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Texto
Sara Peres

16 Janeiro 2016

“Como se volta a 2015?”, foi a primeira pergunta que fiz a mim mesma nas primeiras horas de 2016. Como se me tivesse transformado num Bartleby real, eu preferia não mudar de ano e pensava numa forma de impedir a mudança.

A ideia de que a mudança é uma coisa intrinsecamente positiva é sobrevalorizada. Provavelmente porque a mudança é um dos conceitos que poderia ser usado para definir o tempo em que vivemos. Creio que não exagero se disser que nunca como agora houve tantas mudanças em tão breves espaços de tempo.

Se os tempos fossem outros, um século diferente e anterior a este, podia viver toda a vida na minha aldeia onde nascera sem ter conhecido muito mais localidades do que aquelas que se encontravam a alguns quilómetros de distância. Tomaria conta do negócio da família – se fosse homem – após a morte do meu pai e daria continuidade ao seu ofício até ao dia em que também eu me finasse e o meu filho tomasse conta da oficina. Talvez a vida se agitasse em torno de disputas entre vizinhos ou algum cliente caloteiro, ou fosse simplesmente abalada por acontecimentos políticos de carácter nacional. A minha vida seria curta, mas provavelmente pouco se alteraria durante esse período.

Hoje, tenho trinta anos, caminho em direcção aos trinta mais um, nasci numa pequena vila, morei numa pequena aldeia, e já mudei de casa pelo menos umas sete vezes. De localidade e trabalho, umas cinco cada.

Já visitei mais de uma dezena de países e cidades diferentes em quatro continentes. Livros lidos são umas centenas. Filmes vistos, talvez uns cem. Ou mais. Músicas escutadas, foram milhares, certamente. Tenho uns 300 “amigos” no Facebook, tudo pessoas com quem já me cruzei pelo menos uma vez ao longo da vida. E todas as pessoas que já conheci não estão lá. A esperança média de vida de uma pessoa do sexo feminino, em Portugal, é de 83 anos. E ainda me faltam 50 anos até lá chegar, por isso, nem quero imaginar o que pode acontecer nesse espaço de tempo.

Gostava que nessas décadas que me esperam (espero eu) pudesse ler os livros que já tenho na estante e os outros tantos mais que hei-de comprar. Queria muito ir à Islândia conhecer a pátría de Haldór Laxness, Sjón e Björk, ver os pequenos membros da minha família crescer e tornarem-se adultos, enquanto os mais crescidos envelhecem tranquilamente. É o que me ocorre imediatamente. No entanto, o que eu mais queria agora era não mudar. Contestar a velocidade com que somos arrastados no turbilhão das mudanças constantes a que somos sujeitos ou para as quais somos impelidos. Queria ficar em 2015, impedir a passagem do tempo até que o meu protesto fosse ouvido e me fosse concedido tempo para digerir as mudanças. Mas tal como as vacinas, que sempre detestei, talvez seja melhor que aconteçam rápido e sem que percebamos. Para que seja mais fácil continuar em frente, em direcção aos meus futuros 83 anos. Como já dizia a canção, “Changes are taking the pace/ I’m going through”. (E sim, o Bowie era o maior.)