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Texto
Sara Peres

3 Dezembro 2015

Não sou especialista em arte, mas sem saber porquê, desde há muito que a pintura me fascina. Não sei pintar, só rabiscar, mas uma visita a um museu de arte faz parte da minha receita para ser feliz.

Este interesse é tão grande que me levou a escolher Florença para fazer Erasmus e a participar numa das road trips mais épicas da minha vida, até ao Museu Guggenheim de Bilbau. Com o passar dos anos fui aprendendo algumas coisas e os gostos foram-se transformando. Por isso, hoje em dia evito as “Madonnas com o Menino” e não sou pessoa que se tenha indignado com a possível saída dos Mirós de Portugal. Permaneço, contudo, apenas uma admiradora. Alguém que gosta de ficar uns minutos sentada a admirar um quadro, e quando pode vai ao Museu Nacional de Arte Antiga visitar o Bosch.

Ainda assim, consigo perceber quando estou perante um artista excepcional. Há dias fui ver a exposição temporária dos Grandes Mestres da Pintura Espanhola e, entre as obras seleccionadas encontram-se dois quadros de El Greco. Não conheço bem a obra do pintor, sei apenas que de facto era grego (durante uns anos pensei que fosse espanhol) e acho que nunca tinha visto antes um quadro dele. Colocado em contexto, com artistas espanhóis do mesmo período, é impossível não perceber o quão extraordinários são os quadros: as cores são vivas, as personagens têm rostos extremamente expressivos… nada que ver com os outros pintores seus contemporâneos.

De todos os livros que li até hoje e de que me consigo lembrar, a verdade é que são poucos os que me deixaram completamente desapontada. De umas centenas, contam-se pelos dedos os que me deram vontade de os atirar pela janela (o que não faria, porque não acredito em maltratar livros). Já cheguei a pensar se seria uma leitora que se contenta com o simples acto de ler e não tem padrões de qualidade muito elevados, mas passando os títulos lidos em revista, a verdade é que tenho, de facto, bons critérios e tendo a escolher o que vou percebendo que deve ser bom. Vou tentando escolher aqueles que são tidos como excepcionais, como obras dos “grandes mestres da literatura”. E ao lê-los, consegue perceber-se porque são tidos como excepcionais. Sim, O Estrangeiro pode não ser o livro da vida de muita gente, mas é inegável que se trata de um livro extraordinário. E que Camus era um bom autor. O mesmo sucede com Borges, Kafka e até Hrabal (de quem gosto tanto que tenho sempre de encontrar forma de o incluir). Pode-se gostar mais ou menos da ideia de acordar um dia transformado em escaravelho gigante, mas a verdade é que se não fosse uma obra de qualidade, hoje não haveria sequer o adjectivo “kafkiano”.

Já disse algures, uma vez, que não sou amiga da poesia e que não tomo chá com ela. Mas recordo-me da primeira vez que li poesia de Wislawa Szymborska e como teve impacto em mim. Compreendi que era outra coisa, algo bem diferente do que estava habituada a ler, mas que era algo bom. Acho que é isso que distingue uma boa obra de um trabalho medíocre. E é por isso que as boas obras perduram no tempo: porque se até alguém pateta como eu consegue perceber, é porque, de facto, a qualidade é uma característica que lhe é intrínseca e que não consegue deixar ninguém indiferente. Seja um admirador de arte, um leitor inexperiente ou mesmo o tipo da esquina.