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Texto
Cláudio Garcia

Fotografias
Ricardo Graça

10 Dezembro 2015

São tantos os livros sobre o assunto nos tops de vendas que quase nem justifica explicar que, em português, mindfulness se diz atenção plena. A novidade é que o foco no momento e na experiência está a ajudar crianças da Marinha Grande a melhorar resultados escolares.

Sim, o aqui e agora. Já os Beatles procuravam na Índia uma nova forma de estar e é mais ou menos nessa época que o budismo começa a influenciar as terapias ocidentais na área da psicologia. Em especial, a capacidade de tomar as rédeas do que acontece no cérebro.

Dito a correr, o que é a negação do conceito, o mindfulness que hoje enche as prateleiras das livrarias não visa mais do que acalmar a mente e reduzir o stress, ou seja, o que prometemos todos os anos a nós mesmos e raramente cumprimos.

Entretanto, quase sem se dar por isso, o Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente está a desbravar caminho neste território, ao levar as terapias de terceira geração, e em particular o mindfulness, para a sala de aula. Parecendo que não, o projecto MindUp já envolve 28 turmas e 36 professores – e, mais importante, 530 crianças do primeiro ao quarto ano de escolaridade, o equivalente a um terço de todo o primeiro ciclo no concelho.

A prática central do programa diz logo ao que vem: os alunos são convidados a permanecerem em silêncio e concentrados apenas no movimento da respiração, cerca de 60 segundos. Todos eles sentados, a maioria de olhos fechados. E porquê? Simples: é o atalho mais rápido para acalmar o corrupio de pensamentos, e às vezes disparates, que nos enchem a cabeça sem piedade. O ritual repete-se três vezes ao longo do dia, de manhã, depois do almoço e antes do regresso a casa, após um sinal sonoro inicial, tocado pelo facilitador, que é semelhante ao que esperamos ouvir num grupo de ioga.

Mindfullness_4

 

Integrado naquela zona do currículo que nem sempre se percebe para que existe, e que não por acaso tem o nome de Oferta Complementar, o MindUp contempla 15 sessões. Todas começam com informação científica sobre o funcionamento do cérebro, seguindo-se exemplos concretos. Surpresa, ou nem tanto, a postura dos alunos é de grande interesse nas actividades, garantem os orientadores.

Há quatro domínios de intervenção durante o semestre: neurociência, autoconsciência, controlo emocional e acção social, que são palavras mais caras para dizer ouvir, observar, cheirar, saborear, escolher o optimismo, desfrutar das experiências positivas, agir com gratidão e fomentar a bondade, entre outros aspectos.

O despertar da curiosidade dos mais novos é apenas um dos efeitos benéficos sinalizado pela classe docente. Segundo Fernando Emídio, coordenador do projecto, o objectivo é que, “em determinados estados emocionais ou mentais, eles percebam o que está a acontecer no seu cérebro, fiquem atentos a determinadas sensações que ocorrem no corpo e utilizem ferramentas que lhes possam permitir lidar com a situação de forma mais eficaz”.

Tal como o mindfulness, os exercícios e conversas que acontecem no âmbito do programa MindUp pretendem despertar a consciência emocional e a capacidade de viver no presente. Trocado por miúdos, significa ajudar a lidar com ansiedades, medos, conflitos, frustrações, mas também apoiar o entusiasmo na aprendizagem e cultivar traços como a empatia, a compaixão, a paciência e a generosidade.

São os próprios professores a reconhecer os impactos na sala de aula, nas várias disciplinas. Mais concentração, menos agitação, melhor comportamento. E segundo Fernando Emídio, diversos estudos confirmam esta percepção.

New age ou não, pouco importa, e se os Beatles vieram zangados da Índia, problema deles. Na Marinha Grande, os resultados estão à vista.