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Texto
Carina Correia

Fotografias
Bruno Pires

5 Novembro 2015

A Preguiça Magazine aproveitou a presença do fotógrafo André Cepeda em Coimbra e foi ter com ele ao Museu da Ciência no dia da montagem da exposição colectiva Sempre uma Coisa a Seguir à Outra, integrada no Anozero: Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra. Mais do que conversar sobre esta ou outras exposições, tínhamos em mente conhecer melhor o artista cuja ligação à cidade é tão especial. O objectivo foi cumprido.

André Cepeda nasceu em Coimbra há 39 anos. Foi nesta cidade que deu os seus primeiros passos, não só aqueles de quando se começa a andar como também os que iniciaram o seu caminho no mundo da arte. “Nasci em Coimbra, fui mais tarde para a Holanda, de onde regressei com 10 anos e vivi por cá até aos 17. Portanto, vivi em Coimbra num período muito importante da minha vida, em que há imensa curiosidade e liberdade para se experimentar e se perceber quem é. No fundo, é aquela idade em que se cresce e tudo aquilo que vivemos nos marca. Foi nessa altura que comecei a estabelecer a minha relação com a música, com o cinema e que comecei a colaborar nos Encontros de Fotografia, a primeira vez com 13 anos”, lembrou de forma segura.

Após esse tempo de descoberta e sentindo já instalada em si a semente da paixão e do respeito pelo trabalho artístico, André rumou a Bruxelas e frequentou o curso de fotografia na École des Arts d’Ixelles. Foi aí que começou o trajecto, ainda hoje em movimento, de fazer da fotografia o seu modo primordial de estar na vida.

Regressou a Portugal, desta vez para o Porto, e trabalhou durante dois anos no Centro Português de Fotografia. Voltou novamente a Bruxelas com uma bolsa de residência artística no Espace Photographique Contretype e admite ter sido aí que o salto se deu: “Foi nessa permanência em Bruxelas que comecei a minha carreira como fotógrafo.” Entretanto, a cidade do Porto marcou mais uma vez o seu destino de regresso e lá se instalou para residir, até hoje.

Ao tentarmos saber sobre a relação que André Cepeda estabelece com a fotografia e com o acto de fotografar, demo-nos conta, não só pelas suas palavras como também pelos seus imponentes silêncios, que é algo tão profundo que se torna difícil de enunciar. “Quando decidi que queria ser fotógrafo foi uma decisão muito importante e muito séria. Este caminho que decidi traçar surge de uma força interior muito forte e muito pessoal, que não consegues definir nem apalpar. É uma necessidade que faz parte da minha vida e todos os dias acordo a pensar nos meus projectos e naquilo que vou fazer. E só eu sei o que vou fazer”.

Por isso mesmo, André vê o seu trabalho como uma descoberta contínua que se vai definindo com o tempo e com os erros que se cometem. “Nestes anos de dedicação sinto uma grande evolução, mas sinto que tenho ainda imenso para aprender e fazer. É uma prática que não te ensinam, vais descobrindo.”

O poder da imagem é do que estamos aqui a falar (não fosse a fotografia isso mesmo). “Quando decido fazer um projecto, ele vai sendo guiado e construído por imagens que são sobre alguma coisa. Os meus trabalhos envolvem paisagem e arquitectura, ou retratos, ou outros elementos que constroem a ideia que quero. Há uma base documental mas há um lado ficcional porque a construção é feita por mim, é a minha forma de me relacionar com a realidade. E neles existe também uma forte relação com a cor.”

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Fruto de sentimentos como a revolta ou admiração, a raiva ou mesmo uma sensação poética, André Cepeda tem no seu currículo vários projectos e exposições, individuais e colectivas, expostas em Portugal e noutros países. É aqui que aconselhamos os leitores interessados a fazerem uma pesquisa ou a estarem atentos no futuro. Assim, confrontados com as imagens que André cria, darão um maior sentido às palavras que estão a ler.

A participação, entre outros artistas, na exposição actualmente patente no Museu da Ciência, com o título Sempre uma coisa a seguir à outra resultou de um convite para expor no Anozero: bienal de arte contemporânea de Coimbra. “Estive aqui a fotografar alguns objectos, embora outras imagens não tenham sido feitas neste local. Todos esses objectos têm uma história específica mas que é descontextualizada. Não estou muito interessado em para que servem, pois o que me interessa é a forma, o lado estético, e depois como me relaciono com isso. É o que mostra a sequência de imagens.”

Tanto nesta exposição como no seu trabalho em geral, gosta “dessa indefinição ao invés de uma classificação. Gosto das coisas que não têm importância, que não pertencem a lado nenhum ou que são esquecidas e a que ninguém dá valor. Quando fazemos uma exposição, a ideia é comunicar, mas não me cabe a mim dar uma orientação. Não gosto de juízos de valor nem de moralismos”, explicou.

Em Sempre uma Coisa a Seguir à Outra podemos ver um conjunto de imagens do fotógrafo que falam sobre algo imaginário e que podem pertencer a um lugar qualquer. “Esta exposição não precisa de um contexto histórico, político ou social para ser compreendida. Nota-se que são objectos que pertencem a este lugar mas que poderiam ser doutro.”

Actualmente a trabalhar com as galerias Cristina Guerra, em Lisboa, e Pedro Oliveira, no Porto, André Cepeda possui ainda o Blues Studio Photography. “O Blues é um espaço de produção. Nasceu para produzir as minhas exposições, mas entretanto outros artistas se juntaram para lá produzirem os seus trabalhos.”

Quase para finalizar a conversa, não resistimos a questioná-lo sobre o cliché de como está o estado da arte da fotografia em Portugal. “Acho que o contexto português é pequeno e não é fácil, mas está muito melhor do que quando comecei. Há mais escolas, mais bolsas, mais locais para expor, mais prémios, mais editoras e livrarias. As coisas estão a crescer, mas levam tempo. É preciso força, dedicação e por vezes alguma sorte. A nova geração de artistas é muito unida e isso é muito importante, porque acaba por abrir caminhos.”

Sem querer nomear os fotógrafos que admira e que o possam inspirar, porque são vários e diferentes, André Cepeda frisou que “prefiro falar na arte contemporânea em geral. A história da humanidade é incrível e há tantos artistas bons que me inspiram, que é impossível isolar a fotografia”.

Apesar disso, conseguimos vitoriosamente saber qual é a maior fonte de inspiração de André Cepeda: “Aquilo que mais me inspira é a luz. É isso que me motiva a sair de casa para fotografar.”