TEXTO
HUGO FERREIRA

8 OUTUBRO 2015

A Omnichord Records esteve em Hamburgo, e neste segundo capítulo, o seu mestre de obras, Hugo Ferreira, colaborador desde o primeiro dia na Preguiça Magazine, partilha uma visão realista daquilo que é o mercado discográfico. De vez em quando faz bem regressar à terra. Eis um texto para reflectir.

Como a própria palavra pode indicar – e às vezes representa – networking não é só estar agarrado ao telemóvel ou ao pad e escrevinhar cenas. Noutra acepção pode realmente ser entendida como trabalho à distância, mas aqui presume que haja conversas e reuniões com outros agentes do meio em que cada um tenta puxar a brasa à sua sardinha e, ao fim e ao cabo, saem todos com a noção de que venderam bem o peixe mas sem garantia alguma de que qualquer coisa aconteça num futuro próximo.

Welcome to the real world, eles são grandes agentes, têm slots e brands e syncs e buzzs e streams e copyrights e mais uma série de coisas com nomes pomposos e nós temos apenas música. Arrancamos logo para o jogo a perder dois a zero e com menos um.

Mas o que faz o mercado é a música, dizem vocês (e pensava eu). Pois. Não há certezas, mas há esperança.

Sobre a questão da exportação de música feita em Portugal (que está num patamar muito alto de qualidade e que tem imensos projectos que poderiam vingar em qualquer parte do mundo) há vários pontos a reter. Que, verdade seja dita, tanto funcionam para a possibilidade de exportação como para a própria exposição a nível nacional.

Se uma determinada banda ou projecto tiver uma característica que a torne única e dificilmente comparável pode (e deve) ir a jogo e tem argumentos para entrar em campo, ainda que continue refém do seu génio, da sua capacidade de trabalho, investimento financeiro e sorte.

Já uma banda que faz (mesmo que muito bem) o que uma série de outros nomes já fazem… aí começa a ser preciso um alinhamento cósmico bem mais complexo para que o sucesso lhe bata à porta e avise os talentosos músicos que chegou a hora de se despedirem dos empregos que têm para se dedicarem por inteiro à música.

E a promoção, amigos, é cada vez mais a chave da coisa.

Por exemplo, se és português e cantas em inglês, pergunta-te porque é que alguém te vai escolher quando tem pelo menos 534 bandas no Reino Unido cheias de vontade de arriscar dinheiro por uma oportunidade. Normalmente a dicção deles é melhor, as letras também e eles estão no meio dos centros de decisão. Ou tens algo que os outros não conseguem ter ou dificilmente entras no mercado que, aliás, é sobretudo deles.

Sobre os showcases (onde muitas vezes nem sequer há check sound…), ou se dá um concerto como se fosse o último e tudo corre bem no que toca a som e à prestação e esse momento foi antecedido por contactos e alguma política de relações públicas, ou estamos a desperdiçar uma oportunidade interessante e por vezes única.

Um agente que pique uma banda que não lhe encha o olho e o ouvido, raramente voltará a dar atenção ao nome.

Para a memória fica a noção de que o mercado nacional, salvo raras e honrosas excepções, ainda está muito pouco explorado e com poucos recursos afinados para trabalhar exportações. Se calhar temos qualidade a mais e estratégia e dinheiro a menos. Nada de novo, portanto. Venham os próximos capítulos que a banda sonora ainda pode ser nossa.