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Texto e fotografias
Eunice Neves

26 Novembro 2015

The Food Forest é o projecto da Annemarie e do Graham Brookman que já conta com mais de 30 anos e é considerado um dos mais bem-sucedidos exemplos de permacultura do mundo.

Quando decidi fazer este estudo na Austrália escrevi a alguns colegas, malta da permacultura que já tinha andado por estas bandas, a perguntar que projectos me aconselhavam visitar. Eu queria estudar projectos maduros, como muitos anos de existência, que pudessem demonstrar os benefícios do design de permacultura aplicado à terra e à vida das pessoas. O The Food Forest foi um dos projectos que mais me recomendaram e ainda bem!
A Annemarie e o Graham são pessoas fantásticas que acolhem os Woofers como se fossem família. No total passei 8 semanas com eles e se pudesse passaria muitas mais!

Annemarie e Graham Brookman

Annemarie e Graham Brookman

O mundo à porta. Depois de viajarem pelo mundo à procura de bons exemplos de sustentabilidade e auto-suficiência (a tal self-reliance) a Annemarie, holandesa, e o Graham, australiano, resolveram vir para a Austrália para comprar terra e constituir família.

Mal eles sabiam, na altura, que o estilo de vida e as ferramentas que eles procuraram pelo mundo estavam a ser disseminadas na Austrália, com a permacultura. Sim, na realidade, a permacultura é uma disciplina que aglomera informação de várias outras disciplinas, integrando o melhor do conhecimento antigo e do contemporâneo. É um grande mix de boas práticas e bons princípios para que cada um “desenhe” um futuro sustentável.

Ganhar a vida com permacultura. O Graham, formado em Horticultura e a Annemarie em Agronomia, ficaram fascinados com o curso de design de permacultura dinamizado por Bill Mollison, um dos criadores do conceito, conhecido pelo seu carisma e por motivar os estudantes a assumirem a responsabilidade pelas suas próprias vidas e aceitaram o seu desafio; demonstrar como seria possível criar uma família e ganhar a vida de forma sustentável e ética. E 30 anos depois, aqui estão eles: rijos, felizes e com um centro de demonstração de permacultura de renome mundial.

Graham a exibir orgulhosamente os seus super pistachos!

Graham a exibir orgulhosamente os seus superpistácios!

Vida ética no campo não é pêra doce. Como em tudo na vida é preciso darmos o litro para sermos bem-sucedidos. Principalmente se o sucesso andar lado a lado com a ética.

Para Annemarie e Graham, é natural incluir os princípios éticos da permacultura (cuidar da Terra, cuidar das pessoas, reduzir o consumo e partilhar os excedentes) em qualquer decisão diária. “Temos sempre de fazer uma escolha”, diz a Annemarie. “É bom para o planeta? É bom para a comunidade? E em termos de consumo de recursos, compensa?”

Planear antes de plantar. A ética e os princípios de design da permacultura estão enraizados na forma de pensar e agir dos Brookmans – e eu que o diga!

A Annemarie partilha da mesma “obsessão” por design que eu e adora aplicar os princípios da permacultura a tudo o que faz. Porquê? Porque estes princípios, que imitam o funcionamento da Natureza, visam a eficiência energética (minimizar o trabalho e maximizar os resultados) e a resiliência (resistência a perturbações, “crises”).

A horta da Annemarie, com mais ou menos 1 hectare (o tamanho de um campo de futebol), é toda ela um exemplo de design eficiente. Nesta horta, ela produz hortícolas e ervas aromáticas para vender no mercado de quinze em quinze dias, durante todo o ano. Tudo com certificação biológica!

E acham que ela passa os dias todos na horta a cavar? Não, nem pensar! Design eficiente, lembram-se!? Dois dias por semana é o máximo que ela dá à horta para que o trabalho compense o lucro que a horta lhe dá (às sexta-feiras conta com a ajuda de mais duas pessoas para a colheita que leva ao mercado).

E eu posso confirmar que esta é das hortas mais produtivas e saudáveis que já vi! Aqui trabalha-se com a Natureza e não contra ela, produz-se só o que é da época, usa-se composto como fertilizante, atraem-se os predadores naturais das pestes com certas plantas, etc.

No Verão, por exemplo, a Annemarie escolhe deliberadamente não produzir couve por causa da borboleta branca, que é uma peste difícil de controlar. Segundo ela, não vale a pena “lutar contra a Natureza, por isso é melhor produzir outras coisas”. E os clientes do mercado não se importam, porque sabem que os produtos que lhe compram são de óptima qualidade e a sua produção não só é biológica como também é regenerativa. Sim, porque a permacultura não só trabalha com a Natureza como tem o objectivo de ajudar a regenerar os ecossistemas!

Colher alho francês para o mercado

Colher alho-francês para o mercado

Floresta comestível. A área total do projecto são 15 hectares e como diz o nome “The Food Forest” – em português, “a floresta comestível” -, há comida por todo o lado!

O Graham é doido por árvores, e ao longo dos anos plantou centenas delas um pouco por todo o terreno. Mas atenção: nada de plantar à toa! Assim como na horta, todo o espaço da quinta está bem organizado para maximizar a eficiência do trabalho (na manutenção e na colheita) e exponenciar a produção. E, claro, as espécies de árvores também foram escolhidas a dedo, tendo em conta o clima e o valor comercial, e a diferença.

TFF foto aérea legendada

É possível encontrar na propriedade mais de 150 variedades de árvores de fruto e outras plantas comestíveis, tudo com certificado biológico. Os pistácios (os melhores que alguma vez comi!) são o produto principal e um sucesso no mercado. Mas deixem-me que vos diga: o vinho do Graham também não fica nada atrás! Pistácios e vinho então, uau! Longas foram as noites a conversar sobre o mundo e a degustar estes e outros produtos da quinta.

Nozes, pistachos e ao fundo figos secos, tudo biológico e de chorar por mais!

Nozes, pistácios e figos secos, tudo biológico e de chorar por mais!


Vinho biológico do bom. Nem vos digo como escorrega bem!

Vinho biológico do bom. Nem vos digo como escorrega bem!

Orgulho em vender o que é bom! Tive o prazer de ajudar a Annemarie e o Graham várias vezes no mercado. O dia começa muito cedo quando assim é. Às 5 da manhã já estamos a sair em direcção a Adelaide e às 6h30 começamos a montar a banca de forma rápida e eficiente, claro. Dispomos as hortaliças e as frutas, como se de uma montra se tratasse, e esperamos que as portas se abram.

Os clientes do costume correm para as hortaliças, sempre frescas e com muito bom aspecto. Uma das coisas que mais gozo me deu vender foram os brócolos do mês passado. Uau, brócolos “Super Star”! Enormes, muito verdes e com um aspecto delicioso! Não havia ninguém que passasse que não olhasse para eles e na maior parte das vezes parasse para os comprar. Chegaram a perguntar-me se eram mesmo de agricultura biológica, ao que eu respondi muito orgulhosamente que sim e mais… eram de uma quinta de permacultura em que a agricultura além de biológica era regenerativa!

Nesse dia vendemos mais de 130 brócolos, não sobrou nem um! Em geral vende-se sempre a maior parte das hortaliças e das ervas aromáticas, e o que sobra não volta para casa, porque a Annemarie faz questão de partilhar os excedentes com os outros vendedores (a tal terceira ética da permacultura). É o máximo vê-la a trocar hortaliças, frutos secos, limões e até vinho por pão, peixe, queijo e o que mais tiver sobrado nas outras bancas. “Há anos que não compro pão”, diz, orgulhosa. A Annemarie e o Graham põem a permacultura em acção, não só na horta como na comunidade!

Produtos sazonais (foto tirada da primeira vez que estive no mercado, no fim do Verão).

Produtos sazonais (foto tirada da primeira vez que estive no mercado, no fim do Verão).


Brócolos super star! (produtos do final do Inverno/Primavera, da segunda vez que voltei ao projecto)

Brócolos super star! (produtos do final do Inverno/Primavera, da segunda vez que voltei ao projecto)

Um projecto de vida. Falei-vos da parte produtiva da quinta, que é impressionante e é um sucesso, mas o projecto não se fica por aqui. Como dizem os Brookman, o “The Food Forest é um design para a vida” que pretende demonstrar, de forma integrada, como uma família de quatro (eles têm dois filhos já adultos, o Tom e a Nikki, que foram criados na quinta) pode viver em harmonia com a Natureza e satisfazer as suas necessidades sem causar impacto negativo.

Por toda a quinta há exemplos económicos e simples de como o fazer: os edifícios são construídos com fardos de palha e de acordo com o design solar passivo, a electricidade e o aquecimento provêm dos painéis solares da quinta, o fogão a lenha é alimentado com madeira produzida na quinta, as águas cinzentas (de lavar as mãos, loiça e roupa) são tratadas e purificadas com plantas macrófilas e irrigam o pomar, etc.

Os dormitórios, onde fiquei são em fardos de palha. Posso garantir mais uma vez que a história dos três porquinhos está muito mal contada!

Os dormitórios, onde fiquei, são em fardos de palha. Posso garantir mais uma vez que a história dos três porquinhos está muito mal contada!

Demonstrar e ensinar. Por tudo isto e ainda mais, o projecto é visitado por escolas, empresas e centenas pessoas durante todo o ano. Além disso, recebe vários cursos de permacultura, incluindo um PDC anual com David Holmgren (o outro criador do conceito). A educação acabou por se tornar uma grande fonte de rendimento para a família, o que lhes permite ser mais resilientes em relação às receitas da quinta.

Annemarie a explicar a horta num curso de iniciação à permacultura.

Annemarie a explicar a horta num curso de iniciação à permacultura.

Na verdade, a quinta vive de uma variedade grande de produtos e de pequenos negócios e por isso se o ano é mau para os pistácios, não há grande crise porque ainda há os figos, as romãs, as hortaliças, os cursos de permacultura, os outros frutos secos e muito mais!

Annemarie e Anna, voluntária na quinta, a embalar e rotular pistachos. Tudo se faz na quinta: produção, colheita, desidratação, embalagem e rotulagem – isto sim é um ciclo fechado que valoriza mais o produto e recompensa o produtor!

Annemarie e Anna, voluntária na quinta, a embalar e rotular pistácios. Tudo se faz na quinta: produção, colheita, desidratação, embalagem e rotulagem – isto, sim, é um ciclo fechado que valoriza mais o produto e recompensa o produtor!

Exemplo de ética e a eficiência. E para quem acha que não é possível alimentar a população de forma sustentável e tirar bom rendimento disso, aqui está o exemplo de como é possível! A diversidade, a ética e a eficiência energética da permacultura tornam este projecto um sucesso. Obrigada, Annemarie e Graham, por darem o exemplo.

Vocês são uns verdadeiros heróis!