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O que não falta na internet são vídeos sobre skate e por isso decidimos fazer mais um. O skate em Leiria está bem e recomenda-se. Já esteve melhor, mas não está mal. E continua a receber craques mundiais do tipo Cristiano Ronaldo sobre rodinhas, que passam pela cidade incógnitos, ou quase.

Vídeo: Bruno Carnide
Fotografia: Ricardo Graça
Texto: Cláudio Garcia

É um momento talvez indigesto para a contracultura, porque é cada vez menos do contra e cada vez mais cultura. O skate permanece analógico, mas saiu da sombra. Em comparação com outros estilos de vida ditos radicais, como o surf, é aquele cão de rua de quem toda a gente desconfia. Morde? Não morde? Mas aparece, impõe-se e partilha a luz do dia com o comum dos mortais.

Os gringos estrelas planetárias gostam de parar em Leiria nas viagens entre Lisboa e o Porto. De voar na antiga cerâmica dos Parceiros que um grupo de amigos transformou na feira popular do skate. João Sales começou a construir rampas de madeira quando era um curioso sem idade para conduzir e há quase 10 anos que cria infra-estruturas em cimento. A primeira encomenda para um trabalho pago chegou de Lisboa: o bowl do espaço indoor Fábrica 22. E, logo a seguir, o convite para ser representante da Converse. Ambos a calhar: o emprego no ramo das peças automóveis sumiu e ele teve de se fazer à estrada.

“A minha bandeira é tentar que sejam os skaters a fazer as suas próprias rampas. Porque só assim é que ficam ao nosso gosto e ajustadas às comunidades locais”, afirma. Em Leiria há planos para um novo skate park, mas a tribo continua rebelde e marginal, sempre que possível. O eterno adolescente incompreendido.

“Essa é a essência: sair de casa com o skate na mão e seguir caminho”, diz João Sales.

O coração da coisa continua a bater na Fonte Luminosa, ontem, hoje e amanhã. E o ponto de encontro é a Tribos Urbanas, a loja que Steve Carreira fundou no centro histórico da cidade, vindo do Canadá. Nesse tempo, final dos anos 90, os skaters de corpo todo quase não enchiam um Mini. O que aconteceu a seguir nasceu da raiz, da base.

“No movimento do skate tem sempre de haver alguém a sacrificar-se a tempo inteiro e foi o que eu fiz. Abri a Tribos e comecei a criar a logística”, declara. Nos valores do espírito de união e energia positiva cresceu a fama e a Tribos tornou-se uma referência nacional, ao ponto de gente se mudar para Leiria. Foi pioneira: o primeiro skate park (o Pó, junto ao Aki, mesmo contra o proprietário e respectiva caçadeira), os primeiros patrocínios, os primeiros vídeos, os primeiros tours, as primeiras pranchas de marca própria. E os primeiros campeões: Joca, Miguel Gil, Rogério Venâncio, Nuno Cainço, João Sá, em várias categorias.

Pela Tribos também andava Rúben Pinto, que fundou a Lei Skate School, única escola do género em Leiria. Prioridade: evitar que os alunos sofram tantas lesões quantas as que o professor acumulou ao longo de 25 anos de pé na tábua. Depois, ensinar que o skate “não tem nada a ver com competição”, pelo contrário, “é um estilo de vida” relacionado com a vivência de uma cultura especial, que passa muito pela camaradagem.

“Nunca vi o skate como forma de ganhar dinheiro porque nesse dia o skate perdia a essência que tem para mim”, explica Rúben Pinto. “Influenciou tudo na minha maneira de ser, da música ao vestir.”

As crianças que frequentam a escola aprendem a importância do autocontrolo e quando as quedas se tornam insuportáveis percebem que deslizar sobre quatro rodas, e às vezes cair de cima de quatro rodas, “mexe com a cabeça”. Mas eles próprios são o sinal de que as mentalidades mudam e os skaters já não são os marginais a que só a polícia dava importância, para correr atrás deles.

Quanto aos pioneiros da cena, podem estar mais velhos e mais gordos, mas continuam orgulhosos. “Leiria é um sítio obrigatório, está marcado no mapa. Só isso já valeu o esforço.”