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EUNICE NEVES

29 OUTUBRO 2015

Quando contactei a Su Dennett e o David Holmgren, porque queria incluir o projecto deles, Melliodora, na minha pesquisa, fizeram-me várias perguntas: Estás disposta a trabalhar muito? Tens experiência com animais, com jardinagem, com construção natural ou apicultura? Trabalhas bem sozinha? E deram-me logo algumas dicas de como iria ser pôr a permacultura em acção ao seu estilo. Tudo OK. Para passar 10 semanas em casa de um dos co-criadores da permacultura vale tudo!

Bastaram-me alguns dias para perceber que o David e a Su não são pessoas só de palavras, eles vivem mesmo o que acreditam e ensinam! Um estilo de vida simples e auto-suficiente (“self-reliant” é mais correcto, mas não sei traduzir. Significa que não têm a ambição de ser completamente autónomos em relação a tudo o que consomem, mas tentam ao máximo produzir grande parte da sua comida e energia e outros bem necessários).

A melhor forma de mudarmos o mundo é mudarmos a forma como vivemos no dia a dia. Uma economia doméstica forte, que nos permite ser mais autónomos e responsáveis pelas nossas necessidades básicas é, segundo o David, um dos mais poderosos actos políticos que temos em mãos. Uma verdadeira ameaça às grandes estruturas de poder da sociedade como as corporações e os governos. Podem ler aqui uma entrevista em que ele fala sobre isso.

Conhecimento sem fim. Os dias em Melliodora começam cedo. Pequeno-almoço às 7h30 da manhã, delicioso por sinal e com leite de cabra fresco. Há memórias que ficam, momentos simples, mas tão bons e especiais como chegar à cozinha de manhã e estar o David a mexer as papas de aveia (ou outro cereal integral) no fogão a lenha e a ouvir as notícias da rádio. A Su normalmente não está, porque vai buscar as cabras e tirar-lhes o leite. Papas feitas, mesa posta e desliga-se a rádio. Aí então começam as melhores sessões de informação que alguma vez tive. O David é uma mente impressionantemente brilhante, com um conhecimento tão vasto de tudo e uma vontade enorme de articular e partilhar ideias. Muitas vezes dei por mim a pensar: Uau, que privilégio ter o David Holmgren a falar-me do mundo de forma tão holística e fundamentada. Tudo faz tanto sentido assim. Aulas sobre o passado, o presente e o futuro. Sobre natureza, economia, finanças, agricultura, construção bioclimática… qualquer tema! Aprendizagens únicas que adorava que todos pudessem vivenciar!

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Palestras ao jantar também

WOOFing. O dia de trabalho são 8 horas. “Estás disposta a trabalhar muito?” – Sim, estou, mas só porque é Melliodora! Normalmente como woofer (willing worker on organic farms) troco 4 ou 5 horas de trabalho diário por alojamento e alimentação. É uma forma de ficar a conhecer todos os projectos muito melhor, porque trabalho no terreno e participo nas tarefas diárias. Sim, WOOFING é uma forma brutal de aprender directamente com quem mais sabe e também de viajar e conhecer outras culturas sem gastar muito.

Tenho conhecido muitos europeus a fazê-lo aqui na Austrália, conhecem o país todo assim. E sei que há muita gente a fazê-lo pelo mundo todo. Como além de fazer woofing eu também estou a trabalhar na minha pesquisa, os meus dias chegam a ter 15 horas de trabalho. Acho que impressionei o David e a Su com a minha dedicação ao estudo que estou a desenvolver e que muitos de vocês vão receber.

Quando nos despedimos, um dos conselhos que me deram foi “don’t work too hard, Nice” – não trabalhes tanto, Nice. Acho que eles têm razão. Um dos meus grandes desafios nesta viagem tem sido equilibrar os momentos de trabalho e lazer. Nem sempre é fácil combinar a enxada com o teclado. O que vale é que gosto muito do que estou a fazer e quem corre por gosto… cansa menos!

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100 kg de peras nesta árvore!


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Eu e a Blossom

O mundo dentro do galinheiro. Os dias passam rápido e as tarefas são variadas: apanhar fruta, fazer conservas de fruta (que não precisam de açúcar!), apanhar e rachar lenha, roçar ervas, preparar a terra para as plantações, plantar, apanhar “ervas daninhas” para fazer a salada, fazer pão, alimentar os animais, fazer composto, recuperar as paredes e o chão com materiais naturais, e muito mais.

Uma manhã, quando eu estava com a Patrícia (woofer brasileira) e a Julia (woofer franco-americana) a limpar o galinheiro, o David foi ter connosco para ver como corria o trabalho. A Júlia, sempre supercuriosa, lembrou-se de perguntar sobre as minhocas que íamos encontrando. Ui! Mal ela sabia que ia receber uma das mais fantásticas lições de história da paisagem universal.

Sim, tivemos uma palestra de mais de duas horas (ainda bem que a Su não nos apanhou, ela é que vai controlando as palestras do David) em que o David desenvolveu em profundidade: o porquê da falta de minhocas no solo, quais os nutrientes e minerais disponíveis, a razão da geologia da Austrália (o continente mais antigo do mundo), o modo de vida dos povos aborígenes, o impacto da ocupação inglesa nas florestas australianas… daí deu um salto maior até às florestas do Nepal, às formações geológicas do México, à ocupação espanhola e seu impacto na Terra… and so on and so on.

Impressionante seguir o pensamento do David… o pai dele vendia enciclopédias, só para terem uma ideia. É impossível memorizar tudo o que ouvi, mas tenho pena, porque adorava partilhar convosco as “revelações” que ia tendo. Valem-me as muitas notas que tirei no bloco que trago sempre comigo.

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A melhor aula de sempre dentro do galinheiro!

Papel higiénico, uma decisão ética. Agora as coisas começam a ficar mais engraçadas… Sim, 10 semanas sem papel higiénico! Para ser sincer,a não me fez grande diferença. Não havia papel, mas havia a lista telefónica e muitas árvores e arbustos de onde tirar folhas. Se pensar bem sobre o assunto, não faz sentido nenhum que estejamos a dar cabo dos nossos solos em Portugal com monoculturas ininterruptas de eucalipto que já somam mais de 20% da nossa floresta.

Observem a terra num eucaliptal e vejam como já não é escura, já não tem matéria orgânica nem vida. A camada fértil do solo é a fonte de vida da qual mais dependemos e as explorações de eucaliptos para pasta de papel estão a dar cabo dela um pouco por todo o Portugal. Basicamente, estamos a tramar o futuro aos nossos filhos para… limpar o rabo. Não é muito inteligente, pois não?

Não digo que não vou comprar mais papel higiénico, mas há-de ser reciclado. E se num futuro de decréscimo energético, como descreve o David, a sociedade tiver de repensar muito bem onde gasta os escassos recursos que restam, não há-de ser em papel higiénico, imagino eu.

Ciclos de nutrientes. Há duas casas de banho em Melliodora, ambas na rua e sem autoclismo. Usar água potável para afastar “o problema”? Não, o “problema” na verdade não é o cocó nem o chichi; eles fazem parte da solução, se forem mantidos no local, compostados e reutilizados no pomar, por exemplo. Ao produzirmos alimentos estamos a retirar do solo nutrientes e minerais para alimentar as plantas que nos vão alimentar a nós. Parte do que ingerimos “constrói” o nosso corpo, é bem verdade que somos literalmente o que comemos, e a outra parte “deitamos fora” sob a forma de cocó ou chichi. Ao puxarmos o autoclismo, estamos a desperdiçar matéria e a quebrar o ciclo natural de nutrientes. (Mais sobre casas de banho secas aqui)

Design solar passivo. Existem duas casas em Melliodora, ambas construídas pelo David com materiais naturais (tijolo de barro). Chego à conclusão que a história dos 3 porquinhos deve ter sido encomendada por uma empresa cimenteira. O design solar passivo (materiais escolhidos, orientação solar, entradas de sol e ar…) permite que a temperatura dentro da casa se mantenha muito mais amena do que nas casas de cimento que conheço. E posso dizer que funciona! E, além disso, não há contas de gás ou electricidade. Os painéis fotovoltaicos produzem toda a electricidade necessária e o fogão é a lenha de madeira produzida em Melliodora.

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Casa do David e da Su, um bom exemplo de design solar passivo.

Reutilizar e remendar. Quem olhar para a Su e para o David, vai achá-los pessoas “simples”. Têm a roupa remendada e carros velhos. Aqui na Austrália as pessoas são muito mais descontraídas em relação à aparência do que em Portugal. E nem vou falar de Leiria… Existem muitas “op-shops” – lojas de oportunidades – que vendem tudo e mais alguma coisa em segunda mão. São lojas de caridade, tipo Humana e EMAUS, mas a qualidade das coisas é muito melhor e os preços mais baixos. Como há a cultura de dar o que não se usa a estas lojas, há muita oferta de coisas em óptimo estado. Esta é uma das razões pela qual o David e a Su não compram roupa nova. Com tanta roupa boa que há e que não é utilizada, para quê gastar mais recursos naturais, poluir mais rios e produzir mais lixo para fabricar roupa nova? Isto já sem falar da terrível exploração de trabalhadores de indústria têxtil, em países pobres.

Mais informações? aqui e aqui

Eu estou a adorar a despreocupação diária que tenho em relação ao que visto. Como ando com a casa às costas, as opções de roupa são muito poucas e… que alívio! Nada de não saber o que vestir de manhã, porque tenho demais por onde escolher. Vestir as mesmas calças até me apetecer ou ter de as lavar, sem preocupações de que me olhem de alto a baixo.

Ética vs Aparência. Em sítios como Melliodora ninguém liga às aparências. Não há tempo a perder com futilidades, quando a prioridade é regenerar o planeta e salvar a humanidade. O David e a Su têm a roupa remendada e são pessoas admiráveis que colocam a ética à frente das escolhas e das aparências.

Eles sim, são os meus verdadeiros heróis!

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Com o David Holmgren e a Su Dennett em Melliodora