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Texto
Sara Peres

13 Fevereiro 2016

Não é do conhecimento público, mas em tempos, fui uma jovem estudante de jornalismo que acreditava que ter como profissão escrever e contar histórias era um bom projecto de vida. Era jovem e ingénua, mas empenho e vontade não me faltavam. Um dia (um sábado), já a trabalhar, percebi que o fosso que separava o jornalismo dos meus sonhos do jornalismo real era muito fundo.

As circunstâncias da vida acabaram por precipitar as decisões e saí do jornalismo para nunca mais voltar. Hoje, a relação que mantenho com ele é parecida com a que se deve ter com um grande amor que se deixou (ou nos deixou): passo a maior parte do tempo a apontar-lhe os defeitos e a criticá-lo, mas porque ainda gosto muito dele e queria sabê-lo de boa saúde.

Foi por isso que ao ver o filme Spotlight saí da sala de cinema a sorrir, mas deprimida. Não me interpretem mal: a pedofilia é um crime hediondo. Mas o filme é muito mais complexo do que um simples retrato do que vai mal no seio da Igreja Católica.

O centro da narrativa reside no facto de a cidade inteira ter conhecimento do sucedido e ainda assim, preferir ignorá-lo. Esse foi um dos motivos que me levou a abandonar a sala deprimida: apesar da demora, os jornalistas e o Boston Globe acabam por expor o caso e a verdade ressurge. E caso o jornal não tivesse tornado a história pública, o silêncio venceria e os autores dos crimes permaneceriam incólumes.

Claro que alguns continuaram – e continuam – intocáveis. Ainda assim, os seus nomes estarão para sempre associados à história, uma vez que esta entrou no domínio público. Foi para este jornalismo que estudei e trabalhei. Nada me deixa mais deprimida do que ver jornais morrer e, pior, saber que os que subsistem não fazem grande caso da sua função enquanto “quarto poder”. O lucro é prioritário, o fundamental é estimular os leitores com sangue, sexo, escândalos. Às vezes pergunto-me se a humanidade não alcançou um estado de conforto demasiado elevado e é por esse motivo que procura notícias que apelem à emoção, e a faça sentir algo. Ao mesmo tempo, entrámos num período de hipersensibilização em que determinadas palavras e algumas piadas se tornam proibidas, não se vá ofender alguém.

Considerações pseudofilosóficas à parte, preocupa-me que os jornais possam desaparecer. Não me inquieta tanto a questão papel/digital; trata-se de algo mais importante, da democracia como a conhecemos. É um sistema imperfeito, sem dúvida, mas por isso mesmo necessita de um elemento externo que lhe traga equilíbrio, que exponha as suas fraquezas, para que possa melhorar e tornar-se mais forte. Uma espécie de guardião. Um quarto poder.

Na realidade, tudo isto se aproxima cada vez mais da utopia, por motivos sobre os quais não adianta aqui discorrer. Quero acreditar que será possível sobreviver, claro, mas as últimas notícias a respeito do jornal Público deixam-me pessimista. Lá longe, no Reino Unido, Independent e Independent on Sunday deixarão de existir em papel a partir do fim de Março para apostar na versão digital. Não são as notícias que esperava, mas se a qualidade se mantiver, sempre será melhor do que uma perda total. Na verdade, tudo será sempre melhor do que o desaparecimento do jornalismo. Para sempre.