TEXTO
PEDRO MIGUEL

1 OUTUBRO 2015

Por estes dias o mote, em Leiria, parece ser ‘Há Música Na Cidade’, evento de grande porte para uma cidade a tentar ser cultural quando pode, com promessas de candidaturas a capital europeia disso tudo (Faro já disse que se vai candidatar também). Tudo isto num fim-de-semana de eleições legislativas. Mas quem é que disse que música e política não combinam? São cúmplices desde há muito, mas por vezes, como nestas relações abertas: it’s complicated.

Muita coisa mudou desde a guitarra de Woody Guthrie, músico norte-americano que, no início dos anos 40 do século passado, em plena II Guerra Mundial colou na sua guitarra o slogan This Machine Kills Fascists, passando pela A Cantiga É Uma Arma, música de intervenção portuguesa em 1975, até ao hip-hop contemporâneo, muito dele a carregar actualmente a tradição panfletária.

E depois, quando a coisa se torna pública, por vezes é difícil de controlar. Quando o actual primeiro-ministro do Reino Unido e líder do Partido Conservador, David Cameron, proclamou, em 2010, ser um grande fã da banda inglesa The Smiths, os seus membros, nomeadamente Morrissey e Johnny Marr – que por acaso até não falam um com o outro há anos – uniram-se no embaraço e declararam publicamente o seu repúdio pelo bom gosto do político inglês.

Já em 1988, após a separação dos The Smiths, Morrissey, a solo, no seu disco de estreia Viva Hate, encerra o disco com o tema “Margaret on the Guillotine”, uma balada ternurenta mas cheia de sarcasmo, pois é uma referência explícita à primeira-ministra britânica de então, Margaret Thatcher.

Antes disso, em 1982, a banda anarco-punk inglesa Crass cantou o tema “How Does It Feel to Be the Mother of a Thousand Dead”, referindo-se à opção da também conhecida como ‘Dama de Ferro’, de se envolver em força na Guerra das Malvinas (Abril a Junho de 1982). O tema chegou ao Parlamento, e ainda houve uma tentativa de processar a banda por obscenidade, mas, como em muitos outros casos, a publicidade só funcionou a favor da banda, e o caso foi convenientemente esquecido.

Mas nem na morte teve descanso, e quando Thatcher morreu em 2013, o tema “Ding Dong the Witch Is Dead” do filme O Feiticeiro de Oz foi recuperado, e circulou sobretudo na internet, para servir de banda-sonora a um povo que nunca se esqueceu do tempo da outra senhora.

Em regimes de ditaduras como Portugal, Espanha ou Brasil, era recorrente censurar músicas que não alinhavam ou combatiam a situação política, mas também, por exemplo, durante a primeira guerra do Golfo (1990/1991), isso aconteceu. A banda de Bristol, Massive Attack, nome incontornável no panorama alternativo dos dias de hoje, no início da sua carreira, precisamente durante a guerra contra o iraquiano Saddam Hussein, viu o seu nome ser censurado por rádios inglesas como a BBC. De repente, segundo alguns, apenas se podiam chamar ‘Massive’.

A geopolítica, por vezes torna incómodos nomes de canções mais sensíveis – veja-se o nome de um tema da banda The Cure que se chama “Killing an Arab” – que, na verdade, se baseia na obra O Estrangeiro, de Albert Camus, mas que pode prestar-se a equívocos.

No início deste mês de Setembro, os norte-americanos R.E.M. mostraram o seu desagrado quando o candidato republicano Donald Trump usou a canção “It’s The End of the World as We Know It” numa das suas entradas fulgurantes num comício. O vocalista Michael Stipe não poderia ter sido mais explícito no seu Twitter, e se calhar dispensa tradução: “Go fuck yourselves, the lot of you – you sad, attention-grabbing, power-hungry little men”, disse o artista.

Já em Junho deste ano, também com o mesmo candidato, o lendário Neil Young mostrou-se chateado com o uso da sua canção “Rockin in the Free World” numa outra aparição do magnata e empresário candidato à Casa Branca. Ao recuar até 1984, também Bruce Springsteen, segundo o jornal The Guardian, viu com consternação o seu “Born in the USA” ser usado para fins de campanha, pelo então candidato Ronald Regan.

Já no campo da aceitação, a rocker Patti Smith viu com bons olhos os gregos do partido Syriza usarem este ano a sua música “People Have the Power” como mote dos seus comícios. Já antes, em 2000, a sua canção, escrita em 1988, tinha sido usada pelo candidato à Casa Branca pelo partido ecologista, Ralph Nader, onde repetiu o seu apoio a Nader em 2004, sobretudo quando os comícios eram antiguerra do Iraque ou anti-Bush. Em 2008, Patti Smith apoiou Barack Obama, e a sua canção foi bastante usada. Com fins mais conciliadores e universais, o papa Francisco convidou a artista a tocar no concerto de Natal no Vaticano, no final do ano passado.

E por cá, como tem sido a luta? Para a semana, com um novo primeiro-ministro eleito, mas já a pensar na eleição presidencial de Janeiro, a Preguiça debruça-se sobre realidades mais próximas. Até lá, e como diz Patti Smith no vídeo acima: “Don’t forget, use your voice“.