder ser… uma poderosíssima voz soul que podia ganhar um daqueles concursos televisivos e que ali…

Acertamos o passo, a guitarra está no blues profundo, a bateria caminha para a música de dança cheia de ritmo e a voz e a presença assentam como uma luva. Chega-nos a memória de R. L. Burnside e deixamo-nos contagiar pelo ritmo incrível enquanto balançamos. Assustadoramente bom, amigos. Da capital holandesa para o mundo do entretenimento, têm tudo para correr palcos e brilhar. Em disco e em vídeo ainda não conseguem, por ora, dar uma ideia minimamente fiel da explosão que representam ao vivo.

Grandbrothers (Alemanha)
Dois germânicos que cruzam a música clássica contemporânea com a electrónica, explorando várias técnicas inovadoras e “artilhando” o piano com um mecanismo de “martelos” que infligem notas e modificam em tempo real o som do piano. Explorando a melodia e o ritmo de uma forma absolutamente singular, esta dupla arrisca-se a poder almejar um lugar de destaque que, ao mesmo tempo, cruze e transcenda os universos clássico e electrónico.