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Texto e fotografias
Eunice Neves

19 Janeiro 2016

A Kat e o Nik são um casal jovem decidido a viver de forma sustentável numa das maiores cidades do mundo, a cidade de Melbourne na Austrália.

O projecto deles, “The Plummery”, é um óptimo exemplo de permacultura para quem vive na cidade e tem pouco espaço. Eles estão a criar um supermercado biológico ao ar livre, um pequeno oásis de frutas, saladas, cogumelos, hortaliças, ervas aromáticas e medicinais… e muito mais!

Sim, não há desculpas, o tamanho e o local não são impedimento quando a vontade é grande! E haverá maior luxo do que abrir a porta, dar dois passos e ir apanhar o jantar?

Redesenhar a vida na cidade
A Kat formou-se em Ciências Ambientais e o Nik em Artes Plásticas. Mais tarde um e outro fizeram um Curso de Design de Permacultura (PDC) e descobriram que era possível redesenhar a vida na cidade: assumir as suas necessidades básicas (água, abrigo, comida, energia…), reduzir a pegada ecológica e viver com abundância.

Quem sonha sempre alcança
Quando adquiriram a propriedade em 2009, a casa estava a cair aos bocados e o jardim tinha um ar triste e infértil. Mas eles não se deixaram intimidar e começaram a sonhar e a pôr os sonhos no papel.
Aqui a “visão” que definiram para o projecto antes mesmo de começarem:
“The Plummery é um exemplo de design de permacultura urbana à pequena escala (280m2) que produz grande parte da salada, ervas aromáticas, legumes, cogumelos, ovos, mel, fruta, água e electricidade consumidos por nós e recicla todo o lixo orgânico produzido domesticamente. A casa, reabilitada e readaptada com recurso a tecnologias simples e baratas, usa 1.5Kw/hora e 40 litros de água por pessoa por dia”.
Definiram ainda que queriam criar um design eficiente que fosse compatível com o estilo de vida citadino e com o trabalho de cada um deles.

Mãos à obra
Com um orçamento pequeno, mas muito motivados com o que tinham sonhado e planeado a Kat e o Nik lançaram-se à pá e ao martelo. A implementação tem acontecido por fases, consoante há tempo e recursos, e vai contado a ajuda de muitos amigos, família e voluntários.
Como em qualquer projecto, nem sempre o que se planeou resulta, mas para a Kat e o Nik a motivação leva melhor!

Remodelar casas antigas em vez de construir casas novas
Casas antigas e energeticamente ineficientes são o prato do dia tanto na Austrália como em Portugal. No entanto, remodelar uma casa antiga ainda é uma opção mais sustentável do que construir uma casa nova. Porquê? Porque grande parte da energia, recursos e água necessários para construção da casa já foram utilizados e os poluentes que daí resultam já foram libertados.
Também se diz que é mais caro reabilitar do que construir de novo, mas isso é na construção convencional, que recorre a materiais novos e grandes alterações na estrutura da construção. Bem diferente do que a Kat e o Nik têm feito.
Além disso, quando pensamos no preço é importante contarmos com o “custo ao planeta”, o tal custo não sai do nosso bolso mas provavelmente sairá do bolso dos nossos filhos ou netos.

Um quarto de argila, palha e madeira para os hóspedes
Para remodelar a casa e outras estruturas a Kat e o Nik utilizam maioritariamente materiais reciclados, naturais e não tóxicos. Um óptimo exemplo disso é a antiga casa de ferramentas ao fundo do jardim que eles transformaram num quarto de hóspedes super catita.

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A casa das ferramentas e o jardim (antes)

Nenhum deles tinha experiência de construção e foram necessárias vários dias de pesquisa para escolher a melhor técnica e os materiais mais adequados. Optaram pela técnica “light earth building” (terrapalha em português). Utilizaram madeiras que recolheram na rua, palha de fornecedores locais e argila do próprio quintal, um trabalho e tanto que contou com as muitas mãos de amigos e voluntários!

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A Kat e a Berber (voluntária) a colocarem pontos de luz na parede. Garrafas velhas que em vez de irem para o lixo passaram a ter local de destaque.


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A nova construção funciona como quarto de hóspedes e como casa de materiais e ferramentas (cada elemento desempenhas múltiplas funções)


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Adorei ficar neste quarto! As construções de materiais naturais fazem-me sentir bem. Foto: Oliver Holmgren

Soluções pequenas e lentas, simples e económicas
A Kat e o Nik não estão interessados em pedir dinheiro ao banco (não lhes interessa pôr uma corda ao pescoço) para remodelar a casa ou o jardim. Querem fazê-lo de forma ética e responsável e para isso há que ser criativos! É o máximo ver como eles descobrem soluções simples para problemas complexos. Talvez porque não têm pressas, sabem que devagar se vai ao longe e que o “The Plummery” é um projecto de vida!

Aqui alguns exemplos do que eles têm feito na casa principal:
Janelas alternativas
-Abriram janelas no tecto para criar entradas de luz em vários cantos da casa que eram escuros (tenho visto isto por toda a Austrália, chama-lhes sky lights).
-Construíram molduras de madeira com vidro, janelas destacáveis para transformar janelas simples em janelas de “vidro duplo”.
-Colaram plástico de embalar (aquele com bolinhas) sobre as janelas que não têm vista, para aumentar o isolamento.

Água (nada se desperdiça, tudo se transforma)
A Kat e o Nik têm uma casa de banho normal, mas preferem a casa de banho seca e o “balde do xixi”. O xixi dilui-se e vai directamente para as plantas do jardim e o cócó fica guardado em barris fechados durante 1 ano com minhocas californianas (especiais de corrida para ajudar na decomposição). Depois disso é adicionado aos canteiros das árvores de fruto que retribuem com colheitas abundantes!
A água de lavar a loiça fica no alguidar e vai para a bananeira que está na estufa logo à saída da cozinha. Desta forma a água é purificada e aumenta-se a produção de bananas (um belo exemplo de como o problema se transforma na solução). Por agora o sistema ainda é manual, mas em breve todas as águas cinzentas (águas do lava-loiça, do lavatório, da banheira e máquina de lavar) serão directamente canalizadas para as árvores de fruto que vão ter rega gota a gota por gravidade.

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Bidons cheios de fertilizante humano


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Bananeira na estufa, à porta da cozinha.


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Com esta super colheita de uvas de mesa, há sumo de uva (delicioso) o ano todo.

Grande produção num pequeno espaço
Produzir intensivamente em pouco espaço é um dos princípios da permacultura, ttalvez o melhor princípio para descrever o jardim, horta e pomar da Kat e do Nik. Sim, eles são a prova de que independentemente do tamanho do nosso quintal, com bom design é possível produzir para “dar e trocar”.
A quantidade e diversidade de legumes, frutos, ervas aromáticas e salada que a Kat e o Nik produzem em casa é impressionante. E, claro, tudo biológico! No máximo adicionam composto ou vermicomposto (fertilizante produzido por minhocas, resulta da compostagem de restos da cozinha).

Foto: Oliver Holmgren

Produção outonal, reparem na diversidade de culturas que estão nas camas elevadas e nas árvores de fruto, que estão podadas para ocuparem pouco espaço e não ensombrarem.

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Um cabaz biológico de qualidade comprovada.

Na realidade o jardim da Kat e do Nik até produz a mais. Nada que não seja possível de contornar com conservas de fruta, sumos e pickles… Ou com trocas com os vizinhos que produzem outras coisas, ou directamente com a padaria que troca um molho de ervas aromáticas por um pão caseiro dos grandes.

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Espiral de ervas aromáticas. Um óptimo design para quando se tem pouco espaço! Para explorarem cliquem aqui.

Varrer as ruas dá saúde e faz sorrir
A natureza tem ciclos de recursos e nutrientes fechados onde nada se perde e tudo se transforma. Um dos objectivos de qualquer projecto de permacultura é criar estes ciclos fechados e reduzir, ou mesmo acabar, com a importação de materiais do exterior.
No entanto, enquanto os projectos são jovens pode ser preciso importar materiais e reciclar lixo é uma óptima forma de o fazer!
A Kat e o Nik encontram todo o tipo de materiais pelas ruas de Melbourne e ainda se divertem à grande. Principalmente no Outono quando o “target” são as folhas das árvores que estão espalhadas pelas ruas. De vassoura em punho lançam-se à tarefa, uma das preferidas, de recolher folhas em barris para utilizar na horta como mulch. Aqui os benefícios do mulch e outras dicas interessantes.

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Camas elevadas cobertas por folhas (mulch).

Sustentabilidade nas mãos dos cidadãos!
Em 2050 estima-se que 70% da população mundial viverá em cidades.
Hoje em dia a maior parte das cidades são exemplos de insustentabilidade ambiental e desigualdade social, mas eu acredito que se cada um de nós se comprometer a viver de forma mais responsável e contida (produzindo mais, reduzindo o consumo e partilhando os recursos) é possível redesenhar o futuro das cidades.
Há um movimento de cidadãos incrível chamado Transition Network, que está espalhado pelo mundo inteiro e tem o objectivo de redesenhar as cidades para um futuro “menos dependente de combustíveis fósseis”. Em Portugal já há várias “Iniciativas de Transição” . Vale a pena espreitar!
Adorei passar 5 semanas com a Kat e o Nik e perceber na realidade a mudança está nas nossas mãos e a criatividade é o único limite!

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mais fotos aqui