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Texto e fotografia
Eunice Neves

16 Fevereiro 2016

Apresento-vos a australiana Rosemary Morrow, Rowe, para os amigos, uma das mais respeitadas designers e professoras de Permacultura do mundo. Uma grande senhora, com uma carreira impressionante e uma simplicidade admirável.

A Rowe é uma professora especial que se senta no banco dos alunos e deixa que eles ensinem mais do que ela. Sim, eu fui aluna e confirmo! Nas aulas da Rosemary não há “o professor” e “o aluno”. A troca de informação é facilitada de forma horizontal e durante o curso “somos todos professores e todos alunos”. E os resultados…? São fascinantes.

Um livro que vale a pena. Conheci a Rosemary através do livro “Earth User’s Guide to Permaculture”. Li-o pouco tempo depois de ter feito o meu primeiro curso de permacultura e fiquei apaixonada pelo trabalho dela e por ela!
Se querem aprofundar o que é isto tudo da permacutura aconselho vivamente este livro – a versão brasileira “Permacultura Passo a Passo” é bastante boa. O livro está muito bem organizado e cheio de ilustrações simples para descrever assuntos complexos, porque a Rosemary trabalha muito com pessoas iletradas, em países “pobres”, e contratou um ilustrador para que também elas pudessem usufruir da informação.

Trabalhar por causas nobres. Graduada em Ciência Agrícolas, Sociologia Rural, Desenvolvimento e Horticultura, a Rowe afirma que descobriu no design de permacultura a abordagem holística, prática e ética que melhor lhe permitia pôr o seu conhecimento ao serviço e benefício dos mais necessitados.

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Há quase 40 anos que trabalha pelo mundo: África, Ásia e Europa. Especialmente com populações de países afectados pela guerra como o Vietname, Camboja, Uganda, Etiópia, Afeganistão e Timor Leste; comunidades afectadas pelas alterações climáticas, como é o caso das ilhas Solomon e países afectados pela crise financeira global, como são a Espanha, Portugal e Grécia.
Foi precisamente em Portugal que eu a conheci pessoalmente, quando ela veio dinamizar um curso para professores de permacultura em 2012 e um PDC (Permaculture Design Course) em 2013. Ambos na Quinta Vale da Lama, um belo projecto de permacultura no Algarve que vale a pena conhecerem.

Sair da crise. Sei que a Rowe veio a Portugal por achar que a permacultura é uma ferramenta importante para as pessoas em tempos de crise. E eu acho que ela tem muita razão! Aliás, seria um óptimo curso para integrar nos programas do Centro de Emprego. Porquê? Porque nos ensina a perceber o mundo em que vivemos:
– o mundo natural (água, clima, solo, plantas, animais, fungos…);
– o mundo social (comunidades intencionais, vilas, cidades, arquitectura sustentável, energias renováveis low-tech…);
– o mundo económico (dinheiro, comércio justo, investimento ético, moeda local, bancos do tempo…);
Entre muitas outras coisas importantes. Para olharmos para a crise não como um problema mas como uma solução. Uma solução para sairmos das “asas” dos governos (quase sempre corruptos) e passarmos a governar-nos a nós próprios de forma ética, ao nível local e com o apoio uns dos outros.

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Curso para professores de permacultura na Quinta Vale da Lama em 2012

A permacultura ensina-nos a perceber o mundo em que vivemos e a desenhar o mundo em que queremos viver. É uma ferramenta que reforça em muito as nossas capacidades e nos confere poder. O tal “empowering the people”, que soa melhor em inglês.

O outro lado do mundo. Nesta minha jornada de estudo pela Austrália, que vai agora com quase um ano, a Rosemary tem sido uma das minhas mentoras. Que privilégio poder aprender mais com ela e visitá-la neste outro lado do mundo, onde a permacultura começou! A Rowe vive num propriedade muito catita que ela redesenhou para que fosse mais confortável e sustentável. É a quinta propriedade que ela redesenha de acordo com os princípios da permacultura. Quando fui ter com ela às Blue Moutains (uma região muito bonita da Austrália) fizemos uma visita a algumas dessas propriedades. Foi especial ver, ao vivo e a cores, as casas e jardins que aparecem no livro e nos vídeos dela, que há tantos anos eu acompanho e estudo. Aqui um vídeo interessante.

Design sustentável. A Rowe já fez tanto design de propriedades que o processo de design e o pensamento sistémico do designer já são intuitivos para ela. Por vezes até demais, confessa. Não consegue desligar desta forma analítica de observar tudo o que a rodeia e magicar várias soluções possíveis.

Antes de adquirir esta última propriedade, onde está há 3 anos, considerou vários critérios. Critérios que são hoje diferentes do que eram há 20 ou 30 anos, afirma. Está a caminho dos 75 anos e tem a consciência que não consegue fazer tudo o que fazia quando tinha um corpo jovem. Mas não há problema, porque um bom designer arranja soluções “à prova de idade”!

Critérios de escolha:

  • propriedade pequena;
  • proximidade a lojas e serviços a pé (com o objectivo de se ver livre do carro);
  • espaço exterior com dimensões para criar um jardim, cultivar o solo, captar e tratar a água;
  • boa localização para receber visitas de amigos e estar integrada na comunidade local;
  • boa exposição solar;
  • casa fácil de redesenhar e adaptar;
  • distância do barulho do trânsito e dos comboios.

Encontrou uma propriedade no centro de Katoomba (uma pequena cidade simpática, a mais visitada das Blue Mountains) que correspondia a quase todos os seus critérios. E, desde então, tem vindo a transformá-la num exemplo de permacultura.

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Vista do portão da entrada para o jardim e casa

Propriedades que conservam e restauram os recursos naturais. Segundo a Rosemary, temos de nos precaver quanto a um futuro incerto em termos de disponibilidade de recursos e energia e começar o quanto antes a alterar as nossas casas e jardins, o nosso estilo de vida e hábitos de consumo. Aprender a viver em simplicidade e confortavelmente com menos.

Eu passei duas semanas em Katoomba com a Rowe e posso dizer-vos que se vive muito bem com mais simplicidade e relação com a Natureza. É fácil perceber quando uma propriedade tem um design de permacultura, diz a Rowe. Há certos elementos que vão estar presentes e em determinada localização. Estes elementos estão relacionados com as nossas necessidades básicas de água, alimento, abrigo e saneamento e com o design para a eficiência energética.

Água: os tanques de recolha e armazenamento da água das chuvas são normalmente colocados na zona mais alta da propriedade, de modo a usufruir da gravidade (energia grátis) na rega.

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Os dois tanques recolhem a água do quarto exterior (10.000 litros x2) e o pequeno lago recolhe o excesso de água dos tanques e a água das chuvas (5000 litros)

Alimento: os canteiros com plantas aromáticas, saladas e hortaliças estão na proximidade da cozinha, em zona soalheira e de fácil acesso. Produção em maiores quantidades, por exemplo batatas, frutas ou cereais, está normalmente mais afastada. Os restos de materiais biológicos formam pilhas de composto colocadas onde vier a ser necessário.

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Algumas ervas aromáticas e outros hortícolas que precisam de mais atenção estão mais próximos da cozinha. As árvores de frutos que não precisam de tanta atenção estão mais atrás


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A Jenny e eu a fazer uma pilha de composto com restos de cozinha e podas

Saneamento: existem pontos de recolha das águas residuais (normalmente as águas chamadas cinzentas, dos banhos ou loiça) que são pequenos lagos ou tanques, onde crescem plantas especialistas em depurar a água que depois pode ser devolvida às linhas de águas ou utilizada na rega da horta e jardim.

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As águas cinzentas escoam directamente para este pequeno lago com gravilha e plantas macrófitas, que depuram a água

Abrigo: a casa, normalmente localizada a meia encosta, para usufruir da gravidade, tem uma boa exposição solar e um design solar passivo, que permite aproveitar ao máximo o sol para o aquecimento no Inverno e o ar fresco para o arrefecimento no Verão. Os materiais são preferencialmente naturais e reciclados.

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“Janela sofá” permite tirar o máximo proveito da exposição solar


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Cozinha toda montada com madeiras e móveis reciclados

Em geral, a propriedade da Rosemary distingue-se das propriedades vizinhas pela cor, diversidade de materiais, fertilidade, vida animal e vegetal… e criatividade!

Sentimo-nos bem, tanto dentro de casa como no jardim. E os espaços são agradáveis e convidativos às mais variadas actividades, tanto no Inverno como no Verão. Que o digam os vizinhos mais pequeninos, que adoram brincar e explorar o jardim!

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O jardim transforma-se num parque de diversões para estes meninos. Escondem pedrinhas, procuram sardaniscas, joaninhas, brincam às escondidas… o que lhes apetecer

Cuidar da terra e das pessoas. Passar duas semanas com a Rosemary foi suficiente para perceber como ela está presente na sua comunidade, apesar de passar muitos meses fora a ensinar. É muito dinâmica e está sempre disposta a ajudar quem precisa, seja a tomar conta dos vizinhos mais pequenos, seja a fazer voluntariado com grupos cuidam de espaços verdes, seja a ensinar permacultura à população local nos jardins comunitários ou a colaborar com uma estudante portuguesa muito curiosa e com mais de 100 questões para lhe colocar. Literalmente!

Ter vivido com a minha grande ídolo profissional, e uma das minha heroínas, é algo que vou guardar sempre comigo. Uma experiência inimaginável, maior do que qualquer sonho!