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Texto
Sara Peres

12 Novembro 2015

Os últimos dias têm sido uma daquelas alturas em que por mais filmes que se vejam, livros que se leiam, conversas que se ouçam, a cabeça não consegue fixar bem as ideias. E, além disso, estive doente. Mas, como sou valente, lutei contra o nariz entupido, e, não tendo ideias, com tarefas domésticas para cumprir, fui até à lavandaria cá da rua. Já me interrogara como seria frequentar uma. É uma coisa dos filmes, que povoa o meu imaginário, embora quando pense nela, a imagem que me ocorre instintivamente é de um vídeo de Belle & Sebastian, “The Blues Are Still Blue”. Ah, a lavandaria das comédias românticas onde o rapaz se cruza com a rapariga, se apaixonam, casam e vivem felizes para sempre. Ah, a lavandaria do Stuart Murdoch. Segui de sacola na mão toda afoita, cheia de expectativas.

Muni-me de um livro e sentei-me à espera. Enquanto o tambor da máquina rodava e a roupa lá dentro andava às voltas, eu esperava que se fizesse luz na minha cabeça. Como o movimento da máquina só serviu para provocar tonturas, optei pela leitura. No entanto, dentro do livro, enquanto o bom soldado Sveik, acusado de espionagem, se embebedava na companhia do polícia que o prendera e continuava o seu rol de aventuras, comigo nada se passava.

Ao contrário do que esperava, nada de extraordinário aconteceu (à excepção de as máquinas terem sido bastante rápidas). Nem o Stuart Murdoch entrou lavandaria adentro (coitado, parece que também ele, como eu, anda doente), nem encontrei o homem da minha vida (a não ser que o senhor velhote que lá chegou depois de mim conte). Tudo se processou de forma bastante normal. E o espaço não tem nada de peculiar. Só o facto de ter wi-fi, televisão por cabo e uma máquina gigante que dá moedas se inserirmos notas. E as pessoas que a frequentam são muito mais velhas do que eu.

Que desilusão. Como a realidade é tão mais aborrecida do que a ficção. E a culpa de tudo isto é dos autores. Dos livros, dos filmes, da música, até. Se vivesse nos Estados Unidos ia já processar alguém. A realidade não ultrapassa a ficção, ao contrário do que a maior parte dos filmes nos quer convencer.

E, no entanto, a vida é, de facto, uma coisa extraordinária, que não cansa de surpreender. E será talvez por isso que olhando para os cartazes da maior parte dos filmes que vão estreando lemos a frase – baseado numa história verídica. Se calhar ansiamos todos por uma realidade que seja mais do que a vida. Mas a vida não é como os filmes e situações excepcionais são isso mesmo: excepções. Provavelmente o que custa mesmo é viver o dia-a-dia sem que nada de extraordinário aconteça. Talvez seja aí que encontramos os “heróis” deste tempo, as novas personagens de um livro que nunca será escrito: as pessoas normais. A “common people” de uma canção dos anos 90. O senhor que vai secar a roupa lavada em casa, a mulher que traz quatro sacos cheios para lavar e vem munida de uma revista cor-de-rosa, o moço que traz um maço de fotocópias para ler enquanto espera. Todos aqueles que, ao contrário dos ditos “bem-sucedidos”, aos 30 anos ainda estão sós, não pensam em ter filhos, têm um emprego que lhes consome a alma e que não se podem dar a grandes luxos porque o salário que recebem não permite extravagâncias. Conseguir respirar, acordar dia após dia, sorrir e ansiar por dias futuros sem perder a esperança é que é obra. Mas mais ou menos como dizia o outro: acreditar é preciso.