Há 81 anos que a banda sonora da sua vida é o cantar das mós. É descendo os caminhos estreitos e acidentados do Vale do Lapedo, em Santa Eufémia, que podemos encontrar Manuel Carreira. Todos têm um apelido mas, ao fim e ao cabo, é a profissão que lhes dá o nome. Assim, o mestre passa a ser conhecido por Manuel Moleiro.

Texto: Joana Areia
Fotografia: Ricardo Graça

Atravessando a pequena ponte chega-se ao n.º 950, habitação e local de trabalho do mestre. Nasceu ali e pode dizer-se que “com poucos dias de vida já apalpava farinha”. Ser moleiro está-lhe no sangue, ou não tivessem tido o avô e o pai a mesma profissão. É uma arte que também passou aos filhos – apesar de não a praticarem – e garante que deixa tudo em condições para que a actividade possa ter continuação.

Do alto dos seus 81 anos de vida recorda “os tempos áureos que já lá vão”, mas também muito duros e trabalhosos. “Tínhamos de acordar muito cedo, subir o vale e percorrer os lugares em redor para fazer a recolha dos cereais dos clientes. Regressávamos ao moinho, fazíamos a moagem e voltávamos a subir o vale para fazer a entrega da farinha.” Um trabalho em que apenas se usava a força do corpo: os carregamentos eram feitos às costas. Depois passou a ter um ajudante, um burro, mas ainda assim demorava muito tempo no caminho.

Mais tarde, já depois da tropa feita e de quatro anos passados em França, Manuel Moleiro atingiu o seu objectivo: amealhar algum dinheiro para comprar uma carrinha, para facilitar o transporte dos cereais. Desde então, nunca mais deixou de ser moleiro. Um trabalho que dividia entre o criar dois filhos e ajudar a esposa.

Antes, no Vale do Lapedo, o “trre, trre, trre” das mós ouvia-se dia e noite. “Naquela altura, toda a gente cozia broa, toda a gente cultivava milho e cada moleiro tinha os seus clientes. Agora há dias que não há que fazer.” Manuel Moleiro trabalha apenas com uma padaria que ali leva o milho para moer e, de vez em quando, um ou outro cliente que ali se desloca para o mesmo serviço. A farinha que sai serve apenas para fazer broa. São duas pedras a trabalhar para isso. A terceira pedra serve, muito de vez em quando, para moer outro tipo de cereal, como por exemplo o trigo.

O cantar das mós de granito ouve-se agora menos vezes. São as águas da Ribeira do Sirol que fazem movimentar o rodízio, que por sua vez faz andar as mós – a moente e a mordente. Enquanto houver água, as mós vão trabalhando e a verdade é que ali nunca faltou.

Cumprindo hoje, como há centenas de anos, os mesmos rituais, com as mós em andamento, o moleiro enche a moega com os cereais, que vão caindo para o olho da mó, ao ritmo do chamadouro – um instrumento que controla a quantidade de cereal que vai caindo. A farinha vai-se armazenando numa pequena arca de madeira e depois segue para os sacos.

Apesar de as mós serem as principais responsáveis pela tarefa da moagem, o trabalho do moleiro exige paciência, força, destreza e também alguns segredos, que o tempo acaba por mostrar necessários. O moleiro transforma-se em mecânico quando é necessário afinar as engrenagens, ou em canteiro quando as mós têm de ser substituídas e picadas, uma vez que a sua superfície não pode estar demasiado lisa, visto que deixa de moer. Porque o trabalho pedia, “antigamente, a mó era picada de mês a mês; agora está cerca de quatro sem ver o picão”.

E porque “quem ao moinho vai, enfarinhado sai”, o amigo que ali entrar com algum conduto para partilhar o mestre Manuel garante o pão, porque em 81 anos de vida e quase tantos de trabalho também aprendeu o ofício de padeiro, mas foi o cantar das mós que o conquistou.