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Texto
Maria Miguel Ferreira

Fotografia
CM Porto

19 Novembro 2015

Se NÃO me perguntarem o que é o tempo, eu sei. Mas se me perguntarem, de repente: “o que é o tempo?”, então torna-se muito mais difícil de definir. O mesmo se passa com a felicidade.

Quem fala assim não é gago: é o Sousa Dias, um filósofo português que roubou esta citação a Santo Agostinho – outro filósofo que viveu há quase dois mil anos e escreveu uma estucha em 13 livros singelamente chamada Confissões.

Tentar definir conceitos como a amizade, o amor, o tempo ou a felicidade atrapalha muita gente. Ainda há semana e meia atrapalhou pessoas tão bem falantes como o designer Stefan Sagmeister, a ex-actriz pornográfica Sasha Grey, o escritor Pedro Mexia ou o ilustre filósofo Giles Lipovestky. Era vê-los às voltas com as palavras, perante umas centenas de gente sem nada melhor para fazer do que ir ao Porto perguntar-lhes: “O que é a felicidade?” Como Santo Agostinho, mas em menos palavras, me confesso: não só lá fui, como subornei uma criança de dez anos com um cheese burger para me acompanhar neste programa chamado Fórum do Futuro. A alternativa em cima da mesa era irmos ser felizes a ver A Ovelha Choné no cinema. Nietzsche, que achava que ambicionar a felicidade é o grau máximo da carneirice, teria ficado orgulhoso de nós.

Lá fomos. Foi rico. Só tive dúvidas da bondade da escolha quando, no fim, o tal filósofo Sousa Dias nos explicou que todo aquele esforço intelectual numa tarde de sábado foi em vão. Que não se aprende a ser feliz só por ir a conferências sobre o assunto. Que a vida corre solta, num plano que não é racional nem racionalizável. Que nós bem poderíamos estar para ali o dia todo a teorizar conceitos, e depois sair cheios de razão e incorporá-los em planos que achamos mais nobres e infalíveis por serem baseados numa nova e irrefutável lógica, ali aprendida, com gente tão sabida. Mas que a vida se encarrega de fazer planos por nós. E que, por isso até nem ser desinteressante de todo, é da vida (e não de conceitos) que a literatura se ocupa. A boa literatura, pelo menos. Mas já lá vamos, à literatura. Aturem-me só um parágrafo sobre o que têm a dizer os filósofos acerca da felicidade.

Spoiler alert: não existe uma Filosofia da Felicidade. Ou, pelo menos, para a filosofia, o conceito de felicidade é pobre. Porque ao contrário do amor ou da amizade, a felicidade é um conceito autocêntrico, de auto-satisfação, sem movimento externo. A felicidade é um ponto de chegada, um fim. Desfrutar cansa e consome-nos. A felicidade não escreve, não pinta, não compõe música, não faz teatro. É anticriativa. A energia que nos faz criar vem do oposto da fruição. Ou porque é que acham que Fernando Pessoa lhe chamou o Livro do Desassossego?

A literatura é bem mais rica, se quisermos perceber do assunto. Um linguista português chamado Frederico Lourenço disse lá em cima que os Gregos chamavam à felicidade eudaimonia, que significa estar bem com o divino. Depois citou uma catrefada de estudos que dizem que as pessoas são tão mais felizes quanto mais acreditam nas religiões que praticam.

Mas então e quem não é religioso? Não pode ser feliz? Poder, pode… mas quase todas os grandes autores que escreveram sobre a felicidade apontam para uma ideia de felicidade mas ao contrário. Como assim? Então: imaginem a vida como um grande trauma que nos acontece. Antes, temos um período indeterminado em que estamos sob anestesia geral e, às vezes, até pode haver consolo na ideia de que havemos de voltar para esse estado de doping, quando tudo acabar. Mas enquanto cá andamos, não há anestesia geral para ninguém. Na maioria do tempo, é a doer.

Mário de Sá Carneiro, que faz o elogio da infelicidade, diz que o mais que podemos ambicionar é o negativo da felicidade: não sofrer, não estar doentes, não passar fome, não perder o afecto de quem se ama. Pedro Mexia foi buscar o Tio Vânia do Tchekov para reforçar esta teoria: para um homem que vive na Rússia, o que deixa feliz é olhar para o mapa de África que tem na parede. Lá é que faz calor. E não é que ele seja masoquista, mas lembrar-se disso dá-lhe vontade de ir mais além.

Desarticulada mas certeira como um boxeur bêbado, a Matilde Campilho rematou este pinguepongue entre filosofia e literatura com uma espécie de híbrido das duas: a poesia. Há dois segredos para ser feliz, disse ela. Primeiro, saber parar de procurar: o clímax acontece quando acertamos na mosca que está pousada no alvo, no escuro. A metáfora é roubada a John Cage para dizer que não podemos esforçar-nos demasiado. Acertar é, muitas vezes, acidental. O segundo segredo para sermos felizes é o contrário do primeiro: nunca parar de tentar. Que não acertar no alvo não nos impeça de ir simulando a alegria e a felicidade. Porque de tanto ser simulada, ela vai-se tornando próxima e familiar. Porque podemos crescer no fado, mas aprender o samba. Porque a dor, como a morte, vem sempre, e contamina mais do que a alegria, mas não podemos deixar que ela ganhe. Porque a alegria é súbita e rápida e breve, mas continua a ser a melhor arma para atirar contra a dor. E o golpe final da Matilde, que deixou tudo k.o., foi um poema do brasileiro Daniel Francoy (que bem se podia chamar Alberto Caeiro), de que só retive estes três versos:

Se me lembro dos seus olhos e fico triste
não vou ouvir Sinatra e não vou beber conhaque
que isso aumenta a minha tristeza.

Saí de lá e fui ser feliz a comer uma francesinha e não beber um conhaque.

P.S. – Dois dias depois do Fórum do Futuro, morreu um dos seus inventores, Paulo Cunha e Silva, que detinha o pelouro da Cultura na Câmara Municipal do Porto. No encerramento das conferências falou de como precisamos uns dos outros para construirmos uma “feliz-cidade”. Antes de partir, deixou tema para o Fórum do Futuro de 2016: Ligações. É gente assim que me deixa feliz. Obrigada, Paulo, por seres o meu mapa de África na parede.