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Texto
Cláudio Garcia

Fotografia
Ricardo Graça

17 Dezembro 2015

Lampiões, este texto está a ser escrito em Maio de 2016, depois de o Sporting limpar o campeonato e juntar a Liga Europa à vitória na Supertaça. Reparem que o recurso ao mimo lampiões visa informar que se trata de um artigo parcial no sentido mais tresloucado da palavra, ou seja, romântico, excessivo e teimoso que nem um cacho de uvas bêbedas. Não tentem contrariar-nos. Em Maio de 2016, eu, o Mário e outros milhões de sportinguistas, menos de 14 milhões, por certo, mas ainda assim milhões, estamos a viver nas ruas com tanta celebração. O vosso Jorge Jesus é o nosso novo messias, o Bryan Ruiz é o nosso novo Pedro Barbosa e o Sporting, o Sporting é nosso outra vez, como no hino da Maria José Valério e nos melhores sonhos de Bruno de Carvalho.

Ou então não. Maio de 2016 pode ser outra coisa qualquer, pode ser a derrota e a frustração, pode ser o minuto 92 agora listado de verde e branco, mas continua a interessar a todos, lampiões e lagartos, porque para um leão a fidelidade não se alimenta apenas das vitórias e ser sportinguista acaba onde o Benfica começa, ou vice-versa, conforme lembra o Diego Armés no prefácio de A Ganhar ou a Perder – Um Ano de Sporting. 30 crónicas da autoria de Mário Lopes sobre 30 jogos da época 2014/15, que culminou com a festa da Taça. E porque ser sportinguista também é aprender a conviver com a fatalidade: o golo milagre de Miguel Garcia na Holanda antes da final europeia perdida em casa, o remake da humilhação na Áustria em duas temporadas consecutivas, o duche frio do Jardel no último minuto do derby, depois de o Jefferson lançar a corrida ao título, o 3-4 de Braga meses depois dos penáltis no Jamor. A ganhar ou a perder, sempre Sporting.

Mário Lopes socorre-se de Nanni Moretti para resumir assim o livro que escreveu: uma tentativa para dizer alguma coisa de esquerda sobre futebol – e sobre o Sporting. Já lá vamos. Para já, queremos saber se um jornalista do Público, que faz carreira a escrever sobre cultura e integra a equipa do Ípsilon, consegue sobreviver ao preconceito Pacheco Pereira quando finalmente passa ao papel a paixão que vem do tempo do Mário Jorge, do Jordão, do Manuel Fernandes e do inesquecível Malcolm Allison. Consegue, se explicar que o Zidane era o Pedro Barbosa francês e que nenhum outro jogador, além de Barbosa, chegou tão perto de George Best e dos Beatles. Isto é o Mário que diz, mas estamos de acordo.

Futebol de esquerda é amar a roulotte e a imperial, renegar o clube empresa e nunca trocar um adepto por um cliente, odiar a elitista Liga dos Campeões, abraçar o romantismo trágico que envolve o Sporting, mergulhar na história para recuperar ídolos esquecidos, avançar no tempo para esquecer os traidores, é compreender que a essência do desporto-rei está no povo que o idolatra, é apostar tudo na ligação afectiva a um emblema e viver com a certeza que o futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais importante do que isso. Ou afirmar, com a seriedade de um filósofo, que as camisolas verdes e brancas são as mais bonitas no planeta, o que o calção preto só confirma.

“São os clubes que nos escolhem”

Mário, há um preconceito Pacheco Pereira em relação ao futebol?
Então não há? E mesmo quem diz que gosta de futebol normalmente utiliza a desculpa de que é um momento de alienação, que não é assim tão importante. Uma das coisas que me fez aceitar o convite do Rahul [Kumar] e da Paquiderme tem a ver com a identidade que eles pretendem dar à editora, que é precisamente a de dar uma certa dignidade à vivência do futebol e à explicação do futebol. E o primeiro livro que editaram, o do Bella Guttman, já representa isso mesmo. É um livro sobre a história de um treinador de futebol, mas ao mesmo tempo sobre um percurso de vida que atravessa as grandes convulsões do século XX. O que eu tento é contribuir para essa vontade de mostrar que o futebol pode ter um tratamento diferente. Ver pequenos pormenores. Por exemplo, uma das histórias que escrevi foi sobre um momento absolutamente deslumbrante no jogo com o Nacional na Madeira, em que o Sporting estava a ganhar por 1 a 0, e os últimos cinco minutos são o André Carrillo junto à linha lateral a impedir que os outros jogadores toquem na bola.

Também falas no Moutinho, no Quaresma e no Simão?
Falo no Quaresma. O Moutinho não o refiro pelo nome, chamo-lhe o inominável, aquilo que fez foi demasiado horrível. Na altura, o Sporting era dirigido pela suposta elite financeira, que pertence à mesma elite que levou o país pelos caminhos em que estamos actualmente.

No futebol a traição é imperdoável?
Sim, claro. Não me interessa saber o dinheiro que ganham e o profissionalismo e essas tretas todas. Ganham bem demais para não terem de descer a coisas desse nível. Portanto, o Moutinho, nunca lhe irei perdoar aquilo que fez. Até me custa dizer o nome dele. Nós enquanto adeptos é-nos fácil pensar desta maneira, mas para os jogadores também devia ser. Não percebo que alguém que ganha o dinheiro que ganha traia aquilo que é a essência do futebol: esta empatia com os clubes. Vender o capitão a um rival é inconcebível.

O que é que passa pela cabeça de uma administração que promove semelhante acto?
Nos anos Roquette, o Sporting foi dirigido por pessoas que tinham uma ideia para o clube, é verdade, mas era uma ideia deslumbrada naquilo que achavam que tinha de ser o futuro do futebol. E infelizmente dessa visão não fazia parte aquilo que é essencial num clube, que são as pessoas que o apoiam, os sócios. E por isso cometeram milhões de erros. Foi uma espécie de decadência moral.

Na tua relação com a bola há sempre ilusão e esperança?
Sim, sim, sim. É definidor do próprio sportinguismo e eu levo isso ao extremo. Quando perdemos o famoso jogo dos 6-3, com o Benfica, faltavam cinco minutos e o Sporting envia uma bola à barra. Eu até hoje acredito que se aquela bola tivesse entrado nós dávamos a volta.

Arrumas a tua agenda em função do horários dos jogos. Dá-te muito trabalho explicar isso às pessoas que te rodeiam?
O futebol é a coisa mais importante das coisas menos importante. Se nós gostamos de futebol e se gostamos de um clube, não faz grande sentido não estarmos lá. Lembro-me sempre de ler uma entrevista com o Pedro Burmester em que ele dizia que organizava a sua vida de forma a ver os jogos todos do Porto, mesmo a marcação de concertos. Portanto, se o Pedro Burmester consegue, e as pessoas que estão à volta dele, então meros adeptos como nós também conseguem.

E as derrotas do Benfica, dão-te alegria?
Dão, claro, como as do Sporting aos benfiquistas. É a rivalidade mais bonita do futebol português. Mas não é ser antibenfiquista, é aquela famosa frase: pior do que inimigos são irmãos.

Achas que houve algum aspecto da tua personalidade construído na base de seres sportinguista?
Tenho a certeza. Para já, eu acho que são os clubes que nos escolhem. Sou um optimista incorrigível, esse traço está bem enquadrado com aquilo que é o Sporting, tenho uma certa tendência para olhar as coisas com um romantismo por vezes delirante, também se enquadra bem no Sporting, e acho que as riscas verdes e brancas são a melhor combinação estética.

Calção sempre preto?
Sempre. Aliás, este ano quando fomos jogar à Luz foi a primeira vez que usámos calção preto e não foi por acaso, ganhámos 3 a 0.

Já percebi que não tens problemas com o Bruno de Carvalho. É o novo João Rocha, o novo Vale e Azevedo ou é o nosso Pinto da Costa?
É o novo Bruno de Carvalho. Já tivemos os nossos Vale e Azevedo, foram os dois últimos presidentes do Sporting. Tenho algumas reticências na forma como apresenta as coisas, mas em termos de conteúdo estou-lhe infinitamente agradecido por ter devolvido o Sporting à sua condição de clube popular, dos sócios e para os sócios.

E nesta fase, trocavas o JJ pelo Marco Silva?
Não. Agradeço ao Marco Silva a taça que ganhámos, foi um campeonato porreiro, divertido, a equipa jogou bem a espaços, mas acolher um sportinguista de novo em sua casa, sendo um dos melhores treinadores portugueses, não dá para trocar.