TEXTO
SARA PERES

15 OUTUBRO 2015

Acontece-me muitas vezes ter a vontade de escrever o texto perfeito, um texto que comporte e transmita a mensagem certa, a ideia perfeita. Esta vontade é tão grande que o receio de falhar impede a acção. Fico paralisada, à espera, num lugar escuro onde, além de mim, só existe a preocupação e o medo. E então não escrevo, o texto não se faz e fico só eu e a imensidão da folha branca – que contém em si todas as possibilidades, sem que, no entanto, se faça alguma.

O medo cega e acaba por me desviar do que é verdadeiramente importante, o prazer de escrever. Com o receio de cometer erros, cometo outro, um maior: o de transformar o prazer em fonte de ansiedade.

O erro constitui, no entanto, um bom processo de aprendizagem. Com a ajuda dos reflexos condicionados, aprende-se a evitar os erros. Nós e o cãozito de Pavlov. Se bem que o que nos afasta do cãozito e nos torna mais humanos (e estúpidos, em certa medida) é a capacidade de repetirmos a mesma acção e esperar um resultado diferente. Ou simplesmente, a incapacidade de aprender com os erros. E isto aplica-se a cada indivíduo e aos nossos conjuntos. Aos mais diferentes povos e sociedades.

Dizem que a história se repete. E não podemos negá-lo. Com maior ou menor frequência, a História repete-se. E acontece apenas porque somos nós, humanos, que a pilotamos. À máquina de fazer história.

O mais preocupante é que fazemos o mesmo há muito tempo. Há demasiados séculos. E, neste caso, o erro parece não conter em si nenhum potencial educativo.

Guerra, a vontade de submeter outros povos à nossa própria vontade: há séculos que sabemos que a história é a mesma. E o mais curioso é que as histórias, essas existem mais ou menos ao mesmo tempo que existe a História. Elas são, provavelmente, o veículo de transmissão de conhecimento e/ou experiência mais antigo. O que é difícil compreender é como, até agora, continuamos a assistir a repetições da História: sim, os actores podem não ser exactamente os mesmos, mas as personagens que interpretam são iguais. E a narrativa não difere da que soubemos ter acontecido há décadas. Ou séculos. Quiçá milénios.

Sendo humanos e possuindo processos de aprendizagem mais complexos que os reflexos condicionados, seria de esperar que algo se tivesse aprendido, entretanto. Ainda assim, a esperança é a última a morrer. E, apesar do que se diz sobre a importância do Prémio Nobel (o da Literatura, neste caso), tenho esperança. E acredito que, apesar de não se tratar de um acontecimento que possa mudar o mundo, pelo menos transmite a mensagem certa: tanto no ano passado como neste, os autores escolhidos pela Academia Sueca têm pelo menos um aspecto em comum: dão voz àqueles que nunca foram ouvidos e recordam a memória dos que foram esquecidos. E isso é importante. É que a História não se faz apenas da perspectiva dos que vencem. E talvez esteja na altura de os que perdem serem ouvidos. Pode ser que se aprenda alguma coisa com os erros. Nunca se sabe.