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Entrevista
Carina Correia

Fotografias
Bruno Pires

12 Fevereiro 2016

Na rubrica Fora de Cena, com um formato quinzenal, pretendemos conhecer o percurso de alguns actores que fazem do palco a sua vida, olhando-os para além das personagens que vestem. É sobre teatro que aqui falamos, mas o que queremos mesmo é ouvir as histórias reais, onde cada um se apresenta ao vivo e a (muitas) cores.

Joana Macias é presentemente actriz na marionet, onde faz o que mais gosta: contar histórias, representando-as. Vê o teatro como a arte do efémero, onde tudo é possível, e acredita que esta terá um futuro sorridente no nosso país, com mais e melhores públicos.

O que te motivou a ir para o teatro e como tem sido o teu percurso?
Desde os 8 anos que queria fazer teatro. Sempre disse que queria ser actriz. Cresci à volta dos livros e sonhava com a melhor forma de contar as histórias ao público. Aos 15 anos fui para a Academia Contemporânea do Espectáculo. A partir daí nunca mais parei. Desde interpretação, animação, produção, formação. Conto histórias. Represento-as.

Na tua opinião, o que distingue o teatro de outras artes (como o cinema, por exemplo)?
O teatro é a arte do efémero. O cinema é mágico, mas pode ver-se o mesmo filme dez vezes. No teatro nunca é igual. Se virmos o mesmo espectáculo dez vezes, dez vezes ele será diferente. E claro que isto traz uma infinidade de possibilidades para o actor.

Para ti, o que caracteriza uma boa personagem?
Aquela que consegue contar a sua história. Aquela que passa a mensagem. Aquela na qual acreditamos. Aquela que nos faz pensar. Quando vou ao teatro ou ao cinema, como público, gosto de acreditar naquilo que estou a ver. Preciso de entrar naquele mundo, seja ele qual for.

Alguma das personagens que já interpretaste te marcou especialmente?
As personagens de Max Aub, que interpretei duas vezes, com a direcção da Olga Roriz e do João Paulo Costa num dos projectos do Teatro Plástico (companhia da qual fui co-fundadora). Representar o mesmo texto duas vezes, mas de forma completamente oposta. Num, a base era o movimento, a acção e depois vinha o texto. No outro, a base era o texto e depois entrava a acção. Duas visões, dois mundos, o mesmo texto. E o resultado: personagens que à partida eram iguais e que, de repente, foram compostas com partituras absolutamente distintas.

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Como costumas lidar com as críticas?
As críticas fazem-nos ver o nosso trabalho do lado de fora, com outros olhos, se assim se pode dizer. Eu tento complementar o meu trabalho com o que de útil me vão dizendo, escrevendo. Vou, por assim dizer, limando arestas!

Conta-nos um episódio imprevisto que te tenha acontecido em palco ou na preparação de uma peça e como lidaste com ele.
Em 22 anos de teatro os episódios já são muitos. Um dos mais absurdos foi numa contracena em que o meu colega de palco teve uma grande branca. A todas as deixas que eu lhe dava me respondia com a mesma frase: “Precisamente”. Foi muito difícil não desatar a rir!

Quais os principais desafios e entraves com que geralmente te deparas e como costumas ultrapassá-los?
Enquanto intérprete, o maior desafio na construção da personagem é conseguir encontrar a ponta do fio do novelo, depois é só seguir o seu curso e chegamos lá. A adaptação ao texto, à linguagem cénica de quem dirige a cena, aos companheiros de cena, ao tempo (que tantas e tantas vezes é curto), às expectativas, ao cenário, aos adereços, à luz… tudo são desafios! E são bons porque nos fazem crescer. Os maiores entraves cabem sempre à produção, que tem de saber lidar com tudo e com todos, e com o pior de tudo – a falta de meios!

Mesmo sem bola de cristal, como vês o futuro do teatro em Portugal?
Melhor. Ou antes, menos mau! Sei que nunca vai ser fácil conseguir apoios dignos à criação para formar públicos, mas vejo a bola de cristal com um novo brilho! Criar. Educar. Animar. Partilhar. Construir em conjunto um novo caminho, com menos guerras e guerrinhas, menos lobbies e mais unificação. Todos a lutar pelo mesmo objectivo – levar as nossas histórias até ao público, e desta forma fazer com que o público queira mais e melhor, sempre. É assim que vejo, ou quero ver…

Que actor/actriz português/portuguesa mais admiras?
Admiro alguns actores ou criadores que conheço de ver nos palcos ou no cinema. Mas admiro bem mais alguns dos que tive o privilégio de trabalhar. Porque realmente os conheço. Conheço os seus métodos. Actores/criadores que sabem construir, que sabem dividir, que sabem dar para receber. Dizer um só não consigo. Seria demasiado injusta. A Julieta Aurora Santos, o Sérgio Santos, o José Cação, o Mário Montenegro, a São José Lapa, o António Fontinha e o Carlos Cunha são excelentes.

Tens algum ritual de entrada em cena?
Aquecer o corpo. Acalmar a alma. Vocalizar e focalizar sempre.

Qual a peça de teatro para a qual comprarias novamente bilhete para voltar a ver?
O que diz Molero, de Dinis Machado, com direcção de António Feio.