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Texto
Pedro Miguel

Vídeo e fotografia de capa
Bruno Carnide

10 Dezembro 2015

No início da década de 1960, Leiria era diferente do que é hoje. Não havia variante rodoviária e a estrada nacional Porto/Lisboa passava bem pelo centro da cidade, ali ao pé de onde hoje é a Fonte das Três Bicas.

Ao iniciar a subida ao lado da fonte, abriu uma oficina que ainda hoje se mantém. O jovem, então com 20 anos, Armando Costa, que na altura até teve de se ausentar por dois anos para ir combater no Ultramar, e o seu sócio Florindo Simões, começaram essa profissão nobre de encadernar livros.

Na altura encadernavam-se muito mais livros do que propriamente se recuperavam, como acontece nos dias de hoje. “Mais tarde, uns 10 anos depois, é que começaram a aparecer uns senhores que compravam bibliotecas, e começaram a querer recuperar os livros para os vender”, recorda Armando Costa.

Florindo Simões, mais velho do que o seu sócio, já trazia a arte de dourar capas, vinda da experiência da tipografia Mendes Barata, e também passou esse ensinamento a Armando, mas como na altura tinham muito trabalho, acabaram por dividir tarefas, sendo que Armando se dedicou mais a encadernar e Florindo aos acabamentos na capa.

Passaram épocas de muito trabalho, facturaram em conformidade, entre médicos que queriam encadernar o currículo e antiquários que queriam recuperar obras. Mas o filão dourado foi mesmo a encadernação de Diários da República, por parte de diversas repartições, escolas, advogados ou ofícios de autarquias. Depois, com a informatização dos serviços, deixou de ser preciso.

O gosto pelos livros fazia-se sentir mais nessa época do antigamente, sendo que a oficina chegou a receber livros novos vindos directamente da papelaria para serem encadernados, tal era o gosto dos seus donos em ter uma boa apresentação, com uma lombada a condizer.

Hoje os hábitos também são diferentes porque, explica Armando Costa, “dantes a encadernação era muito mais barata e hoje é muito mais cara. Hoje paga-se mais por uma encadernação do que se paga por um livro. E isto para quem ainda compra livros, porque hoje eles estão todos na internet”, conclui.

Este é um trabalho artesanal, minucioso, de corte, colagem, coser à linha, entre outras virtudes, como se pode ver no vídeo que acompanha este artigo. E isso é algo que se está a perder nos dias de hoje, numa sociedade cada vez mais pré-fabricada, industrializada, mecanizada e automática. Daí a dificuldade em deixar um legado. No passado, já por lá passaram algumas pessoas com vontade de aprender o ofício, mas não se demoram muito.

Serve o consolo, mas sobretudo o orgulho, da obra feita que marcou decididamente uma época e que literalmente atravessou gerações. Para o provar ficou o episódio de um senhor que, quando era criança, encadernou ali os livros da escola, e trinta anos depois trouxe um livro do filho para encadernar também.