TEXTO
SARA PERES

29 OUTUBRO 2015

“É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte” – A. Camus, in A Queda

É um lugar-comum afirmar que a vida de X ou de Y poderia ser matéria para um livro ou um filme. Deve ser por isso que quase toda a gente escreve hoje em dia. E muitos publicam, até.

No que respeita à minha pessoa, posso desde já garantir-vos e tranquilizar-vos que a minha vida não constitui material suficiente para alimentar um livro. Quando muito daria para um pequeno conto. Um microconto, mais precisamente. Ou para um texto noticioso. Mas provavelmente o máximo a que terei acesso (com sorte) será a um obituário. E nem sei se o género existirá ainda quando falecer, daqui a muitos e longos anos. (Assim o espero.)

Hoje não dissertarei sobre obituários, embora creia que a maior parte das pessoas, ao invés de se sentar a escrever biografias, antes devesse treinar a redacção do seu próprio obituário: além de ajudar a pôr os acontecimentos mais importantes de uma vida em perspectiva, se conseguissem escrever meia dúzia de parágrafos em que condensassem a informação mais relevante sem dar erros, isso já seria um triunfo. E poupavam o mundo a ler coisas que não ferem a vista, mas aleijam o pensamento.

Também não quero debruçar-me sobre a facilidade com que hoje uma pessoa pode ‘botar’ um livro cá para fora. Se o sonho de um indivíduo for publicar um livro, ou simplesmente quiser uma “vida completa” (a par de plantar uma árvore e ter um filho, escrever um livro), é muito fácil conseguir publicar um livro. O que há para aí de “editoras”. Se me perguntarem a minha opinião, acho que as gavetas servem para mais do que guardar peúgas e nelas há espaço de sobra para manuscritos que não vale a pena publicar.

Mas, enfim, não era sobre nenhuma destas coisas que queria escrever. Na verdade, o que eu queria mesmo era falar da rotina. E da monotonia.

É que a rotina é uma coisa que me entedia. Que me aborrece e tira a energia. É mais fácil ser consumida pelo tédio do que por um dia agitado em que nada do que era esperado acontece. No entanto, as rotinas são necessárias, reconheço. Não me parece que o ser humano consiga viver no meio do caos. É bom (e necessário) ter elementos que tragam estabilidade. E os hábitos ajudam. Mas os dias sucedem-se, acordamos todos os dias à mesma hora, para fazer as mesmas coisas e almoçar e jantar e deitar dentro do mesmo horário. Sem obstáculos ou qualquer tipo de inquietação.

E é então que a vida, afinal, precisa de se assemelhar aos livros: sem percalços, problemas ou dificuldades que gerem instabilidade, não há história. A vida seria apenas um fluir contínuo de rotinas, monótono. Mas nós, como as narrativas literárias, precisamos que algo aconteça para que as nossas vidas façam sentido. Não há livro ou história que não se faça de acontecimentos (maiores ou menores) que quebram o continuum da vida das personagens. E nós, tal como um bom livro, precisamos de uma narrativa para continuar. Precisamos de acontecimentos que nos precipitem para a acção, que perturbem as nossas rotinas e nos conduzam a algum lugar, seja ele físico ou mental, e façam de nós, vá, pessoas melhores. Ou simplesmente nos tornem outros.