[mpc_vc_share_list title=”” facebook=”1″ twitter=”1″ google_plus=”1″]

Texto
Patrícia Maia Noronha

Ilustração
João Pedro Coutinho

6 Fevereiro 2016

Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. De 15 em 15 dias, há ficção na Preguiça Magazine.

ELO INVISÍVEL
PATRÍCIA MAIA NORONHA

Vi a tua boca. Ao longe. Sigo agora pelas ruas atrás dos teus passos. Uma mulher de saltos altos passa por mim, a tentar a elegância entre os calhaus desta noite tão escura. Hesito entre ti e ela. Decido por ti. O bar em que entraste tem anjos atrás das garrafas. Parece que entoam uma melodia divina.

Sento-me ao balcão e peço um whisky puro. Não, duas pedras, afinal. Vejo-te lá ao fundo, numa mesa com outras pessoas.
Não sabes de mim. Mas eu olho para ti. O meu whisky está quase a acabar. Talvez eu não esteja aqui a fazer nada. Mas olho para a tua boca e tudo se reorganiza.

Concentro-me no objectivo. Hoje és tu. Amanhã pode ser outra qualquer. Sem nenhum pretexto passo pela tua mesa. A tua boca sorri mas não é para mim. Volto ao balcão.

“Outro whisky, por favor”.

Alguém carregou no pause e fica tudo em stand by. Tu e os teus amigos. Eu e o balcão. Menos a cinza e o fumo, sempre em mutação. Acendo mais um cigarro no mesmo ponto em que o outro acabou. Fumar mata. Diz o maço. Mas eu não lhe ligo nenhuma.

E então tu levantas-te. Os meus olhos reabrem-se. Tudo retoma a velocidade normal, ou talvez o ritmo esteja um pouco acelerado. Diriges-te ao balcão. Tenho-te ao meu lado.

“Um vodka ananás, se faz favor…”, diz a tua boca, cuidadosamente pintada de vermelho.

O barman prepara a tua bebida, enquanto esperas ao meu lado. Entram tambores na música dos anjos e fazem um barulho ensurdecedor. Olho para o whisky… Pelo canto do olho vejo outra vez aquela que é a tua boca. Aquela que espera pelo vodka.

Fazes de conta que não, mas eu sei que já me viste. Os meus olhos passam do meu whisky para a tua bebida. Da tua bebida para os teus lábios, que a sorvem pela primeira vez. Dos teus lábios para a tua garganta, por onde o líquido agora escorre. Da tua garganta para a tua voz, a dizer

“Obrigada!”

E dás meia-volta com o copo na mão, ao mesmo tempo que os teus olhos passam semicerrados por mim. Eu sei que já me viste. Não te preocupes que eu espero. Não te preocupes que eu espero por ti.

São mais cinco whiskies antes de isto fechar e tu saíres pela porta, onde quase tropeças por causa do vodka. Alguém te ampara o caminho e a tua boca ri. Eu vou com vocês um pouco mais atrás. Há entre mim e o vosso grupo um equilíbrio frágil, promovido unicamente por mim. Um elo invisível, do qual só eu me apercebo. Não te preocupes que eu olho por ti. Finges que não, mas sabes que olho por ti.

Caminhamos. De todos os barulhos só oiço o som da tua voz. Isto está a chegar ao fim. A rua prestes a acabar e tu dizes-lhes adeus com um beijo que envias pelo ar através da palma da tua mão. Voltas a rodopiar como quando estavas no bar e os teus olhos, mais uma vez, passam por mim. Eu sei que tu sabes que eu olho por ti.

Sigo-te até ao carro, serenamente, como está combinado pelos anjos. Não encontras as chaves na mala. E sentes que estou mesmo atrás de ti. Agora, que as encontraste, já sentes a minha respiração perto da tua nuca, onde alguns cabelos dourados se soltam do elástico que os prende. E o molho de chaves faz um ruído metálico ao cair, assustado, no chão.

Sou eu que te agarro e às chaves também. Sou eu que abro a porta do teu carro enquanto dizes não. Sou eu que abafo os teus gritos ao beijar com força a tua boca. A mesma força que te despe. Fazes de conta que não. Mas eu sei que tu também queres.