TEXTO
PEDRO MIGUEL

FOTOGRAFIAS
RICARDO GRAÇA

8 OUTUBRO 2015

Esta sempre vossa Preguiça Magazine lançou-se nesse desporto nacional que é comer e beber. De nariz no ar, à procura do melhor conforto para o estômago, galgou com aquela galga de fim de dia por Leiria, Marrazes e até Fátima. Pelo sim pelo não abençoa-se a coisa, porque afinal de contas isto da gula é pecado, e se no fim alguém arrotou, fiquem sabendo que é sinal de respeito em algumas culturas. Eis A Rota.

Num rigoroso exclusivo para detentores do Cartão Preguiça, seguiu também por mail o primeiro número d’A ROTA PREGUIÇA – ROTEIRO DE BONS RESTAURANTES EM LEIRIA. Assim já não precisam de fotocopiar as revistas que andam aí, e também serve de miminho para quem está longe.

Parece que agora está na moda falar de gastronomia. Os programas de televisão ajudam a fomentar esse fenómeno e os pecados estão por lá a toda a hora. A ira de Gordon Ramsey, a luxúria de Anthony Bourdain, a gula de Man Vs. Food com Adam Richman, a vaidade das comidas bizarras de Andrew Zimmern, a inveja ao contemplar o programa Inside Luxury, de Varum Sharma ou os variados programas em português do 24 Kitchen.

Pela parte do chef britânico Jamie Oliver, a coisa foi mais dura, e diz que ganhou nos tribunais uma batalha contra a alegada avareza da McDonald’s, onde tentou expor que os nuggets eram feitos com as partes menos nobres do frango, e ainda acusou a cadeia de fast food de misturar a carne com hidróxido de amoníaco.

Como todo o sucesso, há sempre quem se manifeste contra, e por isso não falta quem acuse esta nova maneira de encarar a cozinha como um atentado aos bons costumes gastronómicos. A azia recai sobre o facto de que é tudo muito rápido e não há tempo para a desbunda a que qualquer iguaria tem direito.

Como nos quadros de naturezas-mortas, evoca-se o saudosismo do caseiro, do ter tempo, do mastigar devagar. Tudo isso está certo, mas, histerias à parte, o importante do que fica são os indicadores que estas modas mostram. O turismo gastronómico é dos melhores prazeres da vida e por isso ninguém saberá verdadeiramente se o melhor arroz-doce estará no centro de Londres ou numa ruela da parte velha de Benidorm.

Mas sobretudo se ficar à cultura e à vontade de cada um querer acrescentar valor a um simples bitoque, se isso for feito, então todos já ganhámos alguma coisa. Sartre dizia… ou seria Proust?… Hemingway? Hummm… Jô Soares? Fernando Mendes?

Eh lá, que já se lixou a referência intelectual da cena. Enfim, o que a malta gosta é de comer e beber. E sim, ‘co- mer’ é um verbo, e ‘comida’ é o que se come. Por isso, por favor não digam ‘o comer’. Pronto, está safa a coisa com alguma urbanidade.

Bom apetite!