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Texto e Fotos
Katy Deodato e Ricardo Santos

24 Fevereiro 2016

Dia 20 de Fevereiro fez precisamente 5 meses que meti meia dúzia de coisas na mochila e fui com o Ricardo armados em escuteirinhos para uma viagem pelo Sudeste Asiático.

O principal objectivo desta trip, mais do que conhecer lugares, era podermos estar nos locais calmamente para conhecermos pessoas e por isso achámos que o voluntariado seria uma excelente oportunidade. O país escolhido foi Timor Leste, em Setembro de 2015 lá nos enfiámos naquela coisa voadora e ao fim de quase 15 dias chegamos, estou a brincar, mas foi quase.

Timor Leste é longe para caraças. Como é que os tugas naquele tempo foram desencantar este pedaço de terra no Pacífico e por lá viveram 400 anos? Desfizemos as malas e ficámos a viver em Timor por 3 meses, a ensinar e dar continuidade à herança que deixamos, a nossa língua. O português é hoje uma das línguas oficiais do país, assim como o Tétum, mas pouco se fala a língua de Camões nas ruas.

No tempo em que pudemos descobrir Timor encontrámos um país que “esqueceu” o sofrimento da invasão e acredita no futuro promissor da sua terra. O povo continua igual a si próprio, com uma resistência ao mundo moderno, ainda… Parece que vivemos naqueles três meses num outro mundo. No mundo de Timor mais equiparado ao que seria o nosso portugalinho nos anos 50 para aí, mas com a particularidade que aqui as mulheres não têm bigode.

A Igreja católica está presente em força no país mas é pelas crenças animistas que o país ainda se rege possuindo uma cultura ancestral. Acreditando nos elementos da Natureza como a criação de tudo o que lhes acontece na vida, possuindo por isso muitos locais, animais e coisas sagradas.

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As aulas de português. Díli, Timor Leste


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Criançada timorense, envergonhados mas cheios de grandes sorrisos

A terra do crocodilo, o avó como carinhosamente chamam ao bichano (que às vezes lá vem fazer uma visitinha, tanto no mar como na terra) é palco de lindíssimas praias virgens e paradisíacas. Com montanhas e florestas densas e intocáveis. Um verdadeiro regalo para quem aprecia a Natureza no seu estado puro.

Andar nas “estradas” de Timor é o Texas, é o fungagá da bicharada, com tantos animais a circularem na rua. As distâncias são medidas em horas, muitas horas e horas essas que foram percorridas dentro de latas velhas com 4 rodas carregadíssimas de tralhas. Ninguém fica em terra, que há sempre espaço para levar mais qualquer coisa ou qualquer pessoa.

Num autocarro com capacidade para 20 lugares sentados, o povo timorense consegue dar a volta à situação e cabe o dobro. O espaço que fica no corredor é excelente para atafulhar coisas e ainda há a possibilidade de ir gente sentada em cima dessas coisas. Excelente!

Entretanto, também é preciso levar o porco, as galinhas ou a cabra. Não há problema! Bem amarradinhos vão bem no tejadilho. Também sentadas no tejadilho vão mais umas pessoas por isso também dá para levar os animais. A par disso tudo, ainda pelo caminho o motorista tem de ter cuidado com as muitas crianças que brincam na estrada ou entretidas com qualquer pauzinho ou pedrinha que encontram.

Nós, os portugueses, somos as pessoas queridas de Timor, havendo até uma dor de cotovelo por parte dos outros estrangeiros que por lá vivem. O português é acarinhado de uma forma que nunca pensei encontrar. Veneram a nossa cultura e fazem questão de nos agradecer quando o tema de conversa vai parar à invasão da Indonésia.

Quando lá estivemos, também nos apercebemos de que a história não foi bem contada. Mas isso não interessa para nada, são águas passadas e o povo timorense, apesar de tudo, tem uma humildade e um sorriso contagiante. Adoram dançar agarradinhos, ao bom estilo português, orgulham-se de ser o único povo na Ásia que o faz desta forma.

A hora de voltarmos a fazer as malas e deixar Timor foi difícil. Mais do que a experiência de ensinarmos, foi o que o povo timorense nos conseguiu ensinar: o passado é passado, o presente é viver, o futuro ninguém sabe…. E foi com esta convicção que prosseguimos a nossa odisseia… Deixámos Timor e fomos conhecer a Indonésia.

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Foram cerca de 500 km numa scooter entre Bali e Lombok


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Mini filipino de chocolate


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Campismo selvagem em Germany Island – Port Barton, Filipinas

Um mundo à parte com 17 mil ilhas que nos fazem suspirar em cada praia que se pára. Parece que entramos num cenário de filme. De motinha percorremos uma ilha (Lombok) em que o seu povo, muçulmano afirma que a maldade não está na religião mas sim nas pessoas que a praticam. Fomos recebidos por pessoas que nos fazem acreditar ainda neste mundo, como um todo, apesar das diferenças culturais e religiosas. A Indonésia é um exemplo que mostra que se consegue viver com toda a gente em sintonia.

De Lombok a Bali é um pulinho e mais uma vez de motinha fomos procurar as praias mais badaladas do surf. Bali foi uma surpresa estranha: tanto ouvimos falar de um destino tropical e paradisíaco… lamento informar ou estragar o sonho, ou imaginário de alguém, mas Bali tem tudo menos aquelas praias paradisíacas. Digo mesmo que Portugal tem praias muito mais bonitas. O especial de Bali são as ondas, as águas quentinhas que fazem as maravilhas dos banhistas, surfistas e as minhas, pois adoro ver aquele “show di mar a ser surfado”.

Mas a cultura balinesa é cativante pelas suas crenças, pelo modo de vida hindu e por todo o cuidado e requinte com que o povo artisticamente esculpe um pedaço de pedra ou de madeira. Toda a vibe da ilha torna Bali um lugar especial e de visita obrigatória.

Estando num país em que temos de estar atentos às chuvas e monções, o calendário dizia-nos que o melhor era irmos para outras terras, e assim foi. Com a facilidade que há em viajar por aqui, num instante nos metemos num avião (daqueles que as passagem são superbaratinhas, mas que depois lá caem) e fomos até às Filipinas em meados de Janeiro.

Agora que já somos bué viajados , uuuu!!! também somos uns esquisitinhos e já não é qualquer sítio que nos tira um uuaauu. E a primeira semana nas Filipinas foi uma facada ao meu imaginário mundo paradisíaco que esperava encontrar. Com os prémios que as Filipinas têm vindo a ganhar, o turismo tem alcançado uma proporção que o povo não está a conseguir gerir. A ganância de poderem ganhar dinheiro com os turistas fez com as Filipinas fosse o país mais caro por onde andámos, mas sem as mesmas condições que encontramos nos outros países; ou seja, mais caro e menos condições.

Tudo o que é belo está mais do que explorado, tudo o que é virgem não tem estrutura para receber almas vivas independentes como nós. Mas aqui também os culpados fomos nós: como somos assim mais descontraídos e no estilo do deixa andar, não planeámos nada, nem lemos nada sobre os sítios onde devíamos ir e aterrámos de pára-quedas no meio da enchente de turistas chineses e russos.

As praias não deixam de ser belas, de águas azul-turquesa, mas a multidão e a concentração de alojamento por metro quadrado é que nos assustou e fez com que quiséssemos fugir destes sítios a sete pés. Em conversa com locais e outros viajantes na mesma onda, sugeriram-nos Port Bartom, na ilha de Palawan e aqui sim fiquei de queixo caído.

Parecia que tinha entrado naquela praia que todos já vimos no ambiente de trabalho do Windows, surpreendentemente belo. Praias com tudo o que a nossa imaginação tem direito de sonhar, coqueiros, praia deserta, águas cristalinas com tartarugas, peixes e estrelas-do-mar de todos os feitios. As Filipinas acabou assim por ser a cereja no topo do bolo nesta viagem que tinha os dias contados.

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Bali, mar, surf e pôr-do-sol.


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Até estava com medo de a agarrar. Estrela-do-mar, em El Nido, Filipinas


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A tal cereja no topo do bolo que falei no texto, Filipinas

A ânsia de continuarmos não nos deixou regressar a casa a 12 de Fevereiro como estava nos nossos planos. A Austrália está aqui tão perto que não fomos capaz de a deixar visitar. É daqueles destinos que muito provavelmente se regressássemos a casa nunca iríamos visitar, pela distância e pelo preço dos voos a partir de Portugal. Mas a partir de Bali era muito fácil de chegar, apenas 4 horas de viagem. A pesquisa sobre a Austrália foi intensa e sabíamos que não é um país propriamente barato. Por isso pretendemos com esta nova aventura procurar formas de viajar por aqui gastando o mínimo possível.

Iniciámos a nossa road trip em Perth, na ponta mais oeste da Austrália, a 5 mil km de distância da ponta este onde se encontra Sidney. Inscrevemo-nos num Workway, que é o mesmo que, em troca do nosso trabalho (4 horas diárias) oferecem-nos alojamento e alimentação. E é o que estamos agora a fazer: vivemos com uma família que precisava de ajuda nas lides domésticas e a família paga-nos com um confortável colchão e um frigorífico recheado à nossa disposição. Perfeito!

Pretendemos andar por aqui desta forma sem, ainda, datas de regresso e sem planos a longo prazo. Portugal pode estar perto ou pode estar longe; a Austrália pode ser o último país ou mais um carimbo no nosso passaporte.