TEXTO
CLÁUDIO GARCIA

1 OUTUBRO 2015

O Verão acaba, os dias ficam mais frios, as noites depende, há água em Marte e pelo menos já não se ouve tanto aquele anúncio do Licor Beirão, “à patrão, à patrão”. Quem sorri com tamanha falta de gosto dos copywriters é um antigo escuteiro da Marinha Grande, que inventou o “Estou na Lua”. E que ainda recebe uns trocos sempre que a canção passa em público ou é requisitada pelas marcas para uma nova campanha de publicidade.

João Gomes estava no final da adolescência, de cama, a curar uma gripe, quando escreveu aqueles versos que toda a gente conhece, com um refrão meio erótico meio naïf que os escuteiros cantavam nos acampamentos, enquanto os pais dormiam descansados. “E em breve vou chegar ao céu, onde tu estás, toda nua só com um véu”. Era a banda do Kym Zhebra, a ensaiar originais pop-rock no sótão do Agrupamento 36 e a fazer furor no início dos anos 80 com o tema “Cortei a Couve”.

“O ‘Estou na Lua’ surgiu da necessidade de criar reportório original, para preencher cerca de uma hora de espectáculo para um concerto de final de ano lectivo, na Marinha Grande”, explica João Gomes, compositor e guitarra-solo. “A letra fala de um estudante adolescente que está completamente apaixonado por uma rapariga, mas não faz sequer ideia se ela lhe presta alguma atenção. Tenta descer à Terra e concentrar-se nas suas obrigações, para logo a sua imaginação fugir e deslizar para a criação de cenas apaixonadas com o seu amor”.

Estou na lua

João Gomes

Tudo isto aconteceu no tempo dos beijinhos, abraços e mais qualquer coisa. A idade adulta do “Estou na Lua” chega em 1992 com a versão house, que não deixava dúvidas: “Face down, ass up, that’s the way we like to fuck”. O resultado da colaboração entre o produtor e DJ Alex Santos (Alex S) e o vocalista dos Kym Zhebra, Miguel Dionísio, com ajuda de Manuel Pereira (Djazzy) na voz. “Gravámos para uma cassete com um microfone pendurado no candeeiro da minha sala. Passado uns dias já me vinham pedir a música três ou quatro vezes por noite, era impressionante”, conta Alex Santos, hoje colaborador do jornal Observador, como webdesigner.

A nova roupagem da canção que os escuteiros amavam tornou-se um êxito de Verão na inevitável Hot Rio, em São Pedro de Moel, e de repente já bombava também nas discotecas do Algarve. Em 1996, depois da edição do single, pela Vidisco, os Lunáticos aparecem para varrer as festas académicas e impressionar a comunidade portuguesa em Paris. Estreiam-se ao vivo no Porto, no dia seguinte descem até Coimbra para fazer o som na Queima das Fitas, ainda nessa tarde viajam para Lisboa a fim de tocar no Jardim do Tabaco e depois regressam a Coimbra para subir ao palco perante alguns milhares de estudantes alcoolizados, lá para as três da manhã. “Uma loucura”, resume Jorge Mourato, o “Carlos Baptista” da série Beirais, na RTP, que participou na digressão como baterista (também tinha sido escuteiro e vocalista da banda do Kym Zhebra). “Os meus primeiros autógrafos foram como músico convidado dos Lunáticos, nem foi como actor”, recorda.

Antes de se lançar à estrada, o grupo enclausurou-se em São Pedro de Moel, numa tentativa de alinhar os chacras entre pessoas que nunca tinham tocado juntas. Havia secção rítmica, guitarras, teclas e até metais, mas a inexperiência da maioria dos instrumentistas acabou por se traduzir em contratempos nalguns concertos, que nem o playback parcial conseguia disfarçar.

Para Alex Santos, o sucesso daqueles cinco minutos está no casamento entre uma estrutura simples e as novas tendências que começavam a ouvir-se na frente electrónica: “É um tema pop muito bem conseguido e uma conjugação bastante feliz entre música e letra. Ouvi-o pela banda do Kym Zhebra na escola, teria uns 12 ou 13 anos, e lembro-me de ter pensado que aquilo era um hit“.

A aventura acabou em 1997, depois de os Lunáticos incendiarem todas as pistas de dança, gravarem um álbum, entreterem emigrantes, aparecerem na televisão no modo trio (Alex S, Miguel Dionísio e Djazzy) e inscreverem o “Estou na Lua” no imaginário de uma certa geração.

E teremos sempre este teledisco bem humorado, que é muito melhor do que o anúncio do Licor Beirão: