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EUNICE NEVES

1 OUTUBRO 2015

Olá, o meu nome é Nice e em Fevereiro iniciei uma viagem de estudo sobre permacultura (já vos digo o que é), que durará um ano e meio. Um ano na Austrália e seis meses nos EUA.

Ui, e já lá vão seis meses e meio!

Diz-se que o tempo passa a correr quando andamos ocupados e ainda mais depressa quando fazemos aquilo de que gostamos. E é definitivamente o meu caso. Sinto-me a viver um sonho que, na verdade, foi “criado por mim” e contou com o apoio de mais de 150 pessoas para se realizar. Não me canso de agradecer… grata a todos aqueles que me confiaram a sua energia!  Cliquem aqui se quiserem mais sobre este estudo

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A Preguiça é eco
Como quero ao máximo partilhar aquilo que estou a aprender, andei a chatear a malta da Preguiça, meus conterrâneos, para escrever de vez em quando uns artigos sobre permacultura, sustentabilidade, resiliência, ou o que eles lhe quiserem chamar.
Disseram-me que sim, como já me disseram que sim a vários outros projectos que também precisavam de apoio. A Preguiça é fixe e é amiga da malta! As únicas “condições” que me puseram foi “não escrever grande lençol, porque a malta não está para ler grandes textos online” e manter o registo descontraído e divertido da Preguiça. Bem, eu não tenho a piada que eles têm, mas vou tentar não vos dar muita seca com as minhas ideias ecológicas.

O que é a permacultura?
O conceito de permacultura está relacionado com a criação de uma nova cultura, uma “cultura para a permanência (regeneração, sustentabilidade e resiliência) num futuro de decréscimo energético”. Uma visão positiva, visto que o ser humano já está na lista das espécies em risco de extinção.

Segundo o David Holmgren, co-criador do conceito, a permacultura não é apenas um estilo de vida alternativo, só porque agora quero ser “sustentável” e “verde” e “cool”. É, sim, um conceito pragmático, bem fundamentado, e que se debruça sobre um desafio real: Como é que vamos lidar com a diminuição energética de combustíveis fósseis e as alterações climáticas, sem morrer de fome ou andar à batatada?
Já ouviram falar de peak oil, o pico do petróleo? Tem muito a ver com isso!

Segundo muitos investigadores, já ultrapassámos a fase de máxima extracção de petróleo a um preço em que o retorno energético compensa. Isto é, como me explicou o David, ainda há muito petróleo no mundo, mas ou é difícil e caro de extrair ou é de má qualidade. Só que, como somos todos tão dependentes desta fonte de energia potentíssima, que ainda por cima está nas mãos de grandes e poderosas corporações, pouco convém falar desta realidade.

Querem abrir a pestana e saber mais? Cliquem aqui e aqui
Um livro muito fixe aqui

Imitar a Natureza
Os ecossistemas naturais são o melhor exemplo de eficiência energética e resiliência de que dispomos. Pensem numa floresta, porque é que ela funciona de forma tão eficiente?
Porque:
– “recicla nutrientes” constantemente em ciclos energéticos fechados que dependem apenas do sol (energia renovável);
– todos os elementos que a constituem estão interligados (plantas, fungos, animais, bactérias…) e desempenham funções que suportam uns e outros no seu todo – “integração em vez de segregação”;
– “cada função importante é desempenhada por múltiplos elementos” (criar solo, a fonte da vida, é da responsabilidade da minhoca mas também dos fungos, das bactérias e tal e tal);
– “cada elemento desempenha múltiplas funções”, por exemplo: a minhoca não contribui só para produzir húmus, ela também contribui para arejar o solo, para alimentar os pássaros, etc.

Mas porque é que isto tudo me fascina!?
Se os ecossistemas naturais são o melhor exemplo de que dispomos, ao imitarmos os seus princípios de funcionamento (alguns deles em cima entre aspas e em itálico), vamos conseguir criar “sistemas humanos” super eficientes e resilientes!
É que, na verdade, nós somos apenas mais um elemento dos ecossistemas naturais. Temos é a mania que somos especiais, que estamos separados da Natureza. E com isto esquecemo-nos de como funcionar em harmonia com o todo.
Como somos um “elemento consciente”, a permacultura identifica também três princípios éticos fundamentais para nos ajudar a funcionar melhor: “cuidar das pessoas”, “cuidar do planeta”, “reduzir o consumo e partilhar os excedentes”.

Adeus cultura do materialismo e do consumismo
O David acredita que conseguiremos fazer face ao decréscimo de petróleo e às alterações climáticas, se houver uma mudança da cultura do materialismo e consumismo para a cultura da sustentabilidade e resiliência. Estamos a consumir os recursos naturais e a destruir o planeta a um ritmo alucinante. É urgente parar a destruição e acelerar a regeneração.
Parte disso passa por repensarmos os nossos hábitos, o que não é tarefa fácil! Principalmente se pensarmos na quantidade de coisas das quais dependemos e que dependem de recursos fósseis. As piores de todas são a agricultura e a indústria alimentar.

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Agricultura industrial, produção de milho

A dependência agrícola de combustíveis fósseis (maquinaria, fertilizantes, herbicidas…) e o facto de a agricultura industrial estar a matar o solo, a fonte de vida, e a destruir muitas outras espécies e ecossistemas foi a razão do surgimento da permacultura na Austrália. Um novo conceito de “agricultura permanente” que fez sucesso, nos anos 70, quando na Austrália se debatiam estas questões energéticas.

Agri “cultura” permanente
Naquela altura, a ideia de uma agricultura que imitasse o funcionamento dos ecossistemas naturais, ou seja, utilizasse apenas energias renováveis e que produzisse abundância de alimentos, fibras e energia (à semelhança do que faz por exemplo uma floresta) foi um sucesso pela Austrália e pelo mundo.
E o conceito não se ficou só pela agricultura! Porque para sobrevivermos num futuro de decréscimo energético teríamos de repensar toda a “cultura”, englobando outras áreas da sociedade.

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A famosa flor da permacultura identifica 7 áreas-chave (pétalas) que podemos repensar com a ajuda dos princípios éticos (símbolos ao centro) e dos princípios de design (símbolos em redor). Para cada área-chave a permacultura apresenta várias disciplinas alternativas: http://permacultureprinciples.com/downloads/Pc_Principles_Poster_PT.pdf

Design de sistemas humanos “Life Design”
Para mim, esta é a grande contribuição que a permacultura está a dar à nossa sociedade. A possibilidade da criação/design de sistemas humanos (sistemas agrícolas, financeiros e sociais) à semelhança dos ecossistemas naturais.
Falo em design porque o pensamento sistémico do designer é crucial para a permacultura. O PDC (Curso de Design de Permacultura) ensina-nos a aplicar isto tudo às nossas vidas. E pela minha experiência é brutal! Mudou a minha forma de ver o mundo e de pensar. E já conta com mais de 1 milhão de pessoas por todo o globo. Pessoas interessadas em encarar a realidade de frente e aprender a redesenhar a vida, para que o futuro seja risonho para todas as gerações.

Crowdfunding vs Bolsa
Para mim é particularmente especial que esta “investigação” seja financiada directamente pelas pessoas. Porque se estivesse à espera de uma bolsa da Universidade não estaria agora na Austrália, e neste preciso momento, em Melliodora, a casa do David Holmgren, um dos “pais” da permacultura. Um dos meus heróis!

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“O problema é a solução”
Como dizia o Bill Mollison, o outro co-criador da permacultura: “Os caracóis na horta não são o problema. Há é falta de patos para os comer. Se adicionarmos patos ao sistema, os caracóis passam a ser uma solução para a alimentação dos patos”.  Este princípio de atitude “o problema é a solução” é aplicável em tudo nas nossas vidas, assim como são outros princípios que podem ver em detalhe aqui (desculpem estar em inglês).

Eu aplico-os na minha vida e esta viagem de estudo é o maior resultado disso!
Andei vários anos de volta dos meus professores de Arquitectura Paisagista com estas eco-ideias de permacultura que eu achava, e acho, importantes para os meus colegas. Pensei em pedir apoio à Universidade, mas a ideia de me candidatar a uma bolsa desapareceu quando os meus professores me disseram: “Sim, Eunice, a permacultura parece um tema interessante, mas a Universidade não tem dinheiro para bolsas”.

OK… pensei eu há um ano, como é que vou dar a volta a isto? Como transformar o problema na solução? Se não tinha a bolsa da Universidade mas tinha o interesse dos professores e colegas, tinha de encontrar uma saída para financiar o meu estudo.

O crowdfunding, uma alternativa ao financiamento convencional, que eu também conheci através da permacultura, pareceu-me uma óptima possibilidade. Como uma das minhas professoras da Universidade estava interessada no tema, acordámos que ela seria uma das minhas mentoras, mesmo não estando eu burocraticamente ligada à Universidade.

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Demorei 4 meses a engendrar este estudo e, como já vos disse, utilizei o design de permacultura (pensamento sistémico + princípios) para o criar. Achei que era uma boa forma de testar na minha própria experiência aplicabilidade da disciplina.

E o resultado??
Bem, está a ser melhor do que o planeado!
Sinto-me a viver “um sonho” todos os dias! Que privilégio estar no berço da permacultura, a viver e aprender com estes grandes homens e mulheres.
Os meus heróis não são estrelas de cinema nem jogadores de futebol. Os meus verdadeiros heróis são estes homens e mulheres que dedicam as suas vidas a um futuro melhor para todos!

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Aprender a fazer conservas sem açúcar que duram o ano inteiro