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Entrevista
Pedro Miguel

Fotografias
Rui Canto

3 Dezembro 2015

Banda histórica do rock nacional, os Peste & Sida lançaram recentemente, pela editora leiriense Rastilho Records, uma caixa de três CD, que contém os três primeiros discos, Veneno (1987), Portem-se Bem (1989) e É que É (1990), havendo também uma edição cuidada em vinil. A Preguiça falou com João San Payo, membro fundador do grupo.

Preguiça Magazine (PM) – Num contexto de balanço de vida e obra, curiosamente, as origens dos Peste & Sida, pelo menos as tuas e as do João Pedro Almendra, não estão na classe operária. Qual é a tua história, João San Payo? Qual foi o teu alerta geral para começares a cantar e a escrever?

João San Payo (JSP) – Somos oriundos da média burguesia urbana e intelectualizada, a geração seguinte à malta do Maio de 68. Dos nossos pais veio muita informação relacionada com o descontentamento e a revolta contra os poderes instituídos nessa época e em Portugal, muito particularmente, contra o regime ditatorial que se vivia. Também nos marcou muito termos vivido e presenciado na nossa infância, a Revolução de Abril em 74 e a autêntica mudança de paradigma que com ela se deu quando começamos a viver numa sociedade onde passa a haver liberdade de expressão depois de quase meio século de absoluto obscurantismo.

Foi uma época em que, de um modo geral, a população era participativa, tinha uma vontade ávida em se envolver nos assuntos e problemas da sociedade, muito ao contrário deste triste laxismo e desinteresse que actualmente se instalou e que infelizmente só tem beneficiado os falsos messias, que aproveitando e manipulando as populações se têm instalado à conta dos carreirismos políticos, acabando por descredibilizar este novo sistema democrático que com tanta luta e sacrifício de alguns (muitos) portugueses conquistámos para todos.

Penso que esta herança e estes momentos vividos foram determinantes para começarmos a tocar e a formar bandas de liceu na nossa adolescência e obviamente começámos a seguir os modelos das bandas que gostávamos de ouvir – no nosso caso, as bandas de punk e new wave dos finais de 70.

PM – Ainda hoje muitas das letras escritas nos anos 80 e 90 fazem sentido. Foi essa uma entre muitas outras razões porque nunca quiseste deixar cair os Peste & Sida?

JSP – Peste & Sida nasce espontaneamente. Na altura queríamos apenas tocar e curtir, não delineávamos objectivos a atingir nem sequer tínhamos maturidade para pensar em cumprir qualquer espécie de objectivos como hoje em dia acontece com os tão falados jovens empreendedores. Nem imaginámos que mesmo profissionalmente estávamos a iniciar uma carreira. Só muito mais tarde é que acabámos por nos aperceber disso e essa profissionalização aconteceu naturalmente para uns e para outros não.

Esta espontaneidade também está sempre presente na maneira descomprometida como escrevemos e compomos em Peste & Sida desde o primeiro dia até hoje. Penso mesmo que é a imagem de marca do som e das letras tão personalizadas desta banda e penso que é por essa razão que continuamos a ter um público fiel e que nos continua a seguir ao longo destes quase 30 anos a rockar porque se continua a identificar com o que somos e com a maneira como fazemos a nossa música.

Acima de tudo, é por estes seguidores que Peste & Sida tem continuidade e são eles que merecem que não queiramos ser uma banda mainstream porque para isso teríamos de ceder às premissas exigidas pela indústria musical e deixar de fazer música à nossa maneira, descomprometidamente. É por eles porque são eles que dão longevidade aos Peste & Sida, e isso vale muito mais que o sucesso mediático e tão imediato como efémero, fabricado pelas grandes estruturas promocionais de editoras endinheiradas a operar nos mercados nacional e internacional e que actualmente desenvolvem uma política de manipulação de hábitos de consumo em detrimento da promoção e divulgação cultural, espelho do capitalismo selvagem para o qual evoluímos, onde o que interessa é apenas a facturação. E ao falar disto aqui, já dou um lamiré para a razão de muitas letras continuarem actuais. Infelizmente, os temas sociais que abordamos perpetuam-se e alguns até se agudizaram nestes anos em que evoluímos para o tipo de sociedade que nos estão a querer impor como única solução viável.

PM – As incursões pelo ska ou as influências da música mais popular permitiram alargar o leque dos assuntos a abordar na escrita?

JSP – O ecletismo é sempre saudável e bem-vindo. Foi um trunfo bem apostado logo de início. Explorar ritmos variados levou-nos a outras formas de cantar e de tocar. Se assim não fosse, acho que tínhamos acabado por ficar fechados no baú ou arrumados numa qualquer prateleira a ganhar pó.

PM – Mas nem tudo é contestação. Os Peste & Sida sempre se pautaram por saber fazer a festa…

JSP – Sem dúvida, contestar por contestar e esquecer-nos de celebrar a vida seria uma seca. Contestar faz sentido quando tem por objectivo melhorar as nossas vidas para depois termos ainda mais razões para as celebrar!

PM – A editora leiriense Rastilho Records reeditou recentemente os primeiros três discos de Peste & Sida. Como foi o processo?

JSP – Trabalhoso, pensamos nós, pergunta ao Pedro Vindeirinho. Da nossa parte muito lhe agradecemos a carolice, o esforço e a dedicação que tem imprimido em prol da divulgação da pop-rock nacional. No caso dos Peste & Sida temos de lhe tirar o chapéu por terem conseguido libertar da Universal esta parte significativa da nossa obra, algo que nós, mesmo como autores, não conseguimos com sucesso ao fim de muitos anos e de inúmeras reuniões com variadíssimos “á-érres”.

PM – Não seja por isso. A Preguiça contactou o senhor da Rastilho e ele respondeu: ó Pedro Vindeirinho, como foi o processo?

Pedro Vindeirinho – O processo foi relativamente simples a partir do momento em que me debrucei sobre ele. Simples na questão do licenciamento (fruto da nossa boa relação com a Universal), complicado na questão dos masters e artwork. A esse nível destaco a intervenção do João Diogo, que fez um trabalho notável com o material que tínhamos à nossa disposição. De resto, foi um grande prazer e orgulho mergulhar nestes arquivos históricos do rock português e voltar a disponibilizar no mercado estes grandes clássicos do rock nacional.

E agora três momentos cliché:

PM – Tocam no próximo fim-de-semana cá em Leiria, no Beat Club. Que mensagem podes deixar à fauna rockeira da zona centro?

JSP – Que apareçam para se certificarem de que velhos são os trapos! Peste & Sida é para rockar e quando sobe ao palco é para partir a loiça toda. Sempre foi e continuará a ser!

PM – Planos para o futuro? Novas músicas, novo disco para quando?

JSP – Sem planeamento. Vamos continuar a compor de forma descomprometida e sem prazos que nos obriguem a ter uma cagada feita à pressa para passar nas rádios. Quando acharmos que temos músicas novas com o selo de qualidade Peste & Sida a que vos habituámos vocês hão-de ter notícias.
Gostaríamos de concretizar a edição de um registo ao vivo porque a energia dos Peste & Sida é essencialmente de uma banda pop-rock com muita interacção live. Em 2016 faremos 30 anos e acabaram de sair estas reedições: as condições parecem favoráveis para avançar com esta ideia que está em ebulição há uns anos.

PM – Um desafio para ti e para os teus companheiros de estrada: o que é que andam a ouvir?

JSP – Ui, não vás por aí!!! Queres mesmo saber? É para te certificares daquela resposta do ecletismo? Ok, então cá vai – Eu, João San Payo tenho em casa uma playlist semanal com entradas e saídas diárias: Por razões profissionais entraram directamente os 5 CD dos Ena Pá 2000 porque o Manuel Duarte me pediu para o substituir num gig e com aquela malta nunca se sabe o que é que se vai realmente acabar por tocar. Para desenjoar e variar vou alternando com o último disco dos Irmãos Catita, o Portugal dos Pequenitos, acabadinho de chegar aos escaparates. Tenho recordado toda a discografia da Brigada Victor Jara, depois de assistir ao excelente espectáculo comemorativo dos seus 40 anos no S. Luiz, aqui em Lisboa. De pop-rock nacional e tradicional portuguesa tem sido um fartote. A selecção de jazz também foi muito condicionada desde que faço parte dos Miss Manouche: entrou para o top Louis Jordan, Django Reinhardt, Les Doights de l’Homme, Gene Krupa, Benny Goodman… tudo muito swingy. E na rockalhada reentraram os Eagles of Death Metal, por força dos trágicos e infelizes acontecimentos de Paris, a par dos Prodigy, que entram e saem da playlist desde o Verão.

O Sandro tem ouvido Seasick Steve e Tom Waits e Nine Inch Nails. O João Alves, igual a si mesmo, tem andado numa de Pink Floyd e Beach Boys e o Barriga não ouve, só faz, diz que não tem tempo para tudo, ao que eu lhe respondo que não tem é tempo para nada! E ainda aproveito para me chibar: o Pedro Vindeirinho da Rastilho, tem ouvido os novos dos Graveyard e do Danko Jones e o Johnie Simbiose, nosso road manager, está proibido de ouvir Napalm Death na carrinha!

Um abraço do João San Payo e restante família Peste & Sida. Muito obrigado!