TEXTO
SARA PERES

1 OUTUBRO 2015

Há uma espécie de ditado de que gosto bastante, usado para expressar a abundância de experiência de um sujeito em relação a outro inexperiente em determinada matéria: “Quando tu para lá vais, já de lá eu venho.” Gosto muito desta expressão, mas raramente tenho oportunidade de a usar. E há pouco tempo aconteceu-me exactamente o oposto do que se diz: fui eu que para lá fui depois de todos de lá terem ido. Para as férias.

Este era um momento há muito aguardado (o suficiente para causar ansiedade), mas que adiara para que pudesse usufruir dele com tranquilidade. E para tal escolhi Setembro, os dias que antecedem a chegada do Outono. Quando chegou a altura de ir de férias, eu cumpri os meus deveres e fui-me para longe, para Sul.

As férias souberam-me àquele rebuçado que me davam no início de qualquer encontro ou actividade e que guardava para o final, quando tivesse uma ocasião tranquila em que o pudesse saborear à vontade. Elas foram até, durante meses, a visão do oásis no deserto que impulsiona o viajante a prosseguir caminho, mesmo quando se encontra já exausto e cheio de sede. Foram a cenoura pendurada na cana de pesca que guiou o cavalo. O fardo de palha que espicaça o burro (vulgo eu).

Então, sentia-me ansiosa. E ia viajar para fora do país, também. Embora seja algo de que gosto muito – muito mais do que de chocolate e guloseimas – já não o fazia há muito: desde Dezembro de 2011 que não punha os pés no interior de um avião e começava já a sentir algum prurido, uma espécie de coceira mental que não passava.

Viajar é o equivalente físico do acto de leitura, mas, felizmente, sem orcs, criaturas malévolas ou soldados das SS que vêm para nos capturar. Para quem gosta tanto de uma boa história como eu, uma viagem traz consigo a possibilidade de novos começos, novas narrativas. Com as viagens vêm outros cenários, personagens e ‘estórias’. Abeiramo-nos do que não conhecemos (ou conhecemos mal) e deixamos a curiosidade guiar-nos, explorando uma nova realidade, abrindo-nos a um novo mundo.

É muito provavelmente por causa de tudo isto que as viagens me fascinam. Mesmo o pior lugar – um shithole como Bruges, como diria a personagem do Colin Farrel no filme Em Bruges – traz consigo novas experiências que podem, ou não, transformar-nos, mas que nos tornarão pessoas mais conscientes da existência de um outro e de realidades diferentes. Com isso, pode até dar-se que nos transformemos em pessoas mais tolerantes.

Tenho para mim que a disponibilidade para conhecer o outro, demonstrar abertura para conhecer mais do mundo é uma coisa boa. Através deles aprendemos a conhecer realidades diversas, e temos ainda o bónus de nos conhecermos melhor a nós mesmos. E se, enquanto fazemos essas coisas todas, ainda der para descansar, apanhar sol e pôr a leitura em dia, melhor.