Leiria para Totós #5: Misericórdia mas pouca

Texto de Paula Lagoa | Fotografias de António Gomes

26 Novembro 2015

Leiria para Totós é a informação que faltava, mas provavelmente nunca vais precisar. A cábula para quem julga que Rodrigues Lobo era o vilão da história dos Três Porquinhos. Aqui recorda-se o nome esquecido na placa, o edifício em ruínas, a estátua coberta com lingerie na semana académica. É possível que estes textos venham a ser úteis, se algum dia existir a edição Leiria do Trivial Pursuit. Fora isso, não estamos a ver.

Começou por ser sinagoga judaica, foi convertida em igreja cristã, teve utilidade de celeiro, acabou como casa de velórios. Hoje está classificada como imóvel de interesse público e a ideia é tornar-se um centro interpretativo das três culturas (judaica, muçulmana e cristã) que escreveram a sua história. Bem-vindos à igreja da Misericórdia de Leiria. Não precisam de se benzer porque esta casa foi recentemente dessacralizada pelo Bispo.

Não é de todo a mais bonita das igrejas de Leiria, mas é talvez das que mais curiosidade suscita. De fachada pobrezinha e até mal-amanhada, há muitos anos de porta fechada, deixa no entanto perceber que tem uma dimensão considerável e que há certamente muita história por trás daquelas paredes.

Fica na Rua Miguel Bombarda, também conhecida por Rua da Misericórdia, Rua Nova ou Rua dos Judeus e é aqui que começa a maior das curiosidades daquele lugar. Há mais de 800 anos existiu ali uma sinagoga. Aliás, sabe-se que todo aquele quarteirão envolvente era um arrabalde judaico que se ergueu quando a cidade começou a crescer para fora das muralhas do castelo, algures no séc. XIII.

E ao que parece, a comunidade judaica que aqui habitava, além de uma dimensão considerável, tinha forte importância na cidade, revelada pelas profissões que davam nomes às ruas, pelo que a cidade mereceu até a atenção da Rede de Judiarias de Portugal, onde se refere que “menos de cem anos depois de a cidade ser fundada por D. Afonso Henriques, em 1135, já existem referências à presença de judeus neste centro urbano que se encontrava devidamente muralhado”.

Mas reza a história que os judeus são um povo pouco afortunado e também em Leiria conheceram momentos difíceis, quando em 1496 um carrancudo de nome D. Manuel decidiu que estes deviam ser expulsos de Portugal. Nesta altura, muitos converteram-se nos designados “cristãos novos” e também os seus locais de culto religioso foram convertidos em igrejas cristãs.

É o que se acredita que aconteceu à nossa igreja da Misericórdia, que terá sido construída em cima da sinagoga, mas não de raiz, havendo no local vários elementos que sustentam a tese. Desde uma escada em caracol, parcialmente emparedada, ao pátio no edifício contíguo (ambos elementos arquitectónicos característicos das construções judaicas), andares superiores com galerias para as senhoras estarem na missa separadas dos homens, varandins sem acesso ou qualquer utilidade (acredita-se que tenham sido construídos posteriormente apenas como fonte de iluminação), além da fachada do edifício que mais se parece com uma traseira – este é um elemento dos mais importantes, pois sabe-se que existindo ali uma sinagoga, ela estaria sempre virada para dentro da judiaria, ou seja, a entrada seria o que agora são as traseiras da igreja.

E entre os finais do séc. XV (quando sai o édito que ordena a expulsão dos judeus) e a construção da Misericórdia (por volta de 1545) há que agradecer aos crúzios, do convento de Santa Cruz de Coimbra que deram ao templo religioso a utilidade de celeiro, impedindo a sua provável demolição.

Actualmente é uma igreja fechada que sofre de várias patologias graves, mas com muitos pormenores históricos e arquitectónicos interessantes. Um altar-mor em óptimo estado de conservação, com traços maneiristas e barrocos, à guarda dos quatro evangelistas S. Mateus, S. Lucas, S. João e S. Marcos acompanhados pela rainha Santa Isabel e S. Sebastião cujas estátuas se mantêm por lá.

Foi classificado este ano como imóvel de interesse público e prevê-se que estas e muitas outras curiosidades históricas e arquitectónicas estejam em breve ao dispor dos leirienses, turistas e visitantes. A reabilitação daquele lugar está prevista e a ideia é torná-lo um “centro de diálogo intercultural, interpretativo das culturas que marcaram a sua história, existindo já um projecto de arquitectura concluído” e concurso público aberto para a realização da obra que deverá estar pronta durante o que vem, esclarece a Câmara de Leiria.

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